
  Cartas entre amigos, sobre ganhar e perder
  Autores: Gabriel Chalita & Fbio de Melo

  Quarta Capa
  A filosofia amplia a viso sobre os temas cotidianos e abre novas possibilidades. Em nosso corrido dia-a-dia, deparamos com questes aflitivas, sem conseguir pensar:
a poesia,a crnica, a cano, o romance e outras tantas formas que a arte assume e nos oferece o consolo da beleza, que nos faz sentir bem.  uma conversa entre
a tica e a esttica, entre o bem e o belo.
  Iluminados, no s pela obra de escritores consagrados - como Machado de assis e JOo Cabral de Melo Neto e a poesia de Castro Alves e Fernando Pessoa -, mas tambm
pela sabedoria milenar das sagradas escrituras e das diversas experincias humanas que presenciaram, Fbio de Melo e Gabriel Chalita aproximam a literatura da vida
em um envolvente e tocante dilogo.
  Em delicada troca de correspondncias, permeada por profunda sensibilidade, esses dois amigos conversam sobre perdas e ganhos que amodernidade nos apresenta.
  Inquietos diante da cruel realidade que nos cerca, compartilham com o leitor a esperana na amizade, no amor, na simplicidade e na f, como caminhos para um mundo
melhor.
  Fbio de Melo nasceu em Formiga (MG) em 1971. Sacerdote catlico,  formado em filosofia pela Universidade Nacional de Brusque (SC) e em teologia pela Faculdade
Perroniana de Taubat (SP), em cuja diocese atua.  ps-graduado em educao e mestre em teologia sistemtica pelo instituto Santo Incio em Belo Horizonte (MG).
Como compositor e cantor, tornou-se uma das principais vozes da nova msica crist.  autor de vrios livros em diversos gneros, ensaios teolgicos e filosficos,
crnicas e contos.
  Gabriel Chalita nasceu em Cachoreira Paulista (SP), em 1969. Graduado em direito e filosofia,  mestre em cincias sociais e direito pela Pontifcie Universidade
Catlica de So Paulo, e doutor em comunicao e semitica pela mesma universidade. Sua obra hoje compreende cinquenta ttulos, abrangendo vrios gneros: da poesia
aos ensaios de filosofia e direito, do infantil aos contos e romances. Foi secretrio da educao do estado de So Paulo e presidente do Conselho Nacional dos Secretrios
de Estado da Educao.  professor dos programas de graduao e de ps-graduao da PUC-SP e da Universidade Presbiteriana Mackenzie.  membro da Academia Paulista
de Letras e da Academia Brasileira de Educao. Foi o vereados mais bem votado do Brasil nas eleies de 2008.
  

  Contracapa
  Ignorar  a ritualidade da vida  o mesmo que quebrar seu encanto. Fazemos isso o tempo todo. Nossas pressas contemporneas no nos permitem demoras e estamos sempre 
atrasados! Mas o rito nos pede calma.
  Nasce o impasse. De alguma forma, temos que ceder: ou entramos no ritmo do rito, ou o ignoramos. E dessa forma, plantamos o futuro.
  Vez em quando, eu me deparo com colheitas infelizes, pessoas que descobriram que a pressa no valeu  pena. Correram atrs do mundo queestava distante, mas se 
esqueceram de viver o mundo que estava sob seu ps.

  Fbio de Melo.

  Ganhar ou perder so imagens que temos de momentos que vivemos, e depessoas com as quais nos surpreendemos. No sei, amigo, se voc tem medo das perdas - ou das 
pedras - que surgem por a. Ou se a pacincia j  convidada do seu alimento dirio.
  Persigo a pacincia como persigo a inquietao. No quero deixar as coisas como esto, quero mudar! Um mundo... Sim. E para isso, preciso tambm da pacincia e 
da cumplicidade.
  Sozinho sou incapaz de prosseguir, at porque os medos contemporneos no me abandonaram. Sozinho, sou capaz de desistir!

  Gabriel Chalita

  Cartas entre Amigos: Sobre ganhar e perder

  Gabriel Chalita e Fbio de Melo

  Para Zilda Arms,
  Amiga da Humanidade.
  "Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ningum, vale mais que uma vida ou a alegria de t-la.  isto que mais importa: essa alegria. Acreditai que a dignidade 
em que ho de falar-vos, tanto no  seno essa alegria que vem de estar-se vivo. E sabendo que nenhuma vez, algum estar menos vivo - ou sofre, ou morre, para que 
um s de vs resista um pouco mais  morte, que  de todos, e vir. Que tudo isto, saberei serenamente, sem culpas a ningum, sem cterror, sem ambio e, sobretudo, 
sem desapego  indiferena. Ardentemente espero."
   Tanto sangue, tanta dor, tanta angstia em um dia. Mesmo que o tdio de um mundo feliz nos persiga, no ho de ser em vo.
  Confesso que tantas vezes, pensando no horror de tantos sculos de opresso e crueldade, hesito por um momento e uma amargura me submerge inconsolvel.
  Sero ou no em vo. Mas, mesmo que o no seja, quem ressuscita estes milhes? Quem restitui, no s a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?  Nenhum juzo final, 
meus filhos! Pode dar-lhes! Aqele instante que no viveram; aquele objeto que no fluram; aquele jesto de amor que fariam amanh. E, por isso, o mesmo mundo que 
criemos, nos cumpre t-lo com cuidado, como coisa que no  s nossa. Que nos  seguida para guardarmos respeitosamente, em memria do sangue que nos corre nas veias. 
Da nossa carne que foi outra, do amor que outros no amaram porque lho roubaram.

  Jorge de Sena.
  Lisboa, 25 de junho de 1959.
  Primeira Carta

  Querido irmo Padre Fbil,
  Depois de alguma pausa, voltemos  nossa prosa. No fluxo de nossa vivncia, vamos aquinhoando experincias. Nossos olhares so capazes de reter consideraes que 
vo moldando o que somos.
  A imagem surge como luz. A imagem surge com os sentidos captando impresses. Depois dela, vem o conceito. O conceito  o que permanece quando a imagem se esvai. 
 como o conhecimento que fica com o avanar da aprendizagem. Lanamos mo de excessos para que a viagem fique mais leve ou para que o compartimento dos nossos sentidos 
receba outros companheiros.
  O bom conceito  aquele que traz a companhia da bondade, da gentileza, do respeito... entre outros avidamente esperados.
  Esperamos como necessidade vital. Esperamos o amanhecer e esperamos o entardecer. Esperamos a demorada cicatrizao da demorada ferida. Esperamos o amor, esperamos 
compreenso, compreenso apenas!
  Amigo, Guimares Rosa dizia que esperar  reconhecer-se em completo.  na conscincia de nossa incompletude que a espera ganha mais significado. O futuro existe?
  Esperamos uma humanidade mais evoluda, em que os direitos mnimos dos humanos sejam respeitados: uma humanidade fraterna. Quantos crimesbrbaros assombram nossos 
irmos?
  Sabe, amigo? Certa feita, em um congresso de direitos humanos, presenciei uma jurista indignada com os horrores praticados na Tanznia contra os albinos. Descrevia 
co mtamanha dor o que passam nossos irmos e tentava nos acordar do sono do comodismo.
  Sim! Porque parece que a dor alheia no nos pertence e que, portanto, no cabe a ns o exerccio do agir. Alis, no precisamos ir at a frica para perceber a 
nossa pouca ao. Basta olhar ao lado!
  O albinismo  um tipo de deficincia na produo de melanina. Os albinos tm a pele plida, esbranquiada, tm o cabelo fino e uma sensibilidade maior nos olhos, 
e sofrem quando esto expostos  luz. Ocorre que h uma superstio medonha, que afirma que eles servem para rituais de mandingas.
  Isso no acontece apenas na Tanznia, mas em outros pases da frica. Esses feiticeiros chegam a pagar uma verdadeira fortuna - em se considerando a pobreza desses 
pases - por um pedao do corpo de um albino. Se for de criana, o valor  maior. Vendem lnguas, braos, genitlias, pernas, etc. D sorte beber o sangue de um 
albino ainda quente,  o que acreditam.
  Fico imaginando o pavor dos pais quando os filhos demoram a voltar. A ansiedade em proteger a prole... Fico imaginando a prtica macabra, so humanos caados como 
animais. No estamos falando de uma outra era nem de fico. Enquanto rabisco estas palavras, h pnico em algum lugar do mundo na luta pela sobrevivncia.
  Sentem-se vencedores esses caadores de gente! Como se sentem vencedores os homens com as pedras nas mos, para dar cabo da vida de mulheres condenadas em pases 
cuja ligislao afirma ser o direito  honra superior ao direito  vida! Mulheres abusadas por uma sociedade machista, cheia de preconceitos, embrutecida pela piedade.
  A cena de uma mulher enterrada at a cintura sempre me causou a angstia. Fica assim, com as mo amarradas para no proteger o rosto das pedras jogadas sem comiserao.
  Em algumas comunidades, o incio do apedrejamento se d com pedras menores, para que a dor seja prolongada. Uma pedra maior poderia ser fatal e o divertimento 
teria menor durao.
  As pessoas vo aos montes para assistir e participar.  como uma festa, uma diverso qualquer. Assim faziam aqueles que saam s ruas para ver as pessoas serem 
guilhotinadas, ou queimadas - ou ainda enforcadas -. Essas penas corporais, capitais, perduraram durante muito tempo. Como tambm as arenas em que eram jogados os 
cristos para serem mortos pelos lees. E o blico assistia e ria do pavor com que corriam de um lado a outro at serem devorados!
  Que estranho prazer  esse? Que deturpao do conceito de conviver! E a compaixo? Os gladiadores no fazem parte do passado. O vale-tudo arrasta multides para 
torcer pelo mais forte. Quanto ao mais fraco, merece risos, vaias, despreso.
   apenas um perdedor. A sua dor parece encomodar menos do que a sua fragilidade. Afinal, o espetculo terminou mais cedo.
  H ainda os jovens em bando que, desafiados, so capazes de espancarat  morte quem cruza o seu caminho, ou queimam moradores de rua para amainar o tdio. Ou 
buscam um diferente qualquer para humilhar, destruir, matar.
  Meu Deus! Mas no pertencemos todos  mesma humanidade? Quando um membro sofre, no  o corpo todo que sofre?
  Amigo, desculpe-me comear com essas cinzentas paisagens esta nova prosa. Mas a verdade  que me sinto hipcrita em conviver com uma sociedade que tolera essas 
prticas, como se fizessem parte da cultura ou da vida. A cultura no pode destruir a vida; ao contrrio, tem de preserv-la. Evidentemente, crueldades acontecem 
todos os dias nas esquinas do nosso pas. Hacrianas sendo violentadas por quem deveria proteg-las. H mulheres sendo espancadas pelos maridos, h crimes brutais, 
h misria. Mas me parece que, pelo menos, nossas leisso um pouco mais respeitosas com os direitos humanos, embora, na prtica, a realidade seja outra.
  Veja, por exemplo, a vida nas penitencirias e nos espaos de privao de liberdade para adolescentes. Leis corretas, prticas medonhas. Alm do mais, a nossa 
acomodao faz com que cruzemos os braos diante do anseio de um recomeo que tem os regressos do sistemaprevidencirio, por exemplo.
  Temos o bom discurso da segunda chance, mas na prtica nos escondemos. So perdedores, padre. So perdedores esses que caram nas malhas da criminalidade. E ns, 
os vitoriosos, no devemos nos macular com eles. Que pena!
  Gostaria tanto de mudar essa realidade! Sei que  difcil. Algumas questes envolvem uma mudana de psotura mundial, a paz  ainda uma utopia. Cuidar da pessoa 
humana (toda) - e de todas as pessoas -  o sonho do papa Bento XVI, externado em sua incclica mais recente: "A globalizao da economia e das informaes no significou 
a universalizao da fraternidade.
  Estamos engatinhando ainda em matria de respeito. Fazemos pouco - ou praticamente nada - contra o recrodecimento da violncia. E no precisamos ir longe, a dor 
mora bem ao lado, como dissemos.
  Uma vez, em um metr lotado de pessoas apressadas, vi uma menina com uma boneca na mo, cabelos cacheados e um olhar triste. De mos dadas como pai, cuja rudeza 
no olhar no escondia a pouca pacincia com os passos lentos da filha. Puxava-a como se fosse um objeto enroscado. Sua pressa contrastava com a fragilidade da pequena.
  Olhou-me em algum momento. Ensaiei uma conversa. O metr parou. O pai a puxou e desceram.
  Fiquei imaginando a histria familiar dos dois. A menina parecia triste. Podia ser apenas uma impresso minha, mas ela passava-me trisreza e ele, rudeza.
  Eu no tinha o poder de intervir, ali no havia crime algum, a no ser a criminosa falta de cuidado, de afeto.
  Fiquei congecturando sobre a casa em que moravam: se tinha me a menina, se tinha irmos, se o pai era agressivo e, se fosse, como eu haveria de saber?
  Tenho essa mnia, amigo, de tentar imaginar a vida dos outros. Alis, esse  o nome de um filme alemo de 2006, ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro, que 
conta a histria de um alto funcionrio da Alemanha Oriental, incumbido de vigiar um dos maiores dramaturgos do pas. Aos poucos, envolvido na trama de emoes em 
que ele e sua mulher viviam, o antes impiedoso funcionrio - acostumado a torturar para obter uma prova - se transforma. Um homem que no chorava passa achorar; 
que no sorria, passa a sorrir.
  A imagem foi mldando um novo conceito em sua histria. Bastou o contato com o amor cotidiano para a metamorfose.
  Querido padre Fbio, h um desafio deuturno de no desistir da pessoa humana. Por mais dolorosas que sejam as nossas experincias,  preciso no desistir.
  Norberto Bobio, em "A Era dos Direitos" afirma que o problema fundamental em relao aos direitos do homem hoje no  tanto o de justific-los, mas o de proteg-los. 
Descreve na mesma obra convenesou tratados internacionais que regulam os direitos da pessoahumana genericamente, ou especificando as vtimas de preconceito, como 
as mulheres, os negros, os pobres, entre outros. Direitos do homem, democracia e paz, so processos que no podem ser encerrados.
  Vamos um pouco alm. Por que ainda no aprendemos a conviver com as diferenas? Medo? Ausncia de amor?
  Falemos de amor na poesia leve de um soneto, de GUilherme de Almeida.

  "Ama quieto e em silncio
   to medroso o amor,
  que um gesto o esfria
  e a voz o gela.
  No, o amor no  medroso."
  O poeta brinca apenas com a vulnerabilidade dos sentidos ao 
emprestar o eco, a vida.
    Perguntei  minha vida:
  como achar a apetecida felicidade absoluta?
  E um eco me disse: luta!
  Lutei.
  Como hei de a esta pena dar a cadncia serena
  que suavisa, embala e encanta?
  O eco ento me disse: canta!
  Cantei. Mas, como num berso resumir todo um universo
  que em mim bibra, explende e clama?
  Ento, o eco me disse: ama.
  Amei.
  Como achar agora a alma simples que eu pus fora
  pelo prazer de busc-la?
  O eco ento me disse: cala.
  Calei-me. E ele ento calou-se.
  Nunca a vida foi to doce.
  Tudo  mais lindo a meu lado.
  Mais lindo, porque calado."
  Lutar, cantar, amar, calar... Assim queria o poeta. Lutar para que 
os desvarios mundanos no roubem nossa sensibilidade. Cantar a cano 
da dor e a cano do amor. Cantar pelos que, empedernidos, j no 
conhecem os acordes. Camntar por aqueles que impedem a cano alheia. 
 Cantar o silncio dos que no tm voz ou vez."
  Amar como ao necessria de encontros e paisagens. Contemplamos o mundopara conhec-lo e transform-lo.
 E calar. Mas como calar diante das feridas abertas da injustia e da destruio do nosso irmo? Calar para, como Maria (a me da esperana), escutar a boa-nova, 
a misso e ento agir.
  Irmo querido, no  possvel agir sem antes sentir. Aqui, falo da vitria dos sentimentos sobre a insensibilidade, da cano de liberdade que carece de intrpretes.
  Ainda criana em uma excurso para um parque de diverses, experimentei a dor preenchendo o meu "tal fluxo de vivncia". A histria se deu mais ou menos assim: 
era um nibus de crianas conduzidas por dois ou trs professores. Chegamos ao parque: os brinquedos nos deixavam alucinados.
  Era emocionante para ns, meninos interioranos, explorar o grande parque de diverses da capital. A adrenalina misturava-se  alegria e molecagem.
  Assim, furvamos fila discretamene. Tnhamos a desculpa da pouca idade, e tudo era festa. At que, quse no horrio do retorno, furamos mais uma vez a fila de um 
brinquedo chamado Montanha Encantada. Eu e mais uns quatro - quietinhos - entramos e quietinhos ficamos.
  Uma mulher, entretanto, no se conformou com nossa audcia e comeoua dizer as piores ofensas. Ela tinha razo! Ento, nos fizemos de destrados. Foi quando um 
homem resolveu nos defender. Alegou que ramos crianas, nos divertindo.
    A mulher ficou ainda mais irritada, dizendo que, exatamente por 
sermos crianas,  que deveramos ser corrigidos. Ele tentou dizer alguma coisa e ela soltou um sonoro "Cala a boca!"
  Ele retrucou e ela avanou sobre o homem. Deu um tapa em sua cara, ele retribuiu.
  No incio, chegou o marido dela e uma confuso tomou conta daquela fila. Vieram seguranas e ns samos correndo em direo ao nibus. chegamos ofegantes.
  Cheguei entristecido. Eu sabia que no devia furar fila e o que maisdoa era que o omem que tinha me defendido estaa agora em uma situao ruim.
  Contei a histria choramingando a um dos professores e ele, vendo o meu pnico, a piorou. "Parece que mataram o homem!"
 Meu Deus! Como sofri naquela viagem! Tinha vergonha de chorar. Escondi-me de mim mesmo aos oito ou nove anos de idade.
  Cheguei em casa angustiado. Quando vi meu pai, abracei-o e chorei muito antes de conseguir contar a histria.
  Meu pai, primeiro, me abraou em silncio. Depois, encontrou uma sada para aliviar minha preocupao. "Filho, vamos ver a notcia na televiso. Se o homem morreu, 
eles mostram; se no mostrarem,  porque nem machucado ele ficou." Eu acreditei e fiquei de mos dadas com ele at a ltima notcia.
  Ah, pai amado! Quanta sabedoria na sua simplicidade!
  Padre, como  importante termos espaos para narrarmos as nossas perdas em casa. Pais que nos escutam primeiro para depois apontar outros horizontes. Meu pai era 
assim: resolvia comigo as minhas dores. Era preciso sentar ao lado dele par que pudssemos descobrir, juntos, o desfecho.
  Ele no ridicularizava a minha dor, era uma brincadeira do professor apenas. Mas no importava: se eu estava sofrendo, era preciso respeitar; e depois do alvio, 
o ensinamento. "Filho, nessas horas a gente aprende que  bobagem fazer a coisa errada." E mais nada. Um sorriso e um beijo de boa noite. E mais nada!
  E do que mais eu precisava naquela noite intranquila? Da segurana de suas mos grandes. Meu pai tinha mos grandes e ns brincvamos de ver quanto faltava para 
que minhas mos superassem as suas. Um dia, as minhas mos ficaram maiores. No comeo, eu as encolhia um pouco, para que as suas mos continuassem sendo as vitoriosas.
  Amigo, no dia em que ele morreu, brincamos um pouco antes no hospital de ver quem tinha a maior mo. Novamente, encolhi um pouco a minha para que ele ganhasse. 
Do alto dos seus 84 anos, ele me disse: "Filho querido, eu sei que a sua mo  muito maior do que a minha, masisso no  um problema para mim." Ao contrrio: essa 
no era a admisso de uma derrota: era a sua vitria.
  Meu pai queria que eu crescesse e no competia comigo. Minha vitria era a sua vitria. Minhas inquietaes eram acalentadas em sua pacincia. "Pacincia, filho." 
Era quase que uma ejaculatria.
  Quando alguma coisa no saa do jeito que eu queria, "Pacincia, filho!". Quando a doena chegava e alguns planos tinham de ser desfeitos, "Pacincia, filho!" 
At nas derrotas bobas do meu time de futebol. Eu chegava em casa cheio de desculpas por ter perdido, ele ouvia e depois lanava: "Pacincia, filho!"
  , pai... Como essa virtude faz falta! Pacincia! Pacincia, no como acomodao.
  Voltemos a poeta. Calar  contemplar o que precisa ser mudado, para depois lutar, combatendo com combate. E depois cantar uma cano nova ea, ento... Amar! E 
calar novamente. Sim, amigo.  no silncio dos nossos pores que habitam muitas razes.
  Volto s imagens e aos conceitos. Ganhar e perder so imagens que temos de momentos que vivemos de pessoas com as quais nos surpreendemos. No sei, amigo, se voc 
tem medo das perdas (ou das pedras) que surgem por a, ou se a pacincia j convidada do seu alimento dirio. Persigo a pacincia como persigo a inquietao. N 
quero deixar as coisas como esto, quero mudar o mundo, sim! E para isso, tambm preciso de pacincia. E da cumplicidade. Sozinho, sou incapaz de prosseguir, at 
porque os medos contemporneos no me abandonaram. Sozinho, sou capaz de desistir.
  Nessa tecitura social,  necessrio um encontro de ideias - e ideais - e ouo voc. Sua cano de liberdade, sua sensibilidade diante da dor alheia. Eu no quero 
conviver pacivamente com a crueldade. Quero a coragem de Ester, que se aproxima do rei Assuero, decidida a salvar o seu povo. O medo no foi mais forte do que a 
deciso e ela venceu. No venceu apenas porque ela estendeu o servo e poupou-lhe a vida; venceu, porque protegeu a vida dos seus irmos. Venceu, porque entrou para 
a histria como algum que se importou com os outros.
  Essa  a grande vitria e ela no ser alcanada se passarmos os dias diante do espelho e, diante do espelho, reparando nas mudanas que o tempo  capaz de fazer 
sem pedir a sua autorizao. A alma enrugada  que  o problema.
  Envelhecemos prematuramente pela ausncia de um tema. Um tema que nos conduza a viver e a, sim, vem a derrota. As outras so contingncia, fazem parte da margem 
apenas.
  Padre Fbio, termino estes rabiscos ansioso por notcias suas. Notcias do seu olhar sobre a humanidade; notcias do seu olhar para ahumanidade. Sei que, como 
sacerdote - e como poeta -, tambm sofre com a dor alheia.
  Ouo, emocionado, suas pregaes quando o assunto  o calvrio da humanidade. O calvrio dos crimes que vemos por a e o calvrio da mulher trada, humilhada, 
que solua silente  sua dor.
  Suas composies nascem de sua compaixo e seu repertrio empresta um tema queles que, por razes menores, desistiram de viver. Tudo  menos isso: desistir de 
viver, no!
  A terra precisa de semeadores, embora a rede seja aparentemente mais agradvel. Na rede, o descanso merecido. Passar a vida na rede enjoa; o balano agrada um 
tempo, muito tempo deprime. Balancemos nosso deitar como a simples espera do levantar. E mais nada.
  Levantemos, amigo! A plantao est linda, mas h algumas pragas quetemos de lanar fora.  o momento de vencer: o trigo tem de vencer o joio para que o alimento 
chegue at a mesa, e para que a mesa seja uma celebrao que alimenta o corpo e os sentimentos.
  Obrigado pela espera e pela ateno. A pausa foi s na escrita. Somos irmos ininterruptamente.

  Com o Renovado carinho,

  Gabriel.


  Segunda Carta

  Meu querido Gabriel,
  Obrigado pelas palavras. No  sempre que podemos receber uma palavra to sbia e sugestiva. Gosto de reconhecer nos discursos humanos as palavras geradoras. Em 
meio a tantas outras, elas saltam aos olhos, sugerem mais algumas, despertam o desejo de refletir, de ir adiante.
  H discursos extensos, que no nos presenteiam com palavra alguma.  a fala infrtil, prolixa, redundante. No agrega absolutamente nada ao que somos, mas, ao 
contrrio,  capaz de nos retirar a alegria e a disposio.
  Neste mundo em que vivemos,  muito comum depararmos com discursos assim, mas h outros que so ricos de palavras geradoras. So construdos a partir de uma viso 
olstica da realidade, capaz de abarcar inmeros aspectos numa mesma trama de palavras.    o discurso que no abre mo da sensibilidade, que realiza a proeza de 
colocar na mesma pausa a razo e emoo.
  Meu amigo, sua carta  um seleiro de palavras geradoras. Seu olhar sobre o mundo  profundo e respeitoso. A raz de tudo isso  o amor que voc tem pela humanidade. 
No  possvel refletir as questes fundamentais da humanidade e da comunidade humana sem que por ela exista amor e respeito.
  S o amor nos autoriza uma aproximao dos calvrios do mundo. Ele  oelemento que impede a banalizao, pois resguarda, envolve e protege o sagrado que, por trs 
da dor, se esconde.
  Vez em quando, vejo o sofrimento humano sendo usado como mecanismo.  lamentvel e afrontoso. A lgrima da me que perdeu o filho num soterramento  usada para 
ganho de audincia em programas de televiso. No, no h comprometimento com o fato! Um nico desejo  aproveitar o acontecimento e transform-lo em palta para 
a manuteno de um programa ftil.
  No importa o quanto o outro sofre; o que importa  quanto os ndices de audincia subiro no momento em que a dro for exposta.
   Gabriel, sua carta chegou num momento oportuno. Foi seguindo a trilha que suas palavras me sugeriram que pude adentrar o contexto de uma reflexo pertinente e 
necessria. A condio humana ser sempre bem-vinda s nossas reflexes. Ser sempre a base de uma boa prosa.
Afinal, toda vez que sobre ela refletimos, de alguma forma estamos alterando o que somos.
  Antes de tudo, eu gostaria de salientar a satusfalai qye bivanebte tebgi de estabelecer este vnculo. A carta  um mecanismo maravilhoso que nos proporciona a 
experincia de um encontro.
  Sua carta me fez recordar da gora: a praa grega que foi lugar onde as experincias filosficas ganharam carter dialtico. A gora era um lugar de encontro. 
A principal atividade que os gregos exerciam por l era a troca de mercadorias, mas naquele grande mercado a cu aberto, uma outra troca acontecia, a ponto de prevalecer 
sobre as outras: era a troca de ideias. Enquanto a materialidade era negociada, sempre sobrava espao para uma conversa, uma troca de opinies.
  Tive um grande professor de histria e filosofia que fazia questo de nos dizer que foi na gora que a filosofia assumiu seu gverdadeiro papel na sociedade: a 
filosofia do cootidiano, a reflexo nossa de cada dia.
  A arte de articular o pensamento como realidade dialtica que estrapola a verdade armtica, fechada, mas que se abre  percepo do outro. A filosofia, que  construda 
a partir da vida concreta das pessoas. A trama da existncia e seus fios esto cheios de nuncias. A filosofia como tear, que tece e favorece a compreenso do entrelaamento 
das linhas.
  Sua carta apresentou tantas questes que merecem ser refletidas. Fiquei assustado com a questo que envolve os albinos da Tanznia, eu desconhecia aquela tradio 
mrbida.  lamentvel que nos dias de hojeainda tenhamos de admitir tamanho absurdo!
  O fato nos leva a compreender que em muitos lugares do mundo, o respeito ao ser humano ainda no aconteceu. Ele ainda est condicionado a fatores culturais. Est 
restrito, ilimitado.
  Confesso que a desesperana  o caminho mais atraente. Ao me depararcom relatos como este, minha primeira reao  desesperar.  bem mais simples: chego  concluso 
de que nossos braos so curtos demais para abraarem o mundo. Podemos muito pouco diante de tanta dor, de tant sofrimento. Mas  no impulso dessa desesperana que 
eu me recordo de que a Tanznia tambm  aqui.
  No preciso ir muito longe. H realidades muito prximas de mim, quetambm so desumanas. Mas h uma diferena aqui: aqui, eu posso agir.
  No h limites lingusticos, geogrficos, to pouco culturais. Tenho diante dos meus olhos injustias e sofrimentos, que falam a minha lngua. No se tratam de 
pessoas que esto distantes de mim, assim como esto distantes as estrelas. No tenho delas apenas um tnue brilho de notcias. Elas esto concretamente posicionadas 
nas esquinas de minha cidade, moram em casebres que meus olhos alcanam, frequentemente os mesmos lugares que eu. Trabalham na guarita do prdio onde moro.
  Gabriel, s assim o mundo pode ser diferente, s dessa forma podemos prestar socorro aos desvalidos do nosso tempo, a uma dor que mora ao lado, a uma injustia 
que  nutrida pelo mesmo ar que nos sustenta.  dela que precisamos nos ocupar. Se no temos como mudar a situao dos albinos africanos, resta-nos fazer justia 
s injustias que todos os dias batem  nossa porta.
  Voc falou de esperanas. Concordo com voc. S a esperana pode nos alimentar nessas aes. A esperana no nos deixa esmorecer. Ela nos posiciona diante da dureza 
da realidade humana, de forma sempre nova.
  Gabriel, o mal no d trguas. Vejo as teias da maldade sendo lanadas sobre ns.  impressionante o nmero de pessoas que esto comprometidas com a disseminao 
do mal.
  Volto a dizer: o caminho mais fcil  desanimar, mas no creio que seja o mais honesto. Precisamos buscar imunidade contra todos esses males; caso contrrio, ns 
tambm desanimaremos.
  Assim como a me vacina o filho para imuniz-lo de uma infinidade de vrus, da mesma forma, ns tambm precisamos ser vacinados contra amaldade que est presente 
no mundo. A maldade  sedutora, ningum est livre dessa contaminao. Por isso, precisamos tanto buscar essa resistncia diria.  uma questo de sobrevivncia.
  A maldade  uma arma que permanece apontada. Assim que uma pessoa que se dispe a apertar o gatilho. Vez em quando, somos terrivelmente atingidos por ela.  nessa 
hora que precisamos sobreviver. Tudo depender do quanto ou no j estamos imunes a seu poder agressor.
  Meu amigo, eu busco essa imunidade nas palavras.  simples: necessito de palavras, assim como necessito de po.  uma questo de sobrevivncia! Tenho fome de po, 
mas tamb tenho fome de palavras. Gosto muito da passagem bblica que diz que "Nem s de po vive um homem." (MT, Cap. 4-4).  verdade, h outras fomes que precisamos 
alimentar.
  A fome do corpo  facilmente notada. Ela se manifesta de forma determinante, aparente. O corpo que carece de alimento emana os seus sinais. A exterioridade  o 
territrio das manifestaes, no  possvel esconder por muito tempo a fome fsica.
  Nos tempos idos de minha infncia, minha me tinha uma expresso interessante para diagnosticr a nossa fome. Ela nos falava: "V comer alguma coisa porque voc 
est muito dscado." Eu sempre obedecia, tinha medo de ficar "descado".
  Talvez por isso, eu seja muito atento fome do corpo. Fao questo de favorecer a sade por meio dessa disciplina. Os especialistas salientam que  importante 
que o ser humano no passe perodos prolongados sem a ingesto de alguma forma de alimento. Essa atitude, segundo eles, acelera o metabolismo do corpo. Metabolismos 
acelerados so importantes para a manuteno de uma vida saldvel.
  Creio que a mesma regra valha para a vida intelectual: to importante quanto alimentar o corpo  alimentar a alma.   claro que essa diviso do corpo e alma  
meramente didtica.
  Creio na integralidade humana: somos corpo e alma.  no corpo que a alma experimenta o mundo.  atravs da alma que o corpo transcende suamaterialidade. Ao me 
referir  condio humana, eu no me secciono, mas entrego.
  Uma boa reflexo acelera o metabolismo da alma. A palavra  o elemento fundamental para que isso acontea. As imagens que vemos esto diretamente ligadas s palavras 
que conhecemos.
  As palavras alimentam realidades menos visveis. Entram na mente e se perdem nos msticos e emaranhados da alma.
  Po e palavra possuem misses semelhantes. O corpo metaboliza o po, dele faz fonte de energia. Da mesma forma, a alma faz com a palavra.
  Meu amigo, como  instigante esse processo! Ns nos transformamos no que comemos, o alimento  integrado pelo corpo.  por isso que insisto tanto na necessidade 
de sermos mais cuidadosos com a escolha dos nossos alimentos. Escolher o que vamos comer  escolher o que seremos: nossa sade depende dessa escolha. O mesmo acontece 
com nossa vida intelectual: o crebro  o lugar onde as ideias so metabolizadas. Ideias esto diretamente ligadas ao contexto das palavras. So elas que entraro 
em nossa vida, so elas que nortearo o que somos e o que seremos.
  Sei que voc sabe disso, mas  bom repetir: uma boa reflexo pode mudar o rumo de uma vida. Vejo isso o tempo todo, as pessoas erram muito porque refletem pouco. 
Sofrem muito, porque no administram de um jeito certo as causas que as fazem sofrer. Escolhe errado, vivem errado, amam errado. Tudo porque faltou reflexo.
  Muitos erros so gestados e mantidos a partir de atitudes irrefletidas, meu caro amigo. Por isso, eu creio firmemente que a religio que praticamos s pode ser 
benfica se nos fizer refletir; caso contrrio,  alienao, esquecimento da realidade.
  A vida humana  um territrio onde prevalece muitas contradies. Sempre foi assim, faz parte de nossa condio.  estatuto que trazemos na carne, somos contraditrios. 
Essa contradio nos atinge o tempo todo.
  Voc enumerou vrios sofrimentos que nascem dessas contradies. Como pode um ser humano se sentir no direito de esquartejar o outro? Mistrios da contradio!
   nessa hora que entra a fora transformadora da reflexo. Uma sociedade s poder evoluir colturalmente  medida que refletir a cultura que possui.
   estranho, mas h muitos comportamentos e tradies que so mantidos sem que suas causas sejam conhecidas. Tive contato com uma histria assim l no interior 
de Minas Gerais. Havia uma famlia que tinha uma receita muito saborosa para o preparo d eum peixe tpico daquela regio. A tradio j havia atingido a terceira 
gerao. O fato interessante  que o peixe era sempre assado sem a cabea. Ningum nunca havia se questionado sobre o fato; quem o fez foi uma das meninas que pertencia 
 terceira gerao.
  Ao ser perguntada sobre a razo de o peixe ser assado sem a cabea, ame da menina disse no saber. A resposta foi simples: "Sua av me ensinou a assar assim." 
A menina, por sua vez, resolveu ir fundo na investigao. A av respondeu da mesma forma. "Aprendi com sua bisav."
  Tendo a oportunidade de perguntar o motivo  bisav, a menina finalmente resolveu o enigma do peixe sem cabea. "No h razo alguma", disse a velha senhora. " 
que, no tabuleiro que eu tinha, o peixe nunca cabia inteiro."
  Acho interessante essa histria. Nem sempre a manuteno de uma tradio est amparada em motivos consistentes. O tempo passou, os tabuleiros cresceram, mas os 
peixes continuaram sendo assados sem as cabeas.
  Gabriel, muita coisa seria diferente se pudssemos retomar os encantos da gora. As pessoas seriam mais felizes, mais equilibradas, mais justas, se estivessem 
mais dispostas  reflexo. A vida ganha novo sentido cada vez que uma boa palavra vem nominar as varandas da nossa mente. Uma boa palavra  como um bom elemento: 
traz sade.
  Obrigado pela sade que suas palavras me trouxeram. Volte sempre!
  Ficarei por aqui, enquanto fao essa boa digesto emocional.

  Com meu carinho e bno,

  Padre Fbio de Melo.

  Terceira Carta

  Querido Padre Fbio
  Linda a sua carta! As varandas da minha mente ficaram um pouco mais iluminadas. Bela metfora, belas lembranas! E que bom que voc tinha medo de ficar "descado". 
Coisa boa que  o cuidado de me, dona Ana  especialista na arte de cuidar.
  Sua carta traz histrias singelas das Minas Gerais. Lendo sobre o segredo do peixe que no tinha segredo, lembrei-me de uma crnica de Ruben Alves sobre o lugar 
mais importante da casa: a cozinha. Dizia ele que, em Minas Gerais, na cidade onde nasceu, a sala de visitas erao lugar chique e arrumado. Na sala de visitas, as 
crianas de comportavam bem: eram s sorrisos e todos usavam mscaras. Na cozinha era diferente: a gente era a gente mesmo - fogo, fome e alegria.
  Em Cachoeira Paulista, onde nasci - na primeira casa em que morei -, ainda havia fogo  lenha. Lembro-me da Rosa que trabalhou com os meus avs, e que trabalhava 
com a gente. Era como uma segunda me.
  Rosa gostava de cozinhar e gostava de contar histrias. Falava de sua gente, de seu povo e de suas tradies. faalava dos meus avs paternos que praticamente no 
conheci. Minha av morreu antes de eu nascer e meu av, pouco tempo depois; s teve tempo de celebrar mais um neto e partir.
  Rosa fazia o que queria. Sua atitude era de protetora valente. Cuidava do meu irmo que tinha sndrome de Down, como se fosse filho seu. Defendia cada um de ns 
e gostava de cozinhar no fogo  lenha. A brasa aquecia e, ao mesmo tempo, incendiava as histrias.
  ramos iluminados com a sua prosa. Lembro-me de histrias de medo que ela, inocentemente, contava: sobre feiticeiras que moravam no quintal.
  Eu tinha medo, tinha medo do quintal. No queria me encontrar com as feiticeiras. Cada uma tinha nome, um nome e uma histria! Lembro-me de algumas: Raimunda, 
SERENA E Otaviana. E todas elas usavamvestidos, nada de calas compridas.
  Era o jeito dela de prosear. Falava sobre vizinhos tambm. Gostava de comentrios, coisas de cidades do interior. No ia aos velrios, mas fazia recomendaes 
de que eu, menino, prestasse ateno e contasse a ela quem tinha chorado mais. Lembro-me da morte de um vizinho e de meus cuidados em reparar o choro de cada um. 
Lembro-me do choro dela quando meu irmo partiu e do seu cuidado com os meus dias de reconstruo naquele quarto da saudade.
  Foi depois do acidente. Eram dias olhando o vazio e esperando um amanh que teimava em demorar.
  Saudade! Palavra que inspira os poetas e alimenta os amantes. Que confere esperana aos que viajam.
  Em dias de chuva, Rosa contava histrias de trovo, de raio... Meu pai olhava com um sinismo bem comportado, um olhar doce para a falante. ramos ns em nossos 
medos, ns em nosso tatear  vagaroso para um mundo vasto que se abria.
  Na cozinha, que brincvamos de corajosos diante de suas narrativas; na cozinha,  que vamos os seus chs semi-preparados: ch de carqueja, ch de alho, ch de 
erva cidreira. Cada um tinha uma funo. Doena se curava era com o ch. De mdic, rosa tinha medo.. Preferia a horta, entendia de plantao e plantava em ns a 
to necessria curiosidade. Tristes crianas, quando no tm curiosidade, nem conversa. Fogo  lenha  coisa de ontem.
  Rosa falava dos negros (seus irmos), contava histrias de escravos. Assistimos juntos as novelas Direito de Nascer e Escrava Isaura.
  Choramos juntos a dor da injustia, da incompaixo. Ficvamos deitados na sala e, vez ou outra, algum tinha de subir no telhado e virar a antena ou colocar alguma 
palha de ao. E tudo simples, meu amigo, sem hierarquia! Traos de candura nos aqueciam, cndido era seu olhar. Disperso, s vezes, como se alguma lembrana recuperasse 
a sua identidade.
    Padre Fbio, a escravido foi horripilante. Nossa  histria e nossa literatura so ricas na denncia do sofrimento de nosso povo. Esse foi um tema que sempre 
me inquietou. Como nossa ptria conviveu com tanta mesquinharia de sentimentos? Como um povo pde ser subjulgado por ter uma cor de pele diferente?
  Castro Alves, o poeta da liberdade e defensor dos oprimidos (o condoeiro da poesia social, o romntico da terceira gerao), nos levou versos inesquecveis do 
sofrimento dos escravos em Navio Negreiro. Nesse poema, o poeta assume a posio de um pssaro que voa sobre os mares e, de repente, se depara com um brigue. Quanto 
mais se aproxima, mais perplexo fica com a embarcao, e descreve o que v.
  Fala dos homens e das mulheres, feito miserveis pela situao; faladas crianas magras; fala do velho; fala da multido. Depois de descrever a cena num navio 
negreigo, ele se indigna. O poema fica cheio de exclamaes e comea a aclamar por Deus. E ento, conta a histria dos escravos: de onde vieram, como viviam e onde 
hoje esto.
  O poeta inaugura um poema de oratria, para ser ouvido e no lido.
  O Porta-voz da liberdade
  Senhor, Deus dos desgraados
  Dizei-me vs, Senhor Deus
  Se  loucura, se  verdade
  Tanto horror perante os cus.
  Oh mar, por que n apagas
  Com a esponja de tuas vagas
  De teu manto este borro
  Rastros, noites, tempestades!
  Rolai da imensidades
  Varrei os mares, tufo!
  Quem so estes desgraados
  Que no encontram em vs
  Mais que o rir calmo da turba
  Que excita a fria do algs?
  Quem so, se a estrela se cala
  Se a vaga,  apressa resvala 
  Como um clplice fulgaz
  Perante a noite confusa?
    Dize-o tu, severa musa
  Musa liptima, aldaz!"
  A musa a que se refere  a poesia, a poesia da liberdade. Prossegue falando da terra onde vieram.
  "S os filhos do deserto,
  Onde a terra exps a luz
  Onde vivem em campo aberto
  A tribo dos homens nus.
  So os guerreiros ousados
  Que com os tigres mosqueados
  Combatem na solido.
  Ontem, simples, fortes, bravos
  Hoje, mseros escravos.
  Sem luz, sem ar, sem razo."
  Fala da tristeza dos escravos capturados na frica, e que no 
tinham sequer o direito de se despedir de seus parentes.
  "L nas areias infindas
  Das palmeiras no pas,
  Nasceram crianas lindas
  Viveram moas gentis.
  Passa um dia a caravana
  Quando a virgem na cabana
  Cisma da noite nos vus
  Adeus,  charo monte
  Adeus, palmeiras da fonte,
  Adeus amores, adeus!"
  E traz uma dolorosa anttese:
  "Ontem, a Serra Leoa,
  A guerra, a caa ao leo,
  O sono dormido  toa,
  Sob as tendas da amplido.
  Hoje, o poro negro, fundo,
  Infecto, apertado, imundo
  Tendo a peste com jaguar
  E o sono sempre cortado
  Pelo arranco de um finado
  E o baque de um corpo ao mar!
  Onem, em plena liberdade,
  A vontade por poder
  Hoje cmulo de amldade
  Nem so livres pra morrer!"
  Amigo, h tantos outros poemas de Castro Alves que poderamos tomar por emprstimo! Em Vozes da frica, o poeta questiona Deus que assiste a tudo e no defene 
os escravos dos mal-tratos.
  "Deus,  Deus,  Onde ests que no respondes?

  Em que mundo e em que estrela 
  Tu te escondes?
  Embuado nos cus!
  H dois mil anos te mandei meu grito
  Que envalde, desde ento, corre o infinito.
  Onde ests, Senhor Deus?"
  No me parece que seja uma atitude de falta de f, mas sobretudo de 
inquietao diante da dor de seu povo. A dor nas trajdias tende a 
nos tornar mais sensveis, mais reflexivos, mais questionadores. No so pucas as trajdias que presenciamos.
  Dia desses, um casal contou-me sua saga. Falaram do filho nico, que
esperaram por tanto tempo, choraram a morte estpida. A criana de
quatro anos foi vtima da televiso. Isso mesmo! A televiso caiu sobre
a criana, feriu a cabea e antecipou a partida.
  Ouvi a histria e os questionamentos. Dizer o qu? A me culpava Deus.
"Por que Deus no tomou conta do meu filho? Por que Deus no segurou a
televiso?"
  O pai culpava a si mesmo. "Se eu tivesse tido dinheiro para comprar
uma dessas televises que so finas, nada disso teria acontecido!"
  E eu ouvia, amigo, tentando colocar algumas gotas de futuro naquele
casal. Culpar Deus  descuidar o descuido humano, e isso no  correto.
  As trajdias nasecm das escolhas humanas e de suas relaes com a natureza. O descuido com a nossa casa-me tem gerado abalos constantes: terremotos, tempestades, 
tufes, maremotos. As estaes resolveram se misturar, a imprevisibilidade do clima poderia nos ensinar a escolher o que fazer com anteviso. Mas o meu problema 
com aquele casal era diferente: um televisor ccaiu e um filho partiu. Restava-me chorar com eles, restava-me compreender que razes tantas no trariam, em razo 
alguma, para uma dor que no tinha o poder de antecipar o tempo da compreenso e da aceitao. Rsestaria saudaade.
  Quero voltar a Castro Alves e a um de seus poemas que mais me tocam:
  Trajdia no Lar. A me est na cenzala, embalando o filho e trs negros, a mando do senhor, entram e arrancam o menino das mos dela para vend-lo. Ela emplora 
que no o levem. Como no consegue convenc-los, ela salta diante deles com a fria da fmea que protege a cria e os enfrenta. O poema termina com o choro da criana 
pela estrada e o riso gelado da me morta por amar demais seu filho.
  "D-me teu filho", repetiu Clemente. O senhor de sobrolho carregado.  "Impossvel!"
  "QUe dizes, miservel?"
  "Perdo, senhor, perdo. Meu filho dorme. Inda a pouco o embalei,
  Pobre e inocente, que nem sequer prescente, que ides.
  Sim! Que o vou vender.
  Vender? Vender meu filho? Senhor, por piedade, no! Vs sois bom antes d peito, me arranqueis o corao. Por piedade, matai-me. Oh,  impossvel! Que me roubem 
da vida o nico bem. APenas sabe rir,  to pequeno! Inda no sabe me chamar, tambm.
  Senhor, vs tendes filhos. Quem no tem?
  Se algum quisesse os vender, haveis muito chorar, haveis muito gemer
  Direis a rir, perdo!
  Deixai meu filho. Arrancai-me, antes a alma e o corao."
  "Cala-te miservel! Meus senhores, o escravo podeis ver!"
  E a me, em pranto aos ps dos mercadores
  Atirou-se a gemer,
  "Senhores, basta a desgraa
  De no ter ptria nem lar
  De ter honra e ser vendida
  De ter alma e nunca amar!
  Deixai a noite que chora
  E espera ao menos a aurora
  Ao ramo seco uma flor;
  Deixai o pssaro ao ninho,
  Deixai a me e o filhinho,
  Deixai a desgraa ao amor!
  Meu filho  minha sombra amiga
  Neste deserto cruelo
  Flor de inocncia e candura
  'Favo de amor e de mel.
  Seu riso  minha alvorada,
  Sua lgrima doirada,
  Minha estrela, minha luz
   da vida o nico brilho
  Meu filho  mais!  meu filho!
  Deixai-mo em nome da cruz!
  Porm, nada comove homens de pedra!
  Sepulcros onde  morto o corao.
  A criana do bero, hei-los arrancam
  E os bracinhos estende e chora em vo."
  A escravido foi uma catstrofe humana.  uma catstrofe humana. Deus
no tem culpa. So as nossas escolhas diante da nossa ausncia de amor.
 a busca pelo poder.
  Em 1813, um alvar tratou do transporte dos escravos da frica para o Brasil. Proibia o alvar a superlotao e determinava a ventilao nos pores dos navios. 
Nada de marcao co ferro quente, devendo ser substituida por uma coleira ou por uma manilha. O desfecho do alvar era o seguinte: "da frequente renovao de ar 
depende a manuteno da sade dos navegantes.; ainda mesmo o interesse pessoal oos proprietrios de navbos, pois no recebem frete pelo transporte de negros que 
morrem na travessia."
  Amigo, a questo no era melhorar as condies dos escravos, era no perder dinheiro. Escravo morto significava menor frete.
  Nunca vou me esquecer das cenas de Escrava Isaura: de Lencio contando escravos, de sua atitude violenta. Eu perguntava a Rosa por que ele era to ruim, e ela 
me dizia que tinha muita gente ruim no mundo. E emendava uma histria na outra.
  s batalhas da escravido, sentiam-se vitoriosos os senhores que exibiam suas conquistas. As cenzalas cheias eram sinnimos de poder; os fracos eram aqueles que 
no controlavam seus servos; os fracos eram os que tinham compaixo.
  Ouvi isso algumas vezes sobre meninos infratores r dpntr vto,pmpdpd. Ouvi de gente que exercia algum poder e que me aconselhava a nunca confiar nessa gente. Qual 
gente? H ento duas huamnidades a dos que esto includos e a dos que esto excludos? Qual gente? No fazemos parte de uma mesma natureza humana, ns todos?
   to simples e, aparentemente, to difcil compreender que no h vitria quando o outro  derrotado. "Ao vencedor, as batatas", ridicularizava Machado de Assis. 
Vencer, pisando ou pesando sobre o outro, decididamente no  vencer. Devamos nos envergonhar da trapassa histrica de tentar subjulgar um povo, uima raa, uma 
nao. A guerra dizimou povos, arruinou sonhos... A violncia estrangulou e estrangula amanheceres.
  Amigo, no quero que essa carta chegue dissociando dor de esperana.
O passado nos ensina e  preciso estarmos atentos ao seu ensinamento. E o futuro nos desafia: a escravido nos fez derrotados como natureza humana. O grito de Castro 
Alves no era um grito contra deus, era um grito contra a liberdade que resolveu voar para a terra de ningum, e deixar aos grilhes do dio o controle do nosso 
quintal.
   desse quintal que tenho medo. amigo. O quintal  da minha antiga casa tinha a mstica da Rosa. Da Rosa que no espinhava por querer.
  Aquele medo j passou. A escurido da noite sem luar  apenas a espera por um tempo sem nuvens. A escurido do dio  a putrefao da alma. APodrecemos quando 
negamos ao outro o que sonhamos para ns mesmos. Mseras atitudes ainda existentes de famlias que tratam os seus ajudantes como seres de uma estirpe inferior: no 
podem comer a mesma comida, muito menos beber a mesma bebida. ossa Rosa era tratada como a ptica do nome exigia.
  Saudade! Infncia regada em jardim, ficou na casa antiga. Saudade! Lembranas iluminadas e iliminadoras.
  Querido padre Fbio, obrigado por ler os meus rabiscos. A construo dos meus sentimentos passa por essas lembranas que moram em mim. A construo dos meus ssentimentos 
tambm . Somos irmos em Cristo e irmos na afinidade da cozinha com fogo a lenha. Mesmo em tempos de alta tecnologia, embalamos nossa cano no fogo do amor, e 
o amor no vir para o jantar se a simplicidade no for convidada.
  De tudo o que eu escrevi fica a sntese da minha esperana. Se convivermos com a simplicidade, a travessia fica mais tranquila. Nada de escravido, nem de razo 
medida, muito menos de pores. Nada de divises, nem de hierarquia entre humanos. Nada de presuno de vitria sobre a derrota alheia. Venamos juntos a batalha 
da arrogncia e da complacncia com os arrogantes.  de simplicidade que precisamos.
  Bem amigo, vamos jantar na cozinha antiga ou na varanda de nossa mente. E se Castro Alves voltar e se transformar em pssaro novamente, poder contemplar um outro 
cenrio.  Pelo menos essa  a nossa utopia:
sinta o fogo aceso; o alimento est sendo preparado. E o amor? O amor est aqui, conforme o prometido.

  Com o carinho de sempre,

  Gabriel.

  Quarta Carta

  Gabriel
  Suas palavras me trouxeram alegrias. As lembranas de sua infncia me recordaram as velhas camas das couxas de retalhos, trabalho artesanal que realiza a proeza 
de fazer novo o que  velho. Disd ,r,[ptosd d]SP vp,p rwirmpd trysjpd que recuperam o vio da beleza quando postos ao lado de outros.
  O processo de feitura de uma couxa de reatlhos  muito interessante. Requer sensibilidade para perceber os contrastes que sero bonitos quando, ao final, forem 
vistos no contexto do todo. Essa forma de artesanato trabalha a partir de uma reciclagem que proporciona encontro de tecidos que tiveram histrias desconhecidas.
   So oriundos das mais diversas situaes: tecidos de festas, tecidos de morte, tecidos do cotidiano... Todos encontrando o destino de mos de mulheres que os 
costuram numa trama nica. Mulheres que, de maneira ritual e sensvel, reconciliam as diferenas do mundo. O tecido pobre, opaco, ganha a vida ao ser costurado ao 
lado do tecido cedoso e vibrante.
  Tecer couxas de retalhos  como realizar um ritual.  descobrir os caminhos que os prprios tecidos sugerem. H uma notcia escondida em cada cor, h um sentimento 
abscndido em cada retalho, coisas que aos tempos idos pertencem. A vida se registra com generosidade sobre as coisas. Eu creio nisso.
   como se houvesse uma memria em cada fragmento da materialidade que nos rodeia. Sei que isso fere os postulados de nossos princpios cartesianos, mas no importa.
  Busco socorro na concluso sugestiva de Bkeuze Oascakm i tepikigi frabces que, na tentativa de compreender uma forma peculiar de inteligncia, que pudesse abarcar 
as verdades da moral, da religio e da filosofia, argumentou de forma brilhante: "O corao tem razes que a prpria razo desconhece."
   verdae. A razo humana no pode abarcar todos os mistrios que nos envolvem. Experimento isso o tempo todo, a vida me afeta.
  A vida me provoca. H dentro algumas realidades que no podem ser dissecadas a partir dos princpios da razo cientfica. O que dela sorvo, de alguma maneira, 
fica armazenado em mim.
  So os meus retalhos: retalhos de alegria, retalhos de tristeza, retalhos de esperana, retalhos de desespero. Vez em quando, eu preciso costur-los tambm. Uso 
a mesma tcnica das mulheres que tecem couxas. Escolho os retalhos tristes e procuro dispers-los no meio de retalhos felizes.
  Eles no deixam de existir, mas ganham novo aspecto. Perdem o poder opressor que possuam quando eram solitrios. Esse ritual me recorda o conceito de redeno, 
tema to caro aos conceitos religiosos. Redimir  retirar o outro de situao desfavorvel e elev-lo. O retalho triste ficar menos triste ao ser posicionado ao 
lado do retalho feliz.
  O encontro gera o equilbrio:  como a dissonncia na sinfonia. A nota triste  utilizada para preparar a chegada da alegria.
  Meu caro amigo, as regras da vida esto esparramadas pelos quatro cantos do mundo. Couxas e sinfonias podem servir como um manual de instruo para uma vida melhor. 
O que precisamos  observar um pouco melhor o mundo que nos cerca. H ritual em tudo que  vida, s precisamos descobrir o movimento do rito e nele entrar.  como 
se houvesse uma msica sendo entoada: precisamos ouvir bem o que ela nos sugere.
  Tenho visto muitas pessoas infelizes pela vida. As causas costumam ser as mesmas. Esto lanando fora do ritmo. No escutaram be a melodia que o tempo presente 
est lhes proporcionando.
  Ignorar a ritualidade da vida  o mesmo que quebrar o seu encanto. Fazemos isso o tempo todo. Nossas pressas contemporneas no nos permitem demoras. Estamos sempre 
atrasados, mas o rito nos pede calma. Nasce o impasse. De alguma forma, temos de ceder. Ou entramos no ritmo do rito, ou o ignoramos. E dessa forma, plantamos o 
futuro.
  Vez em quando, eu me deparo com colheitas infelizes, pessoas que descobriram que a pressa no valeu  pena. Correram atrs do mundo que estava distante, mas se 
esqueceram de viver o mundo que estava sob seus ps. Escutei recentemente o relato triste de um pai que precisou sepultar os dois nicos filhos num mesmo dia. Os 
rapazzes estavam voltando de uma festa. Perderam a direo do carro e se chocaram contra uma rvore. Morreram juntos, na mesma hora.
  O sofrimento do pai no era sem razo. A morte dos rapazes acendeu uma luz desconfortvel na conscincia daquele homem. A ausncia dos filhos lhe fez pensar na 
maneira como havia escolhido exercer sua paternidade.
  Ele era um homem de negcios: construiu um grande patrimnio, mas esta construo lhe custou bastante caro. O trabalho incessante lhe fez muito ausente em sua 
casa. Ausncia sempre justificada: reunies, viagens, coisas importantes a serem decididas. Dessa forma, ele no viu os filhos crescerem: deixou de estar ao lado 
deles em momentos importantes da vida.
  Ao sepultar os filhos, o homem tomou conscincia de que havia danado a melodia errada. Muito pouco havia se rendido  ritualidade que a paternidade sugere. Suas 
ausncias justificadas no eram capazes de salv-lo daquele terrvel drama de conscincia.
  A herana que tanto quis construir perdeu sentido, no havia filhos que pudessem receb-la. Ao constatar o erro, o pobre homem rico j no podia mudar o rumo de 
suas escolhas: os filhos estavam mortos.
  Gabriel, a conscincia de que a vida  ritual pode nos salvar desses desastres. No, no me refiro  morte dos meninos, eu me refiro  morte que desceu suas sombras 
sobre aquele corao de pai. S o rito pode nos acender a conscincia da fora do momento presente. O que agora estamos vivendo ser matria-prima do futuro. Se 
escolhemos amar,  bem provvel que nosso futuro seja recheado de saudades boas; mas se escolhemos negligenciaro amor que podemos oferecer ao outro,  certo que 
nos restar nas mos um cesto de arrependimentos e remorsos.
  Gabriel, tudo fica mais bonito quando  realizado dentro de um contexto de ritualidade. S o rito pode bordar a cortina e revesti-la de beleza. A rotina de uma 
vida feliz  o sonho de todos ns.
  Mas como  possvel descobrir esse caminho, j que a vida  o lugar das contradies? Voc falou das trajdias do nosso tempo, relatou o quanto elas nos enchem 
de indignao.
  Concordo. Elas so universais e particulares. Os terremotos so diversos: assolam solos, mas tambm assolam almas. O sofrimento do mundo  questo que jamais poderemos 
esgotar em compreenso. Sobre suas razes, temos indcios: o mundo criado  naturalmente limitado. Este  um deles - o limite  a mola propulsora que faz o sofrimento 
ganhar movimento. O que no podemos  perder a esperana. Sofridos ou felizes, o nosso destino deve ser um s: aq vida. Esse  o comprometimento que poder fazer 
a diferena. Quanto mais estivermos comprometidos com a vida, maior ser a nossa possibilidade de diminuir os efeitos do sofrimento dos nossos dias.
  Diante da trajdia, temos a possibilidade de assumir duas posturas: podemos nos desesperar, ou podemos nos encher de novos motivos para o recomeo. Este  o cdigo 
que diferencia o ser humano de todos os outros: a capacidade de recomear!
  Mesmo que todos os meus filhos estejam mortos, h sempre algum no mundo que poder receber o amor que descobri negligenciado dentro de mim. Nunca  tarde para 
costurar o retalho velho e triste na trama de nossa histria. O que no podemos permitir  que ele prevalea deslocado, gritando suas mgoas, privando-nos da alegria 
nossa de cada dia. H sepre um alinhavo possvel. Por mais frgil que seja, ele sempre valer  epna. Ele  a garantia da continuidade, ele  a certeza de que nada 
do que vivemos poder ficar fora de nossa couxa final.
  Meu amigo, suas lembranas felizes, expressas nas descries de Rosa - a protetora fiel - cruzam os mares da memria e esbarram na proa dos navios negreiros que 
os versos de Castro Alves descrevem com tanta profundidade potica. O rosto negro que lhe fez feliz  o mesmo que lhe recorda um dos maiores flagelos que a histria 
humana pde presenciar: a escravido. Cousa de gente - retalhos humanos - que pertencem  trama de sua existncia, que figuram como peas fundamentais para a sua 
compreenso da vida.
  Gabriel, suas palavras me fizeram pensar sobre o poder transformador da simplicidade. Creio que seu dom literrio tem encontrado fora nas narraes de Rosa. Ela 
fez com voc o mesmo que a chuva faz com a semente, na obedincia silenciosa dos ciclos das estaes: fez nascer. A simplicidade de Rosa viabilizou o seu contato 
com o poder das palavras.
Suas histrias me fizeram adentrar o mundo mgico da fantasia literria. Fizeram-me conhecer o poder redentor que a simplicidade enserra. A cozinha de Rosa foi a 
sua primeira academia de letras. fOI L QUE A SUA primeira cadeira de imortal lhe foi oferecida.
  Gabriel, simplicidade  um conceito frutuoso e iinescrutvel. Sugere caminho nico e concentrao de foras. Talvez seja por isso que Ruben ALVES TENHA DITO QUE 
"SIMPLICIDADE  QUERER UMA COISA S".
   verdade! Quando somos simples no que queremos,  mais fcil construir a soluo para o que necessitamos. O muito querer nos dispersa, retira o foco do objetivo 
principal.
  Nasci e cresci num contexto muito simples. Sou filho de um pedreiro. Meu pai trabalhou a vida inteira na construo civil. Embora no tenha estudado engenharia, 
foi um homem portador de conhecimento prtico. Vez em quando, eu o via recebendo os engenheiros responsveis pelas obras que ele construa. Vinham trocar ideias 
sobre clculos e projetos.
  A vida em nossa casa era muito simples. As oportunidades eram poucas, cabiam todas em minhas mos.
  A restrio pode ser pedaggica. Aprendi muito cedo essa verdade. Minha me sempre foi dona de casa. Nunca exerceu uma profisso, tampouco frequentou escolas e 
universidades. Portanto, posso lhe assegurar que ela  o melhor livro que j li em minha vida. Minha me e meu pai so so dois retalhos fundamentais em minha couxa. 
No sei olhar para minha vida sem que os meus olhos os descubram em cada detalhe. O motivo  simples: foram eles que me ensinaram a respeito da ritualidade da vida. 
Foram eles que me ensinaram que navios negreiros n merecem mares. Foram eles que me ensinaram que Rosas, Isauras e tantas outras mulheres que embalam bersos, s 
to fundamentais para a sociedade quanto aqueles que governam.
  Eles me ensinaram com atitudes. Me ensinaram na educao que me ofereceram. No sabiam dizer discursos cultos, elaborados, mas souberam transformar a teoria que 
o mundo j sabe de cor - mas nem sempre sabe viver -, em lio cotidiana quew s os gestos ensinam.
  Gabriel, este  tambm um mistrio que no pode ser desvendado. Pessoas simples acessam com muita facilidade a profundidade da vida. Sabem viver na prtica o que 
no sabem dizer na teoria. Isso me faz lembrar o conhecido verso de Ceclia Meireles, em sua obra "Romanceiro da Inconfidncia", que aborda com profundidade o conceito 
de liberdade. Ela diz:
  Liberdade,
  Essa palavra
  Que o sonho humano alimenta
  Que no h ningum que explique
  E ningum que no entenda."
  Meu amigo,  com Ceclia que me despeo. Desejo que voc continue ritualizando a sua vida. Que voc no desista do ofcio de emprestar palavras aos sentimentos 
dos iletrados. Que voc no se distancie das lembranas de Rosa, que se interesse sempre mais pelo artesanato das mulheres que tecem couxas. E que continue impedindo 
que navios negreiros partam ou cheguem aos nossos portos.

  Com meu carinho e bno,

  Padre Fbio de Melo.

  Quinta Carta
 
  Padre Fbio
  Continuemos nosso ritual da escrita. Sejamos seus servos: servos voluntrios de palavras, que vo ganhando significado e vida, e vo dando significado e vida s 
nossas histrias.
   belssima sua metfora das tramas das couxas de retalhos. os contrastes dos tecidos de festa e dos tecidos de morte.  a mistura ritualstica do que nos agrada 
e do que nos atormenta.
  A morte  um mistrio que nos perturba. A morte, como fim da vida terrena, a morte de uma relao de amor ou amizade, a morte como partida para uma nova etapa. 
No   toa que os adolescentes que se despedem em festas de formatura choram a morte daquele perodo da vida. Os amantes antecipam a dor antes de a dor chegar. 
A expectativa da morte de um relacionamento faz com que relacionamentos mortos continuem a encomodar. Mas, somo assim: somos assim nas amizades. Teunanis en encomodar 
e nos permitimos que os encmodos nos faam companhia. E tudo porque desconhecemos o lindo ritual da sinceridade.
  Amigo, tornamo-nos pessoas melhores quando somos capazes de tecer relaes verdadeiras, sem ganhadores, nem perdedores. Ceder no  entregar ao outro o trofu 
da vitria. Longe disso:  perceber que o outro tambm tem razo, que o outro existe, que o outro merece respeito.
  Antoine de Sanasperri, autor de O Pequeno Prncipe, nos sugere que "amor no  o olhar de um para o outro, mas sim, olhar ambos para uma mesma direo". Sua Rosa 
tinha dito a ele que era a nica Rosa existente. E em visita a outros planetas, O Pequeno Prcnipe percebe que havia multides de rosas, o que o deixa a princpio 
um pouco decepcionado. Mas, adiante compreende que a sua rosa era a nica porque ele a tinha feito assim.  o to citado conceito de que nos tornamos responsveis 
quando somos capazes de cativar.
  Olhar para a mesma direo, amigo,  o mesmo que competir. As relaes entre casais vo ficando insuportveis quando um olha para o outro com o olhar decidido 
a perceber imperfeies. As falhas so apontadas como um trunfo de vencido e vencedor. Os erros fazem parte da vida, quando se olha para a mesma direo. Essas salincias 
no encomodam.
  E qual direo  essa? Para onde olha um casal? Sem essa pergunta,a  vida a dois perde o significado.
  Para onde vamos? Por que resolvemos transformar a nossa vida em uma simbiose de amor? Porque nossos tecidos se misturaram nesse mesmo tear.
  As relaes de amor so trabalhosas. As diferenas encomodam, o convvio dirio  desafiador. At mesm para amigos, uma viagem, por exemplo,  um desafio. Cada 
um com a sua vontade, ou - pior -, cada um com a nsia de que a sua vontade prevalea. E a paisagem perde o significado. Deixamos de contemplar oceanos e serras 
e consctues, para implicar com o viajante amigo que ocupa algum espao em nossa travessia.
  A viagem falimiar  ainda mais trabalhosa.  o cotidiano que acinzenta as nossas relaes quando o ordinrio no tem o poder de trazer a potica do extraordinrio. 
O ordinrio ter de acontecer.  o acordar, o alimentar, o andar, o sentar, o ver, o deitar... E assim sucessivamente.
  Todos os dias, em todas as ocasies, o extraordinrio  a ternura que transmuta esses gestos e confere a eles novos significados. O alimentar uma celebrao de 
amor que envolve o preparo, a conversa, a refeio, a despedida... O acordar deixa de ser um gesto corriqueiro quando se  capaz de agradecer a Deus pela vida que 
se renova e de pleno desse agradecimento, tocar com leveza na histria que nos acompanha.
  Tenho lembranas, amigo, da delicadeza com que meu pai cuidava da minha me: dormiam juntos, acordavam juntos. E ele, como num ritual, dava o tom de extraordinrio 
quela vida. O caf-da-manh era recheado de declaraes de amor e minha me sorria, um pouco tmida, mesmo depois de trinta anos de casados. Ele era galanteador, 
fazia com que ela se sentisse linda a cada amanhecer. Sem exageros, mas com o olhar ampliado pela lente do amor. Era ela o seu amor e do amor, a gente cuida. E, 
com ele, a gente se eleva.
  H tantos casais que se estranham cotidianamente. Tive uma aluna na faculdade que dizia que o marido fazia medio do seu percentual de gordura semanalmente. Que 
no admitia uma mulher com medidas exageradas, que no tolerava "mulheres arredondadas". Ela dizia isso constrangida em aceitar um marido assim. "Ele  o meu pinho." 
No queria queria se sentir um objeto e tinha medo. Medo de envelhecer, medo de eixar despertar desejo no marido, medo do futuro.
   difcil dizer sob relaes. As razes so tantas! As idiocincrasias tambm. Idiotizamos as pessoas e ns mesmos com excesso de vaidade, e com cobranas de imperfeio. 
A mulher infeliz falava do regime imposto pelo marido; alis, do marido gordo. As medidas perfeitas tinham de ser as dela. Ele era o macho e a ele competia o poder 
de exigir.
  O que leva uma mulher a aceitar isso? Ela tinha medo de engravidar, medo de no voltar  magreza, medo de amamentar, medo de perder o formato dos seios. QUe vida 
 essa? Vale  pena?
  Para encurtar a conversa, antes que eu dissesse muita coisa, ela concluiu subejamente: "Ruim com ele, pior sem ele!" Sem julgamentos apressados, essa  uma vida 
derrotada.
  As tormentas no compensam a companhia. No estou aqui dizendo que relaes no podem ser reconstrudas, que o amargor do alimento jamais poder receber o mel. 
A questo  que, quando se entra em um jogo de desejos e progees, sem olharem ambos para uma mesma direo, retomando Saint Usuperri, "O que deveria ser uma histria 
de amor com alguma dor vira uma histria de dor com nenhum amor."
    O amor no se preocupa com detalhes para reparar o imperfeito. Ao  contrrro: utiliza os detalhes para fazer perfeito aquilo que deve ser reparado com cuidado. 
E, com sinceridade, tudo fica mais fcil.
  H um lindo conto de Hans Christian Andersen chamado A Roupa NOva do Imperador. Resumidamente,  a histria de um imperador que era to apaixonado por roupas novas 
que passava toda sua vida se preocupando apenas com isso. Dificilmente trabalhava ou cuidava do povo. Imperiosamente a frase era "o imperador est se vestindo".
  Certa vez, chegtaram dois vigaristas que se fingiam de impecveis costureiros, dizendo que tinham o poder de tecer os talhos mais bonitos do mundo. Alm do que, 
os tecidos tinham a qualidade de ser invisveis para qualquer pessoa que fosse tola, para qualquer um que no tivesse condies de exercer algum poder.
  O imperador ficou eufrico. Alm de poder usar os mais belos trajes do mundo, poderia descobrir os tolos do seu reino. E imediatamente feza encomenda. Pediram 
uma fortuna e o imperador nem discutiu. E ficaram numa sala, fingindo que estava tecendo. Vez ou outra, o imperador enviava algum para ver o trabalho e cada um 
que chegava nada via. E,mesmo assim, com medo de ser tolo, fazia elogios e mais elogios ao tecido, e  vestimenta em preparao.
  Certo dia, o imperador achou que deveria conferir a feitura de suas vestes ainda em tear. E foi acompanhado por um grupo de conselheiros. Quando chegou, pensou 
consigo mesmo: "O que  isto? No estou vendo nada! QUe lstima! Serei um tolo? No terei capacidade para ser um imperador? E agora?" No teve dvidas e falou: " 
realmente magnfico!  o mais belo tecido e a mais bela vestimenta que j vi."
  Todos os conselheiros que tambm no viam nada , fizeram coro ao imperador: "Magnfico!" E o imperador resolveu usar traje em um desfile especial. E todo o povo 
que sabia da histria de que , para os tolos, a roupa seria invisvel, s fazia elogiar. At que uma criana, espontaneamente gritou: "O imperador est nu! O imperador 
est nu!"
  Padre Fbio,  preciso permitir que a criana nos ajude no ritual da vida. A criana que vive em ns fica amedrontada com nossa gana de poder. Vamos acumulando 
hipocresias, com medo de que descubram nossa verdadeira face. Mas nossa face  to mais bonita que os nossos disfarces que usamos. Por que tanto medo? Por que tanta 
maquiagem?
  Quando voc fala de seu pai (pedreiro, homem simples), quando voc fala de sua me (talhada para amar), quando voc compreende que desse encontro de tecidos, a 
trama da sua vida foi ganhando forma, voc celebra sua identidade. Eu fao o mesmo quando permito que a memria me traga esse tesouro de um amor que no morreu. 
As lembranas que esto aqui me ajudam a compreender o que falta, para que o tear no pare.
  Amigo, fico preocupado com as crianas que crescem em lares, em que a disputa pelo poder ocupa o espao destinado ao ritual do crescimento. A disputa ciumenta 
de saber quem  o mais amado, a disputa desconexa de saber quem te mais poder, qual autoridade deve ser mais prestigiada. Os filhos ficam numa desnecessria escolha 
entre o pai e a me; no h escolhas, os dois so essenciais. Os dois so amados, os dois exercem autoridade. As relaes entre pais e filhos no podem ser infantilizadas 
por esses distrbios sociais. O pai diz uma coisa, a me diz outra; a me autoriza, o pai desautoriza; o pai diz sim, a me diz no.
   evidente que as opinies podem ser diferentes e, diante disso, o dilogo entre pessoas equilibradas colabore para que se chegue ao bom-senso.
  Tenho uma amiga que mora em outro pas e que se separou do marido. Eles tm dois filhos. A justia decidiu por uma guarda compartilhada: uma semana com um, uma 
semana com o outro. H uma disputa pelo amor dos filhos: nem pai nem me gostam de utilizar a palara "no". Cada um quer oferecer o mximo de przaer para ser o mais 
amado. E eu lhe pergunto: como vo crescer essas crianas?
  O limite faz parte do amor. Educar  dizer sim e  dizer no.  Presentes em excesso, passeios em excesso, roupas, restaurantes, desejos atendidos antes de serem 
gestados... e as crianas vo se tornando enfadonhas.
  Poderia numerar outras tantas histrias parecidas, e sei que, em suamisso de participar do calvrio da humanidade, muitos desses relatos j fazem parte de sua 
prosa. E  to simples perceber o fracasso nessa busca de sucesso.  to bvio a constatao de que nessas buscas, no h lugar para vencedores. Perdem todos!
  Amigo, a relao entre pais e filhos  essencial para o equilbrio do ser humano. Bertrand Rousseau dizia: "os nossospais amam-nos porquesomos seus filhos.  um 
fato inalterado." Nos moemntos de sucesso, isso pode parecer relevante, mas nas ocasies de fravasso, ferecem um consolo e uma segurana que no se encontram em 
qualquer outro lugar.
  Em outras palavras,  no  no colo paterno e no colo materno que embalamos as nossas derrotas.  o espao privilegiado de aconxego: sem cobrana, sem medo, sem 
desafios, sem mscaras nem aquiagens.
  H pouco, deitado no colo da minha me, perguntei sobre decises da minha vida pltica. Tinha escutado muita gente, ouvi opinies de pessoas pelas quais tenho 
muita considerao, amigos mais experientes. Mas, no momento da deciso, resolvi deitar em seu colo e dividir as minhas angstias. Ela pouco falou com os lbios. 
Seus dedos, acariciando os meus cabelos, iam me explicando os riscos e as necessidades. A proteo me garantia que, se a escolha fosse acertada ou errada, aquele 
colo continuaria a me embalar com a mesma ternura.
  Quero voltar a Rosa: a flor que morou em minha casa e me comoveu com suas histrias. Com alguma idade, ela caiu e fraturou a bacia. Cuidamos dela com todo o carinho, 
era a nossa criana frgil, com seussetenta e tantos anos. Seus chs no conseguiam cicatrizar as suas feridas, mas ela resistia, reclamando pouco ou quase nada.
  Uma vez, ela veio com minha me ficar um pouco comigo em So Paulo. Ela, as muletas, o andador e o nosso carinho. Preferia ficar em casa asair numa cidade grande. 
Brincvamos com ela, falando da ausncia de quintal (eu j lhe falei do meu medo de quintal). No quintal, moravam as bruxas que ela criava, e, para mim...
  Ela era uma mulher poderosssima porque no tinha medo de ir ao quintal  noite. S algum, com muito poder, tem essa coragem!
  Agora, a corajosa Rosa olhava pela janela aos carros que iam e vinham na cidade grande. No falava muito dos vizinhos, nem tentava inventar histrias. Gostava 
de novelas, mas reclamava de alguns desfechos que no achava certos. Ainda se assustava com o artista cujo personagem morria em uma novela e aparecia em outra; naturalmente, 
como outro personagem.
  Gostava de caf e demorava tomando caf. No precisava mais cuidar da limpeza da casa, no preparava a comida. Tinha tempo para olhar a vida pela janela e tempo 
para ouvir as minhas histrias da sala-de-aula.
  Durante essa sua temporada em So Paulo, fui com minha me ao cinema. Quando voltamos, minha me estava reclamando que no havia entendido, que as letrinhas que 
passavam embaixo eram muito rpidas. que o som era muito alto, e Rosa resmungou: "Essa a (minha me)! Reclamando e eu, que nunca na vida, fui ao cinema!"
  Rosa falava sozinha com frequncia; s vezes, fazia companhia a ela mesma. Contava e ouvia histrias. Ralhava com alguma notcia da televiso.
  Tive certa vergonha em no t-la convidado para o cinema. Juntos h tanto tempo e nunca imaginei se ela nunca tinha ido (ou no) ao cinema. Se gostaria de ir... 
Ento cinvidei. "Vamos ao cinema comigo?"
  Ela no titubiou: "De jeito nenhum!"
  "O qu?"
  "No gosto de sair de casa. Estou bem aqui."
  Apelei: "Poxa, eu no queria ir sozinho!"
  "Leva sua me, que nasceu para reclamar!"
  Inventei: "Ela no quer ir, vai almoar na casa do meu tio."
  "Sei... Essa gente adora comer."
  Rosa brigava com minha me, com a maior naturalidade. Ela se sentia com mais direito sobre meu pai. "Eu o conheci primeiro!" Eram brigas engraadas, pelas razes 
mais simples.
  Ela contava que meu pai teve uma namorada muito entojada (temos dela) e um dia, disse que o caf estava muito quente e ela, imediatamente, ofereceu uma pedra de 
gelo. Sua irreverncia era cativante. Uma irreverncia protetora.
  E fomos ao cinema. E minha me foi junto, mais outras pessoas. Ela se esqueceu de que eu tinha dito que no teria companhia.
  Fomos assistir a um filme nacional, sem legendas, naturalmente. Ela foi de andador, com passos lentos. Ficou assustada co o tamanho da tela, viu o filme com tamanha 
emoo.
  Amigo, durante quase todos os seus ltimos dias ela falou do cinema. Meu Deus! Como  simples trazer alegria s pessoas que esto ao nosso lado!  que, s vezes, 
no reparamos nos seus sonhos.
  Nunca iria imaginar que a Rosa jamais havia ido ao cinema! Talvez a responsvel fosse a minha memria de ouvir dela a trama cinematogrfica do calor de um fogo 
 lenha. Ela est enterrada junto com a minha famlia, numa sepultuar ao lado dos meus avs, que tanto a amaram. Do meu pai e dos meus irmos, filhos seus tambm.
  Relembro as suas histrias, pensando nas suas canes e nas canes que voc to bem empresta a interpretao ptica como Em Vida, de Rosa Giron (msica de Mariano 
Perez, verso em portugus de Claudio Rabelo).
  "Pelos bancos desses parques
  Ningum se toca sem perceber
  Que onde o sol se esconde
  O horizonte tenta dizer.
  Que h sempre um novo dia
  A cada dia em cada ser."
  E que o novo dia faz parte dessa trama e desse ritual que est vivo.
  "E dar as mos, e dar de si
  Alm do prprio gesto
  E descobrir feliz
  que o amor esconde outro universo."
  Meu amigo, vou me desepdindo com essa orao. Dar as mos, apesar do suor e do cansao; e apesar dos calos que encomodam, ainda  a melhor sada: dar de si, sem 
exigir nada do outro  descobrir feliz que o amor esconde outro universo, sem querer que o outro venha pedir desculpa primeiro, para que eu me sinta um vencedor.
  No podemos perder tempo com bobagens. O orgulho  um muro desnecessrio. QUantos casais vo dormir sem se falar, um desejoso de que o outro d o primeiro passo? 
Quantos amigos perdem tempo com pausas causadas por fascas na relao? Vizinhos que ficam anos sem conversar porque, no calor de algum desejo, a razo se perdeu? 
"A vida  curta demais para ser prquena", j dizia Benjamin D'Israelle. Perceber isso exige tocar no corao das pessoas, o que  um exerccio cotidiano.
  Talvez no tenhamos foras sozinhos, para vencer, diante de tantos que no acreditam mais no amor e na solidariedade As maudades, as injustias, vo calejando 
nossos sentimentos e isso no  bom.
  Mas, voltando  vida de Rosa Giron:
  "Talvez quem sabe por essa cidade passe um anjo
  E que o encanto abra suas asas sobre os homens
  e d vontade de se dar aos outros em medida
  a qualidade de poder viver,
  vida, vida."
  Obrigado, amigo, por essas partilhas. Espero que esta carta o encontre tecendo novos retalhos. H muita gente precisando de coberta. 

  Com todo meu carinho,

  Gabriel.


  Sexta Carta

  Meu amigo Gabriel
  Obrigado pela chuva mansa que que suas palavras representaram no meu fim de tarde, moment em que meus olhos puderam ver as iluminuras de seus escritos. A cada 
nova carta eu me conveno: a palavra  guardio da verdade. Ainda que de forma limitada e imperfeita, ela sempre poder nos encaminhar ao conhecimento dos segredos 
domundo.
  Suas cartas funcionam como chaves: abrem quartos escuros de minha morada interior, lugar que suas memrias iluminam e que me fazem retomar prazer  conscincia 
- processo maiutico que faz vir  luz o que em mim insistia em permanecer velado, no nascido.
  Gabriel, a vida s tem sentido se tocarmos o corao das pessoas, toque que identifica o elo que nos congrega grande corrente que pode amarrar o mundo em significados 
nobres, felizes. Toque que nos aproxima da misso de redimir os sofrimentos que funcionam como obstculos que ofuscam e impede a realizao humana. Estou convencido 
de que esse tambm  um dos cdigos que diferenciam o ser humano de todos os outros, e esse  o fator que determina a qualidade de nossa atuo humana. Esse  o 
fator que especifica o valor social de uma pessoa no contexto em que est inserida: o quanto ela  capaz de influenciar a sociedade de seu tempo.
   verdade! Um ser humano s pode ser verdadeiramente grande se for capaz de tocar o corao das pessoas. Gosto dessa metfora: o corao  a expresso que nos 
recorda o motor que nos move. Nossa cultura compreende o corao como o lugar onde a vida  decidida. Amplio a metfora. Ousaria dizer que a vida s tem sentido 
se vivermos para tocar o corao e a mentalidade das pessoas.
  No me coloco a parte, como se tambm estivesse necessitado de ser tocado. No me interpreto como pronto, portador de autoridade que me coloca acima das pessoas. 
No, mas ao contrrio: teho sempre o cuidado de me compreender a partir dos limites que tenho. No sou melhor que ningum, apenas exero um ministrio que me confere 
uma autoridade a mais, ministrio que me configura  vida de Cristo e que me faz participar diretamente de seu carter redentor.
  Falo como homem que cr no evanbelho, como ser que um dia foi tocado pela fora das palavras de Jesus e nelas, reconheceu a verdade que pode transformar as estruturas 
humanas. As palavras de Jesus se desdobram em tantas outras, simbiose que reconheo nos versos de Adlia Prado: a mineira sensvel que faz literatura a partir do 
cotidiano.
  Descobre os rastros de Deus em saias rodadas, obras dos caminheiros, foges a lenha onde fumega uma chaleira, coumada de significados profundos. Tem um corao 
sem cercas. A beleza da vida me afeta sem restries: so um territrio que no se nega a receber a poesia;  assim que me percebo sendo tocado no corao.
  A palavra tem peso na minha vida. Desde criana foi assim: a cada livro desvendado, um novo tempo era inaugurado dentro de mim. Sou eternamente grato aos escritores 
que me construram. Gente de que nunca cruzei o caminho real, mas que entrou pelos caminhos da minha vida; gente ue tocou meu corao.
  Em Jesus, eu descobri a tica e a esttica. Nele, o abrao dessas duas realidades est realizado. Jesus reuniu a beleza e a bondade numa mesma sala. O seu discurso 
 belo, mas s  belo porque sugere bondade. Os gestos de Jesus so naturalmente poticos, nele permanceiauma sensibilidade rara: suas palavras to prticas iam 
alm.
  A simbologia de seus gestos nos aponta para uma postura reconciliadora na qual a caridade no suplanta, nem desconsidera a parusia. O cu comea nas pedras, o 
amor fraterno no se prende aos atos humanos, mas sugere uma continuidade eterna: coisa de quem sabe que a materialidade da vida no esgota os seus significados.
  Jesus  a matriz, eu sou a filial. tenho conscincia de que minha palavra  mero desdobramento do que Ele disse. Tento ser fiel ao Deus que me inspira. Eu no 
inventei nada, apenas coloco a minha humanidade a servio dessa verdade maior. O valor que me move  muito maior que eu, creio verdadeiramente no poder transformador 
desse valor. Creio verdadeiramente no poder e na proposta firme de Jesus, quando assumida e encarnada de maneira mstica e histrica. Ela  instrumental, eficaz 
para que o mundo volte a se aproximar da harmonia inicial que as Sagradas Escrituras nos sugerem.
   fascinante perceber a capacidade que Jesus tinha de tocar as pessoas. Os relatos evanglicos nos revelam isso. Ele atraa multides, portava um discurso que 
era capaz de curar as dores do corpo e da alma (redeno completa), sem redues, sem alienaes. A totalidade da vida humana com palta; a vida vivida, sofrida e 
experimentada na crueza do cotidiano era matria-prima de sua fala. Por isso a sua fala era to atraente. Ela nascia da realidade, tocava o corao das pessoas.
  Gabriel, nas minhas andanas pelo mundo, eu tenho encontrado muita gente necessitada de ser tocada de um jeito certo. No podemos mais admitir que o discurso religioso 
continue sendo usado de maneira to equivocada e absurda! No  possvel viver as esperanas do cu sem asresponsabilidades da Terra. Religio que no transforma 
a realidade humana  alienao. A preservao do ministrio, a preservao do mistrio - elemento fundamental para o discurso religioso - no pode estar desvinculada 
das responsabilidades histricas.  O Deus a quem reverenciamos precisa entrar na histria atravs de ns, somos os braos humanos de Deus. Ele ter a chance de agir 
no mundo  medida que nos colocarmos  frente de seus projetos. As religies so caminhos que querem nos levar ao conhecimento desses projetos. Elas procuram nos 
aproximar da revelao divina; cada um, ao seu modo, faz o seu caminho. O importante  que todos ns estejamosempenhados na promoo da jsutia da verdade da vida. 
Empenhados na construo de um mundo mais fraterno, mais harmonioso, mais feliz. Empenhados em destruir a corrente do mal que insiste em prevalecer entre ns.
  Meu amigo, o mal cresce de forma assustadora pelos quatro cantos do mundo. Como? Algum o ensina, algum o promove. Esse crescimento passa pelas escolhas que fazemos. 
O ser humano  o lugar onde o mal se concretiza.
  No estou interessado em fazer aqui uma reflex sobre a origem do mal. No, no quero me delongar com uma questo to complexa e sugestiva. Eu apenas me limito 
a olhar para o fato inegvel de que o mal esbarra em ns o tempo todo.
  Vez em quando, encontro pessoa que foram destrudas por causa da ,adade dos seus inimigos.  assustador! Ver de perto as consequnciasde uma inveja no administrada, 
de um cime fora de controle. Ver pessoas articulando a queda de outras pessoas, tendo como nico objetivo no permitir que elas avancem, que elas cresam, que prevaleam. 
No permitir que elas sejam bem-sucedidas, pois temem que venham a ofusc-las.
  Recordo-me de uma conversa que tivemos em que voc me relatou um de seus encontros  com D. Rorani, - homem sbio e profundo - que est comandando de forma brilhante 
a arquidiocese do Rio de Janeiro. Ele lhe disse que para resistir ao mal  preciso criar imunidade. Ele tem razo! Assim como a vacina  buscada para bloquear a 
fora devastadora do vrus,  preciso descobrir um jeito de ficarmos imunes ao poder destruidor do mal.
  No  fcil, meu caro amigo. Hoje a maldade tem armas poderosas (a Internet  uma delas). O anonimato da virtualidade parece fomentar coragem. As pessoas deixam 
vir  tona o que possuem de pior: falam o que no sabem, falam descompromissadas com a verdade, banalizam o que , para o outro,  sagrado; inventam, caluniam, agridem, 
espersinham.
  O mal tem muitas faces. Ele  sedutor,  engraado - o mal  debochado -, utiliza-se das fragilidades humanas e nela, faz o seu ninho.  a partir delas que ele 
cresce, ganha corpo e se multiplica.
  Gabriel, no sou maniquesta. No compreendo o mundo a partir dessa linha imaginria que o divide entre o bem e o mal. Essa diviso no corresponde ao que minha 
experincia me revelou. O que tenho do mundo  sua concretude e o seu peso existencial a me afetar o tempo todo. O mal est por toda parte, mas o bem tambm est! 
Por vezes, s o bem prevalece; por vezes, s o mal. Tudo depende do que vamos deixar crescer:  assim que ganhamos;  assim que perdemos.
  Ganhamos, no s como indivduos, mas como coletividade. O bem que toca os que esto a meu lado tambm repercute em mim. A vida  real, no estou imerso numa atmosfera 
de sonhos.
  As janelas de minha casa no possuem filtros.  atravs delas que olho a minha cidade, vejo belezas e feiras. Esto todas no mesmo ngulo de viso. O desafio 
 fazer o olhar demorar no detalhe que o descansa. Ele no desconsidera a imperfeio existente, mas seleciona o ponto que o far interpretar o todo.
  Meu amigo, o marido que fazia semanalmente a afelio do percentual de gordura da esposa precisa aprender essa regra: s  possvel amar arosa se considerarmos 
os espinho que ela carrega. Amor que no considera defeitos, acho que no  amor. S o amor nos possibilita conviver com esses contrrios. O corpo j no tem o mesmo 
vio do passado, mas s ele resguarda as memrias que nos recordam quem somos ns; esse  um fator determinante. Quem ama no vai embora, mas fica para receber junto 
a criatura amada,  tarde que cair.
  Em sua carta, voc mencionou a importncia de se ter uma famlianos dias de hoje. Concordo com voc. O lar  a primeira hermenutica que fazemos do mundo. A famlia 
 o primeiro toque que recebemos no corao. Ele ser definitivo. Acompanhar o nosso desenvolvimento humano. Ser uma marca indelvel.
  Gabriel, a marca que recebemos em nossa casa  bastante determinante para a consolidao de nosso carter. Por isso, precisamos retomar essa responsabilidade. 
A negligncia dos pais  extremamente danosa para o futuro de uma criana.  nesses descuidos que o mal encontra espao para lanar suas razes. O ser humano mal-horientado 
 um territrio fcil para que os aveos monstruosos do mundo prevaleam.
  Tenho pedido muito a Deus o dom de perceber  momento em que a semente do mal venha cair na minha terra, ou nos territrios que me rodeiam. Quero ser vigilante. 
 assim que cumpro minha parte no pacto que fiz com Deus. Por vezes consigo, por vezes no. O fundamental  no desistir, tem conscincia do processo to importante 
quanto chegar ao fim.  como voc bem disse sobre a arte de saber viajar. A viagem comea no momento em que decidimos ir. A beleza do que nos espera j se antecipa 
no desejo que nos faz arrumar as malas.
  Eu decidi viver assim, as malas esto sempre prontas. Quando eu percebo que a vida me chama, no penso duas vezes: eu vou! Venha comigo!

  Com meu carinho e bno,

  Padre Fbio de Melo

    Stima Carta

  Querido padre Fbio
  Viajar  bom demais quando se tem na mente e no corao a certeza de que nossos olhares vo preservando os espetculos da vida em ebulio. E quando retornamos 
- e retornar  essencial de nossa anela -, como voc bem escreveu, diante de um entardecer chuvoso ou ensolarado, frio ou no, somos capazes de trazer a memria 
para conversar conosco. E conversamos o tempo necessrio para que as tormentas se dissipem e a calmaria nos acompanhe na pausa do anoitecer.
  Em sua carta, voc faz uma homenagem  palavra - a guardi da verdade.-, e, ao mesmo tempo, faz uma constatao em um mundo to triste que quer diminuir as fronteiras.
  Por um prazer macabro, tacanho, utilizamos pessoas para o deboche (a fofoca, a maledicncia), como se o outro fosse um personagem sem histria, nem sentimento. 
Focamos o fato, no a vida e focamos o fato dojeito maldoso, do jeito que nos permite exibir a misria humana - e parece que isso nos diverte.
  Leigo engano, amigo. Infelizes so aqueles que passam a travessia desconstruindo a imagem alheia.  Vivem de restos de destruio. No h escultura nova - nem material 
novo -, colhido de impresses, de cenrios espetaculares, de viagens ou de suas janelas. Tempo precioso desperdiado com prontido para a guerra - guerra tosca, 
guerra tola. Guerra contra algum que tem alguma possibilidade cujos talentos esto a servio desse bom e desse belo!
   A simbiose est, como voc disse, no discurso e na prtica de Jesus.
Quanta beleza em suas histrias, em seu repertrio! Quanta bondade em suas aes!
  Sei, amigo, que proliferam acusadores de planto em cujas janelas h vidraas sujas. O vidro imundo impede um olhar verdadeiro para quem passa por perto ou ao 
longe.  s sujeira. Pena! Se ao menos abrissem a janela.
  Fiquei pensando nas expresses de sua carta, tem um corao sem cercas. Na carta anterior, voc convidou Ceclia para falar de liberdade. Um corao sem cercas 
 como uma janela limmpa.  como um viajante de boas intenes ou como uma pessoa de boa vontade. Uma pessoa de boa vontade vai sendo construda aos poucos.
  Ningum nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem, ou ainda por sua religio. Para odiar as pessoas, precisam aprender e, se podem aprender 
a odiar, podem ser ensinadas a amar.
  Esse ensinamento de Mandella sintetiza o bom e o belo, de que tanto falamos. Esse homem ficou preso durante quase trinta anos, em uma selamuito pequena. Nos momentos 
mais difceis daquele quarto sem janelas, a luz entrava pela poesia que o acompanhava.
  Sofreu certamente pela conscincia da injustia, pela certeza de que seu povo tambm sofria. Saiu liberto da priso e decidiu que sua alma no seria aprisionada. 
A priso no teria o poder de continuar com ele. Era um momento novo, um momento da to sonhada liberdade!
   Livrou-se dos sentimentos de dio, de vingana e continuou a sua jornada. Eleito presidente da repblica de seu pas, teve de amenizar o desejo que seu povo tinha 
de mostrar aos brancos o que  o sofrimento.
  Mandela venceu disposto a acabar com as guerras entre brancos e negros. Sabia que, caso se vingasse dos brancos, um dia um branco voltaria para se vingar dos negros, 
e essa desfatez no teria mais fim.
  Era preciso unir, era preciso perdoar verdadeiramente. E foi assim que a frica do Sul comeou a construir a sua nova histria. Certa feita, perguntaram a um de 
seus seguranas como era trabalhar com Mandela. E ele, qe j tinha servido a outros lderes, respondeu: "Com Mandela, ns no somos invisveis. O outro nem sabia 
o meu nome..." E seguiu afirmando que Mandela tambm sabia o nome dos seus familiares e at o ch que ele gostava de tomar.
  Querido amigo, so pessoas assim que nos impulsionam a prosseguir enxergando o outro. E esses so os verdadeiros lderes: chegar ao poder  um detalhe. Muitos 
chegam por razes que, inclusive, independem de talento. Compram voto, mentem, enganam, herdam o poder 
de famlias que perpetuam as tramas do engodo. Mas chegam ao poder... E ento? Agem como se donos fossem do poder que usurparam.
   O lder no  assim. O lder tem a conscincia do seu papel de exemplo, de servidor, de aspiraes construdas coleativamente. Seja o lder um presidente da repblica, 
ou um pai de famlia. Seja um lder um executivo ou um professor. Lideramos pessoas e processos e, por isso, temos a responsabilidade de harmonizar os nossos sentimentos 
e as nossas relaes.
  Quando fui secretrio de educao do estado de So Paulo, tive a responsabilidade de administrar uma das maiores redes pblicas do mundo. Na poca, eram quase 
6 milhes de alunos, 300.000 funcionrios, um oramento de quase 15 bilhes de reais. Voc me acompanhou em alguns encontros com os professores. Entrei e sa da 
secretaria com as mesmas atitudes. Graas a Deus, o poder nunca me deslumbrou.
  Conheci secretrios de estado que entraram em depresso e alguns quenunca mais se reconstruram depois que deixaram seus cargos. Isso acontece em empresas tambm. 
Acontece com artistas, jogadores de futebol, celebridades construdas e destrudas pela mdia. No dia em que aparecem outros produtos, aqueles retornam, descartveis. 
Esse  o mundo real, amigo: usa-se e joga-se fora! Perdeu o sabor de novidade,  preciso buscar outro chamariz de fofocas e comentrios!  Isso acontece com casais 
tambm. O outro perdeu o sabor de novidade e ento, aventuras novas aquecero o doentio desejo de exibir ma nova conquista. Doentio, porque essas relaes esto 
fadadas ao fracasso. Fracassamos quando desumanizamos as relaes; em outras palavras, quando deixamos de ter compaixo. Colocar-se no lugar do outro  regra de 
ouro da tica.
  Gostaramos que nos tratassem como estamos tratando o outro? ostariaque tivessem comigo a mesma atitude que estou tendo?
   Amigo, quando enxergamos o poder como um processo necessrio de servio, nossa misso de embrandece. Mudamos de funo, mas no perdemos o sabor do xtase diante 
da chuva mansa do fim de tarde.
  Voc disse de D. Horane, que admiramos tanto. Recentemente, conversando com D. Anglico, e falando sobre o fato de os bispos se tornarem imritos aos 75 anos, 
questionei se no era cedo demais. Ele no titubiou: "A vida vai sendo reinventada. Ele continuava sendo o sacerdote do seu povo com a mesma alegria e disposio 
de sua ordenao sacerdotal. Um bispo no perde o poder aos 75 anos: muda de atividade." Um jogador no perde o poder quando deixa os campos: ganhanovas expresses 
de vida. Um executivo que deixa o comando de uma empresa pode servir em outra frente, assim tambm um governante. Ganhamos quando temos a certeza de que, apesar 
das imperfeies, cumprimos um papel. Perdemos quando sonhamos pouco com os outros e muito com o significado do transitrio.
   preciso sonhar com o essencial. Somos mais que os cargos que ocupamos; somos mais que os aplausos que recebemos.
  Cristo no se contentou com os aplausos: agradeceu. Mas no se tornou refm deles. No aceitou a tentao de dominar o mundo como queria o tentador. Seu domnio 
era outro> o domnio do amor. A construo da civilizao do bem passa pela construo de um ser humano equilibrado.
  Mandela poderia sair destruindo seus destruidores. Teria razes at para isso, num olhar apressado de alguns partidrios. Precisou ir alm: convencer a si mesmo 
(e aos seus) de que janelas sujas enfeiam apaisagem. E o dio  sujeira, vingana tambm.
  Em filmes,  comum a plateia torcer para que o vencedor destrua o perdedor. Nada de comiserao! O lder tem de tomar cuidado com essas torcidas. Os mesmos que 
apelam para a impiedade, amanh recriminaro a ausncia de virtudes. Vem  minha mente as palavras pessimistas de Versos ntimos, do grande poeta Augusto dos Anjos, 
sobre o destino da humanidade.
  "Acostuma-te  lama que te espera
  O homem, que nesta terra miservel,
   Mora entre feras, sente inevitvel
  Necessidade de tambm ser fera.
  Toma um fsforo, acende teu cigarro
  O beijo, amigo,  a vspera do escarro.
    A mo que afaga  a mesma que apedreja"

   preciso tomar cuidado com a cegueira causada pelos aplausos.  preciso ser bom para ignorar a fera que insiste em nos invadir. A vitria  muito maior que isso. 
Os instantes no tm a consistncia dos sonhos: tem talvez o poder de perturb-los, mas no tm o poder de substitu-los. Os instantes ganham mais poder com a ausncia 
de sonhos, e essa  uma grande derrota.  Se Mandela no tivesse sonhos, os seus instantes de poder poderiam ser de vingana, de fera, ou de exibicionismo.
  Parece sedutor demonstrar o poder destruindo o inimigo. Volto aos aplausos e insisto na efemeridade deles.
  Como professor de direito, insino aos meus alunos que advogados no podem mentir, no podem comprar testemunhas, no podem criar fatos inexistentes. Podem e devem 
argumentar.
  Insosto ainda que vencer uma causa no significa construir uma carreira vitoriosa. A vitria, no exerccio de uma profisso nascida para a defesa do direito  
o sonho e a cotidianidade do direito.  deitar para dormir e continuar sonhando com o direito. E se porventua, surgir ou a dvida ou a certeza de que est nadando 
contra a correnteza, timo! Nadar contra a correnteza fortalece os msculos da honradez.
  E como  bom, amigo, olhar para os filhos sem disfarces. Como  bom no precisar esconder Os mtodos expuros que permitiram a suposta vitria!
  O jornalista que foge uma manchete pode at ganhar aplausos na alta tiragem do seu veculo de informao, mas perde na conversa estranha com a conscincia.
  Retorno s palavras do "poeta do mau gosto", Augusto dos Anjos:

  "O Morcego
  Meia-noite,
  Ao meu quarto me recolho
  Meu Deus, e este morcego?
  E agora vede
  Na bruta ardncia orgnica da sede!
  Morde minha goela
  gneo e escaldante molho.
  Vou mandar levantar outra parede
  Digo: ergo-me a tremer,
  Fecho o ferrolho
  E olho o teto, e vejo-o ainda
  Igual a um olho.
  Circularmente sobre a minha rede,
  Pego de um pau,
  Esforos fao,
  Chego a toc-lo
  Minh'alma se concentra.
  Que ventre produziu to feio parto?"

  A conscincia humana  este morcego. Por mais que a gente faa,  noite, ele entra imperceptivelmente em nosso quarto.

  Ento inquieto-me
  Mas vale a pena?"
  Vale a pena jogar lama no outro por algum quinho a mais? E no ficam sujas as mos que jogam lama?
  No estou dizendo que no se deve mostrar os fatos, estou falando em estratgias mentirosas e apressadas, que roubam a beleza da palavra construda com tanto cuidado. 
 o que voc disse da palavra: a guardi da verdade.
  Fora aqueles que recebem vantagens para destruir o adversrio do dono do poder, ou do dinheiro, ou do que se julga "o dono do mundo".
  Na poltica, infelizmente isso vem acontecendo com frequncia. So o que agem no subsolo. No aparecem, mas pagam para que outros atirem pedras. E assistem  destruio 
do perdedor. E se enchem de satisfao pelo estrago que conseguiram causar, sorrindo.
  Sorriso falso  feio e a satisfao  provisria. No acredito que exista ser humano que sobreviva da destruio do outro como no acredito em morcegos que, para 
viver, tm de sugar o sangue alheio. Acreditar nisso  desacreditar a humanidade!
  Mesmo sabendo que h gente por a que age dessa maneira, volto aos msculos fortalecidos por nadar contra a correnteza. Se h sujeira, limpemos. A sujeira foi 
feita, o mundo nasceu limpo.
  Na sociedade apressada em que vivemos, as cobranas escondem um valor to bonito quanto necessrio, que  o valor da cooperao. Se eu estou pronto para competir 
e vencer, dificilmente estou pronto para olhar ao lado.
   uma carnificina que exala um odor desagradvel. O sangue das arenas dos gladiadores continua incomodando na guerra urbana, que se trava com tamanha crueldade.
  Que histria  essa de o pai querer que o filho seja o melhor em tudo? Que histria  essa de a me exibir o filho como o vencedor e olhar para o resto (Exatamente 
Esta palavra: resto!), como perdedor?
  E surgem as cobranas e as mentiras. Os filhos vo mentindo para mostrar que, de fato, continuam no topo, destinado aos que triunfam. E querem aplausos, ou presentes, 
ou mais dinheiro, ou permisso para continuarem exalando o cheiro da arrogncia. Aprenderam a odiar. Que pena! Poderiam ter aprendido a amar!
  Alguns podero imaginar que falamos de cidades ou de sociedades imaginrias. No, amigo! Falamos do cotidiano, e  nesse cotidiano que  possvel viver de forma 
cooperativa.  possvel construir uma vida vitoriosa, sem pisar ou pesar sobre o outro.
  Repito: gosto dessa brincadeira de palavras. J usei inclusive em alguns poemas que ouso arabiscar. Pisar ou pesar so tpicos de pessoas que aprenderam a usar 
o traje da arrogncia e do egosmo.
  Os pais no podem educar os filhos como se os filhos fossem os nicos do mundo.  na diviso da refeio que se ensina a deixar ao outro uma parte daquilo que 
me daria prazer.
  No poucas vezes, vi crianas na rua pegando um pedao de po e indo dividir com um irmo menor, que no conseguiu chegar at a fila da distribuio. E no poucas 
vezes tambm, vi em casas abastadas, crianas comendo em excesso, com medo de que no sobrasse para si mesmas. Pessoas enchendo o prato da comida de que mais gostam, 
sem se importar com a comida de que o outro gosta. "Gosto muito de peixe. Vocs comem outracoisa, no ?"
  No. No  assim que se convive em sociedade. Pode ser que outra pessoa tambm goste de peixe,. Um pouco para cada um. Parece um detalhe, mas  nos detalhes que 
se forja um carter.
  O menino mimado que grita com a bab - e que d ordens e que provoca o riso dos pais -  um menino que est sendo construdo torto. E h pais que tm a pachorra 
de dizer: "Viu como ele tem personalidade?" Isso no  personalidade,  falta de educao, falta de respeito. Vamos ensinar a amar!
    Padre Fbio, nas canes e nas oraes , nas pregaes e nas aes, na rima rica da vida... Vamos mostrar que o Cristo que amamos  o sinal dos tempos que sonhamos! 
 a sua doutrina e a sua vida que nos inspiram. Sem regras mesquinhas, amigo. Sem excluses - ou melhor, excluindo o dio, a prepotncia e a cegueira da alma.
  Voc iniciou sua carta em um entardecer chuvoso, eu termino a minha em um amanhecer ensolarado. O que  mais bonito? O amanhecer ou o entardecer? A chuva ou o 
sol? 
  Quanta tolice querer comparar, no ? Por que temos de escolher o vencedor - o mais bonito, o mais inteligente, o mais perfeito? Em competies esportivas, podemos 
aplaudir O vencedor. Em festivais de arte tambm. Venceram uma etapa e merecem o reconhecimento pelo esforo e determinao. Isso sim!
  Um dia chuvoso aps um longo perodo de seca  muito bem recebido. Um dia ensolarado, depois de uma chuva intermitente, acalma a nossa ansiedade. Ora a chuva poetisa 
a vida, ora o sol. s vezes brincam de chegar juntos; s vezes, trazem o arco-res para complementar o espetculo. E vo embora, e ficam em ns.
  Aceito seu convite para a viagem e o convido para descansar na minha janela. s vezes, ser bom conversarmos; outras, ser bom, em silncio, contemplarmos a chuva 
ou o sol. Esperar o tempo do sol se despedindo, e comentar sobre sua beleza. Ou no?
  Gbasta um olhar e se percebe que o espetculo, repetido tantas vezes, no se repetiu:  a unicidade da natureza, sempre a mesma, sempre diferente. Paradoxos poticos 
que deafiam os que tm olhos de ver, os que tm ouvidos de ouvir, os que tm sentimentos a sentir. E os que no tm?
  Todos tm. Podem no saber que tm, mas que tm, tm.
    Repitamos essa partilha da escrita e os sentimentos de ternura que os une sero sempre nossos. Como falei muito em Nelson Mandela, partilho com voc no final 
dessa prosa, O Poema de William Ernest Hamway, em traduo de Renato Marques de Oliveira, que o acalentou nas noites frias da priso.
  
  Invictos
  Do breu da noite que no se dissolve
  A me envolver em nuvem negra
  A qualquer deus, se algum me ouve
    Agradeo por minha alma que no se verga.
  Fustigado pelas guerras do acaso,
  Nunca lamentei, no esmoreceu minha f.
  Sob os golpes fortuitos do descaso,
  Trago a cabea em sangue
  Mas ainda  de p.
  Alm deste lugar de ira e ranger de dentes,
  S se v o horror das sombras silentes.
  Mas a ameaa do tempo que nunca recua
  No me amedronta,nem me acua
  Embora  estreito o porto, sigo adiante
  Mesmo tendo ao lado
  O castigo e o desatino
  Da minha alma eu sou o comandante!
  Eu sou o senhor do meu destino."

  Obedeamos ao poeta. Sejamos mestres do nosso destino e comandantes da nossa alma. Quem sabe assim, libertos de alguma priso, sejamos capazes de perdoar quem, 
ignorante, nos aprisionou. Sejamos mestres nosso destino e comandantes da nossa alma. O futuro existe!

  Com o meu carinho de irmo,

   Gabriel.

  Oitava Carta

  Meu querido Gabriel
   com renovada satisfao que continuo recebendo-o em meu vago de viagem. A cada carta tenho a grata sensao de avanar mais Uma estao na estrada da vida.
  Meu amigo, a cada dia em me conveno de que s  possvel crescer  medida que samos de ns. O encontro nos favorece a troca de experincias. A partir delas, 
ns repensamos o resultado da vida que vivemos. E assim vamos avanando, quebrando paradigmas, abrindo novas possibilidades para a interpretao que fazemos de ns 
e do mundo em que vivemos.
  Os versos de William earnet Hanley so interessantes.  a partir deles que reinterpreto a minha sede de autonomia. A teologia me ensinou que um ser humano s pode 
alcanar a inteireza do que   medida que se possui.
  Nascemos indivduos. S podemos nos tornar pessoas na medida que nos exercitamos na edificao dos dois pilares: posse de si e disposio ao outro.Acho interessante. 
S pode se oferecer verdadeiramente aquele que j dispe de si.
    instigante a forma de interpretar a autonomia: a antropologia crist situa o conceito de pessoa a partir destes dois pilares. Ser pessoa  estar na posse do 
que se , oferecendo-se aos outros. Essa oferenda fometnaa fraternidade que gera a realizao e transforma o mundo.
  Os versos de Hamley parecem mergulhados num contexto de subverso; parecem nascidos no que viu de perto os terrores da privao.
  "A alma agora que no se verga Parece cansada de enganos e cativeiros."
    Eu compreendo. A agressividade de uma resposta costuma estar diretamente ligada BA crueldade velada da pergunta.
  Vejo isso pelas minhas andanas. Os ateus mais agressivos que encontrei nasceram de sensibilidades feridas (os criminosos tambm). H sempre um fato determinante, 
de fundo velado, gerando a resposta aparentemente incoerente. A verdade  que ningum  por acaso.
  A verdade  que, ao ler os versos de Hamley, outra impresso eu no tive: a beleza das palavras no oculta os motivos tristes que o levaram a desjar tanta autonomia. 
O poeta - na tentativa de tentar se possuir - resolve fechar as portas para a possibilidade de ser conquistado.
  Os seus versos nos doa entender que o tempo do poema  antecedido por um contexto de cativeiro. Por isso, ele se reveste de uma couraa. A proteo s tem um 
objetivo: evitar qualquer forma de derrota. O medo de perder o fechou para a possibilidade de ganhar.
   provvel que ele tenha perdido muito na vida. Perdeu sem enxergar o ganho que costuma morar no avesso da perda. Perdeu demais, perdeu mais do que deveria, perdeu 
tanto que desaprendeu de ganhar.
  Diante do desaprendizado s h uma possibilidade: fechar todas as aberturas. Viver ensimesmado  uma estratgia - tentativa de cessar as perdas.  como se o isolamento 
fosse capaz de paralisar o nascimento das desarmonias do mundo.
  Gabriel, pude acompanhar de perto a histria de um rapaz que sofria desse mesmo mal. Eu o conheci por ocasio de um congresso no interior de Minas Gerais. Era 
um dos organizadores. Ele era moo na aparncia, mas j tinha o corao envelhecido.
  Eu fiquei assustado com o tratamento que ele dispensava s pessoas que trabalhavam com ele: era duro nas pequenas coisas. A expresso sempre cizuda no nos permitia 
liberdade diante dele. Ele era capaz de inibir os que se aproximavam.
  Eu procurei controlar os efeitos de sua presena; afinal, eu precisava estar bem para realizar o meu trabalho.
  Ao trmino do terceiro dia, eu j tinha conseguido bons resultados. Consegui ser livre, mesmo tendo seu olhar constantemente pronto para reprovar-me. Uma semana 
depois de terminado o congresso, eu recebi um telefonema dele. Disse que gostaria de ter a oportunidade de conversar um pouco mais comigo.
  Achei estranho! Afinal, eu tinha passado trs dias com ele e o que prevaleceu foi a linguagem tcnica, que  prpria de um organizador que no tem interesse de 
se envolver com os palestrantes.
  Marcamos e ele veio at minha cidade.
  Durante o almoo, ele revolveu colocar para fora vinte e trs anos de tristeza e abandono vividos ao lado do pai. Contou-me que levou a primeira surra aos dois 
anos, e que no se recordava de ter recebido um carinho do homem que o trouxe ao mundo.
  A morte da me foi o grande divisor de guas. Ele a encontrou com os pulsos cortados, Quando ainda era um menino de 8 anos. Disse que foi aimagem mais triste que 
seus olhos j puderam enxergar na vida.
  Com a morte da me a agressividade do pai se tornou ainda maior. Ele era o filho mais novo da famlia (tinha dois irmos mais velhos). O irmo do meoi era excepcional 
- vivia trancado em seu mundo; o irmomais velho era o nico que ousava desafiar o tratamento desumano que o pai havia imposto  famlia.
  Ousou tanto que perdeu as foras. Inforcou-se no quarto em que estava trancado, durante trs dias.
  O moo me contou tudo com absoluto controle das emoes. A sua fala estava revestida de uma indifferena desconcertante. Contou da mesma forma que dirigia ordens 
aos seus assistentes durante o congresso. Era como se estivesse provando para si mesmo que a histria trgica de sua famlia no poderia He extrair mais nenhuma 
dor.
  A regeio do pai, a morte da me e do irmo eram acontecimentos j distantes, incapazes de lhe provocar reaes. Ele havia decidido ser indiferente. O rosto estico 
- sem sorriso nem lgrima - era o territrio onde ele demonstrava essa deciso.
    Depois de tanta dor e rejeio, o rapaz descobriu a indiferena como mecanismo de defesa. Toda vez que seus sentimentos eram ameaados, - tanto para se entristecer 
quanto para se alegrar -, ele encontrava na agressividade o escudo para se proteger.
  Dotado numa inteligncia aguada, ele descobriu nos estudos um lugar seguro para se esconder. Elegeu a filosofia como campo de pesquisa; descobriu no atesmo uma 
maneira confortvel de acomodar e justificar suas desesperanas.
  O pessimismo filosfico serviu-lhe de travesseiro. Fez da descrena sua crena, forjou uma resposta que pudesse lhe servir de sustento para os ps. S que essa 
resposta no conseguiu reabrir o o seu corao para a possibilidade de reenterpretar a sua histria, e partindo dela, reencontrar um lugar sob o sol da alegria.
  Gabriel, aquele rapaz havia desaprendido de ser pessoa - ou ento nunca aprendeu - e a sua atitude revelava-lhe uma insegurana imensa. A voz decidida, firme, 
estava sempre costurada de uma agressividade velada, como se estivesse tentando cobrir uma fragilidade imensa. Ele era portador de um arsenal psquico e ntido: 
a arrogncia estava nos olhos, mas ao mesmo tempo era possvel perceber a solido que nele estava alojada.
   como ver uma casa suntuosa que no tem alicerce. Num primeiro sopro de vento, tudo pode vir abaixo.
  O revestimento das aparncias estava a servio de um menino abandonado, medroso e infeliz. Pelo que pude perceber, ningum havia quebrado aquela couraa; ningum 
teve acesso ao poro de suas saudades de ausncias. Por isso ele no pde se possuir: restringiu-se  condio de indivduo. Fgaltou a voz que pudesse lhe acordar 
de sua letargia existencial.
  Ele tinha uma mente fria, cauculista, que certamente foi construda aos poucos (bem aos poucos!). Durante toda nossa conversa pude observar que ele estava sempre 
pronto para um ataque.
  Disse que ouviu tudo que eu havia dito durante o congresso, e que me considerava portador de uma teoria muito bonita.
  Eu no quis discutir a sua considerao. Achei que o rapaz no precisava de discusses. O que ele realmente precisava era reencontrar o caminho do colo do pai, 
o sepulcro da me morta. As suas necessidades no seriam sanadas com discursos e argumentos.   O que verdadeiramente poderia cur-lo pertence ao contexto das coisasmais 
simples que na vida podemos receber, e infelizmente, eu no tive tempo para convenc-lo disso.
  Dois meses depois daquele nosso almoo, eu recebi o comunicado de que ele havia sido encontrado morto em seu apartamento. Morreu, repetindo o destino do irmo: 
enforcou-se. Aos olhos de todos, um absurdo. Como pode querer morrer um rapaz cujo pai havia lhe deixado um grande patrimnio? Como pode abandonar a vida algum 
dotado de tanta inteligncia e prestgio intelectual?
  Mais tarde eu refleti. Pendurado naquela corda, ele estava retratado na coerncia que lhe era possvel. Ele no aprendeu outro caminho. Desde muito cedo, ele comeou 
a receber os gomos da corda que o enforcou. Ele poderia ter feito dos gomos um lao que caracteriza os homens fortes da vida rural. Poderia ter interpretado o avesso 
dos prejuzos como um lugar de aperfeioamento de superao, mas ele no pde. Ele no conseguiu!
  Creceu imerso no contexto da falta, da ausncia.z No aprendeu a vida da teoria que me move.
   natural queuma pessoa que tenha perdido tanto na vida venha a considerar a esperana uma teoria bonita. E nada mais...
  Meu amigo, ganhar e perder so dois lados de um mesmo caminho, a experincia nos ensina. Voc falou disso em sua carta. Relembrou o belssimo testemunho de Mandella,, 
o homem que, diante da possibilidade de ganhar - fazer justia  sua raa -, resolveu lutar para que as diferenas no prevalecessem. Aos olhos incaltos ele perdeu 
a oportunidade de vingar o sofrimento que ele mesmo carregou na carne. Poderia muito bem ter revidado, criando um regime de governo que desse aos negros a oportunidade 
de virar o jogo.
  Mas no. Mandella preferiu ganhar de outro jeito. Iluminou seu pdio com luzes que no so convencionais. O mitovo  simples: Mandella  pessoa! Possui o que . 
Administra todos os atributos que lhe so prprios,e por isso  capaz de alcanar as razes da misericrdia. Ele compreendeu que perdoar  ganhar.
  O poder que o fascinava no passava pela vingana e tampouco estva paltado sobre os princpios mesquinhos da vingana e da revanche.
  A histria pessoa o encaminhou para uma opo muito mais elaborada de exerccio de poder. Mandella aprendeu com a vida. Ao ver de perto a dor que doeu na honra 
de seu povo, esse homem descobriu que era possvel assumir um papel determinante na histria da frica do Sul. Ele no negligenciou o segundo desdobramento do conceito 
de pessoa.
  O primeiro ele j exercia bem - ele era dono de si. No estava alienado nas mos de seus opressores. No assimilou os sentimentos que justificavam a segregao 
que o vitimavam. No permitiu que os dios de seus oponentes encontrassem abrigo em sua alma. Mesmo sendo odiado, nunca permitiu que o dio achasse repouso em suas 
entranhas.
  Gabriel, s pode existir ao dio - sem a ele sucumbir - aquele que se possui. A primeira grande revoluo que Mandella precisou realizar foi dentro de si mesmo. 
Ele foi o primeiro territrio que necessitou ser reconquistado. Tudo o mais foi consequncia.
  Governar requer uma boa dose de autocontrole. O bom governante  aquele que  capaz de administrar suas paixes, seus desejos, seus impulsos. Voc bem sabe disso. 
Um homem que no capaz de administrar a prpria natureza humana jamais poder exercer a administrao do bem comum.
  O desequilbrio pessoal de um administrado j  um perigo para a sociedade; muito mais  o desequilbrio de um administrador.
  Muitas guerras nasceram desses desequilbrios, muitas outras catstrofes tambm. A instrumentalizao do poder, realizada por pessoas que no esto comprometidas 
com o bem comum ser sempre um perigo para as sociedades humanas.
  Mandella  um exemplo vivo de que no precisa ser assim. O homem poltico precisa redescobrir a funo do poder pblico. Poder  servio. Quanto maior o poder 
atribudo, mais dever ser a responsabilidade do servio exercido.
  Ao assumir o poder de governar a frica do Sul, Mandella ofereceu ao mundo a riqueza insondvel de sua humanidade. A postura pacifista assumida estrapolou os limites 
geogrficos de seu pas. Ao propor um novo modelo social, onde no prevaleceria a segregao tnica, Mandella enviou flores queles que antes lhe enviavam algemas. 
Ao escolher a no-vingana, ele se tornou um sinal de contradio diante dos olhos de crdulos e incrdulos.
  O mundo no ser mais o mesmo. Mandella se junta aos homens e mulheres que entraram para a histria justamente por serem capazes de quebrar os paradigmas de seu 
tempo.
  Meu amigo, o exemplo est posto! O aprendizado est ao nosso alcance. Quando algum nos magoa, ns s temos duas possibilidades: a vingana ou o perdo. A primeira 
nos tornar felizes por algumas horas, ou at mesmo por alguns dias; a segunda nos possibilitar uma felicidade que poder durar a vida inteira.
   interessante, mas  nesse ponto que se encontram a vida do jovem rapaz e a de Mandella. Esta  a esquina. Mandella tambm teve motivos de sobra para pendurar-se 
numa corda. Mas ele preferiu dar outro destino aos gomos de corda que a vida lhe ofereceu. Ao invs do dio, o amor. Colocou um filtro sobre a cena de sua vida, 
da mesma forma que o cineastra escolhe o filtro que colocar nas lentes por onde passar as cenas de seu filme.   O filtro no modifica a realidade, mas permite 
um jeito interessante de retrat-la. Meu amigo, a escolha do filtro  determinante para o que conseguimos como resultado para o final.
  A vida  dura em todo canto.  dura em mim,  dura em voc,  dura em todos ns. O sofrimento  normativo na condio humana. H sempre uma dor sendo gestada, 
sendo sofrida em algum canto deste imenso mundo.
  Agora,  neste instante em que lhe escrevo - e num instante em que me ler -, muitas sensibilidades esto sendo feridas, macucadas. O destino de um mundo depende 
da maneira como essas pessoas reagiro ao que as fere. O todo estar fomentado na pequena parte. H pessoas que escolhem a vingana.
    Eu compreendo. J agi assim muitas vezes. A vingana nos presenteia com uma satisfao temporria. Ela nos faz pensar que a perda diminuiu de tamanho.
  Iluso! O que est perdido no podemais voltar. A vingana no pode apagar as consequncias que j ficaram marcadas em ns. Matar o pai no resolveria a solidodo 
rapaz, ele sabia disso. Mas o caminho em que ele escolheu tambm no foi capaz de retir-lo do foco da rejeio. Fechar-se para um mundo, privando-se da possibilidade 
de amar e ser amado, foi uma forma de se vingar. Optou por um caminho tortuoso, difcil de ser trilhado.
  O dio  um sentimento cansativo, pois gera peso para a mente que o administra.  A criatura odiaa ocupa um espao imenso na mente que o odeia. dio  um veneno 
perigoso que nos mata aos poucos. Sua ao  lenta, mas constante.
  Diferente  a experincia do perdo. O perdo consiste numa reconciliao amorosa com os fatos e pessoas que nos machucaram.  um recurso teraputico, pois atravs 
dele ns expulsamos da mente os motivos que nos oprimem.
  Mandella experimentou o poder libertador que o perdo proporciona.  fcil compreender! Mandella tem vocao para a liberdade, e sabe que a maior de todas as prises 
no  aquela que serceia o corpo e impede o seu deslocamento. A mais sangrenta de todas as prises  aquela que construmos dentro de ns mesmos.  o lugar onde 
trancafiamos a vida que no deu certo.  o calabouo onde resguardamos as palavras que nos machucaram, as pessoas que nos feriram.
   nessa priso que fabricamos os dios que sentimos.  nesse lugar sombrio que nutrimos o sangue que nos assassina.  nele que est o motor que nos move e nos 
coloca nos braos desumanos da morte.
  Meu amigo, o resultado da vida depende de nossas escolhas. Vez em quando, eu me vejo diante de duas esquinas. Duas avenidas posicionadas: a da vingana e a do 
perdo. A avenida que escolhemos trilhar ficar registradas nas memrias de nossa vida. O que soomos e seremos depende do caminho escolhido.
  Eu continuo desejoso de manter minha alma conquistvel. Peo a Deus que no retire o seu esprito de mim.  Ele que me ajuda a discernir a natureza dos caminhos. 
 Ele que me ajuda a decidir o que fazer com o gomo de corda que a vida me oferece a cada dia.
  Quero viver os versos de William Ernest Hamley, mas no quero que essa vivncia seja resultado de um revanchismo. Quero que minha radical deciso pela liberdade 
seja fruto do meu "muito amar"! Cabeas sangrentas nem sempre esto eretas. O ferimento  justificativa fcil para os que no esto dispostos ao recomeo.
  No quero ser assim; quero curar os meus ferimentos sem a necessidade de nutrir o dio pelos que me feriram. Essa  uma forma simples e eficaz de beneficiar o 
mundo com a minha presena.
 Gabriel, sei que seu empenho  o mesmo. Conheo muitos de seus valores, mas tambm suas fragilidades. Vi de perto seu desejo constante de no permitir que sua alma 
se rendesse aos motivos de seus dios. Sua casa  de vidro. Noso poucos os que impunham pedras na direo de suas janelas.
  No se preocupe! Haver sempre uma proteo para aqueles que verdadeiramente esto empenhados na promoo da bondade. Continue acreditando no poder da palavra 
que ensina a amar.  atravs dela que Deus pode alcanar os meninos que ainda no decidiram o destino que daro aos sentimentos que os envolvem.
  Continue portando a pedagogia que sugere uma paternidade responsvel, ensinando que o amor  o melhor caminho para a educao. Se uvida na hora certa, essa palavra 
no soar como uma teoria bonita que no se aplica  realidade vivida. Afinal, ela ser ensinada atravs de atitudes concretas de amor, cuidado e responsabilidade.
  Quem sabe assim a corda poder deixar de ser usada como um instrumento de morte e destruio. Eu espero pelo dia em que ela esteja nas mos de nossos meninos e 
meninas, e com ela eles voltem a seus sonhos, alegrias e futuros promissores.

  Com meu carinho e amizade,

  Padre Fbio de Melo

  Nona Carta

Querido irmo
  Como  bom chegar e encontrar sua carta - e encontrar suas palavras de sabedoria e sensibilidade.
  A histria do jovem mineiro  trist demais! Pena que os gomoe da corda no tenham servido para enlaar seus sonhos, alegrias e futuro. O futuro no chegou. A gravidez 
de um amanh foi abortada! Sentimentos boicotados, sofrimentos sofridos.
  Quantas pessoas padecem por no conseguirem abrir as torneiras da senbibilidade! Vo explodindo pela falta de atitude sem dar vaso a esses vulces que nos habitam.
  Somos frgeis sim, amigo. Precisamos de colo e de espao para chorr os nossos mortos. E de um lugar para deixar recostada a dor imcmoda.
  A imagem da me deve ter habitado seus conceitos: o sepulcro da me no foi sequer revisitado com outras emoes. O pai, cuja rudeza era um apresena incmoda, 
no deixou espao para a respirao. Tantas histrias sufocadas e tudo num espao sagrado da famlia!
  Oto Lara Resende tem um texto - Vista Cansada -, em que ele inicia falando de um escritor que tambm optou por partir. E depois fala de senas cotidianas em que 
as pessoas, de tanto verem as mesmas coisas, j no vem absolutamente nada.
  "Voc sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se algum perguntar o que  que voc v no seu caminho, voc no sabe! De tanto ver, voc no v.
  Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prdio de seu escritrio. L estava sempre, pontualssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom dia 
e, s vezes, lhe passava um recado ou uma correspondncia.
  Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.
  Como era ele? Sua cara, sua voz... Como se vestia?... No fazia a mnima ideia. 
  Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer.
  Se um dia, no seu lugar, estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser tambm que ningum desse por sua ausncia. O hbito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. 
Mas h sempre o que ver: gente, coisas, bichos... E vemos? No, no vemos."
  Depois de todas essas constataes - de que a invisibilidade mais visvel do que se possa imaginar -, depois de uma triste imagem de que uma imagem no faz tanta 
diferena, termina o texto falando de esperana, falando de criana.
  "Uma criana v o que um adulto no v. Tem olhos atentos e limpos para o espetculo do mundo. Um poeta  capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ningum 
v.
  H pai que nunca viu o prprio filho; marido que nunca viu a prpria mulher. Isso existe s pampas! Nossos olhos se gastam no dia-a-dia ou so opacos...  por 
a que se instla no corao um monstro da indiferena."
    Amigo, no podemos permitir que um monstro da indiferena se instale em nossa varanda. Enxergar o outro essencial para realizarmos os dois pilares que, to 
brilhantemente, voc prope em sua carta: posse de si e disposio para o outro.
  No  fcil tomarmos posse de ns mesmos. Desequilibramo-nos por razes diversas e perdemos o rumod a nossa caminhada. E avanamos na insanidade de destruir caminhadas 
alheias. E a ressurgem os sentimentos menores  aqueles que tanto incomodam: inveja, raiva, vingana, arrogncia e tantos outros. Chamamos esses desordeiros dos 
sepulcros que o amor construiu.  E novamente teremos de convidar o amor para enterr-los. Tarefa hrdua, contnua.
  Sabe, amigo, um dos momentos em que tive de me fazer forte foi quando, da morte do meu pai, ouvi os lamentos de minha me. Voc bem conhece a histria! Estvamos 
em um casamento  em So Paulo, e depois da celebrao, meu pai partiu. Viajamos juntos no carro fnebre at Cachoeira Paulista, onde ele foi velado e enterrado.
  Minha me pouco falava. Acariciava as mos e me olhava. Rezamos. Ela entremeava choro com um silncio e o olhar distante.
  A memria ia revivendo nela as carcias findas. Depois do sepultamento, Minha me, em um abrao demorado, partilhou a sua dor. "Meu filho! O que vou fazer agora? 
Como eu vou entrar no quarto? Sabe, meu filho, os casais de hoje em dia, algumas vezes, dormem separados. Um viaja, o outro no. Eu no sei dormir sozinha! So quarenta 
anos dormindo com seu pai, nunca dormimos separados. Quando eu estive no hospital, ele dormiu comigo; quando ele esteve, eu dormi com ele.
  Em nossas viagens, estvamos juntos sempre. Como eu vou acordar  noite, filho? Voc consegue entender?
  Eu j perdi dois filhos. Eu j sequei de tanto chorar. E agora o seu pai... O meu bom Jos. Filho, eu no vou aguentar!"
  Padre, naquele momento eu realmente no tinha nada para dizer, eu tambm achava que no iria aguentar. Mas quando fui ouvindo seu relato puro, verdadeiro, eu fui 
me fortalecendo. Era em mim que ela tinha de descansar da sua dor. Eu no poderia substituir o seu amado, embora amor sobrasse em nossa relao.
  O meu papel era outro. Eu no poderia dizer uma frase pronta; eu tinha de chorar junto, mas de me manter ereto, altivo, para que ela soubesse que, em hiptese 
alguma, ela tinha secado. As lgrimas haveriam de continuar, mas suas foras seriam regadas pelo amor que eu tinha (e tenho) para oferecer.
  O tempo passou. E hoje, quando ela recosta sua cabgea em mim, eu viajo com a sua histria. Ela teria todas as razes para se vestir de um luto fechado, mas preferiu 
transformar os gomos da corda em laos capazes de alcanar sonhos e alegrias. Cuida de mim como se eu fosse criana ainda, como dona Ana faz com voc.
  Somos as crias carentes de cuidado, somos os ouvintes de suas repetidas hostrias Ainda bem! Deus nos deu o privilgio de ouvir as mesmas histrias centenas de 
vezes com as vozes aconchegantes de nossas mes. Quando elas adoecem, ns nos tornamos frgeis tambm.
    Ouvi de um amigo que perdeu AMme recentemente  a tristeza de um rompimento de anos. No houve tempo para reconciliaes; no houve tempo para limpar a sujeira.
  Que pena! As mes no so perfeitas, como ns tambm no somos. As mes so canais que servem ao grande reservatrio do amor.
  Amigo, quero voltar  histria do jovem que partiu prematuramente. A forma com que voc o descreveu d o tom do acorrentamento das reaes emocionais. No h liberdade 
com tanta sabotagem. No podemos fechar as cortinhas e quando sentirmos que sozinhos no seremos capazes de remover tantos tecidos,  preciso aceitar ajuda. E  
bom que aceitemos ajuda. A humildade nos rouba sorrisos despretenciosos.
  Drumond prope que a cano amiga faa acordar os homens e adormecer as crianas.
  !Eu preparo uma cano
  Que faa acordar os homens
  e adormecer as crianas."
  Padre Fbio, nossa amizade me traz esse frescor de esperana to essencial para a vida: acordar os homens para a ao; adormecer as crianas para a orao, a permanncia.
  Uma cano que embala os fs  a maturidade que nos convida jamais a abandonar a amizade. H outros amigos em nosso vago, e como isso  reconfortante! Amigos 
que emprestam suas almofadas para que, nos trechos esburacados da velha ferrovia, aliviemos os solavancos. Amigos qe ouvem sem pressa e que tm pressa em ouvir. 
Amigos que abrem as cestas e partilham o alimento. E servem sem economias; e oferecem a palavra quando necessrio. Percebem, sem serem requisitados, que o momento 
 de ajudar.
  No poucas vezes em nossa s viagens, voc foi um ouvinte atento; em outras, avisou-me dos perigos, mas permitiu-me que eu experimentasse os riscos da liberdade 
sem nunca negar o aconchego se algo falhasse.
  Amigos so assim! Mesmo quando teimamos em entrar na gua fria, ficam prximos, com as toalhas preparadas e se necessrio, as cobertas. Nada de acusaes, nem 
de perseguies. Amigos compreendem que o erro faz parte da apresentao. Aprendemos com os erros e com os erros, nos compreendemos mais humanos. E a surgemas opes: 
a vingana ou o perdo; o retrovisor ou o acelerador.
  Lembrei-me de um texto de Gibran Caliu Bibran, que sugere.
  " belo dar quando solicitado.  mais belo, porm, dar quando havermos apenas compreendido."
  Padre Fbio, agradeo a Deus por tantas pessos que me acolheram, por havere apenas compreendido. Geralmente lamentamos por aqueles que nos usaram, que nos achincalharam, 
e injustamente lanaram mo da proximidade para agredir impiedosamente nossa inocncia. E isso  real!
  No so poucos os que tentam roubar de ns o que de mais bonito temos: nossa crena na vida. Mas no so poucos os que semeiam poesia, para que nossos ps no 
se esfalfem na terra rida.
  A poesia tem um poder transformador quando no escondemos os nossos sentimentos nos escombros do nosso medo. A poesia tem uma reao anestsica e, ao mesmo tempo, 
cicatrizante: prepara para o corte e alivia a dor do impacto.
  Amigos so poetas da alma. So andarilhos do ais, alegres e tristes. So malabaristas e, se necessrio, palhaos. Brincam para que o sorriso no se faa de rogado; 
testemunham o aconchego de um fim de tarde; exalam o odor agradvel de uma flor que no se encontra em atacado. Amigos tm o poder da omicidade e no merecem a economia 
de nossos sentimentos. Se o convite  para o banho de cachoeira, para que perder tempo com a bicarrala?
   uma vitria ter amigos.  uma derrota querer que os amigos sejam a progeo das nossas frustraes. O outro no  um pedao que vai preencher um buraco do manto 
que me aquece. O outro  um manto inteiro, mas um outro manto, diferente do meu e, portanto, necessrio.
  Amizades interesseiras no so amizades. Na solido das nossas decises e no vazio das nossas escolhas vamos percebendo quem  necessrio e quem no entendeu o 
que  amar. Nada de parasitas, nada de sugadores, nem de  bajuladores e hipcritas.
  Quantos so os que oferecem o perfume da euforia para que o cheiro da falsidade fique imperceptvel? Cedo ou tarde se esquecero de usar o perfume e o odor natural 
ser sentido.
  E por que no entrar na cacheira e permitir que a abundncia gratuita das guas celebre a omicidade da vida? Por que perder tempo com os pores do passado? H 
outros cmodos na velha casa. POor que insistir nas derrotas impostas por usurpadores, se esses j nem existem mais?
  O pai agressor j partiu. A me no tevea oportunidades. Mas o futuro est ali, logo depois do quarto escuro. Por que teimar em ficar, se o amor convida a sair? 
Por que teimar em sair, se o amor convida ficar? Complexo, no? Como saber?
  As respostas no so simples, amigo. E longe de ns, querermos entender as razes do que conhecemos parcialmente.
  Antes de voltarmos para casa, antes de entrarmos no quarto, dei um longo abrao em minha me. Entramos juntos. Na penteadeira, alguns papis com a letra do meu 
pai. No cho, os seus chinelos. O leno, as tarefas que deveriam ser realizadas depois da festa de casamento...
  No houve tempo para despedidas. Sentamos juntos na cama e juntos choramos. Ficamos um tempo falando e outro em silncio. Juntos...
 Ela precisou ir ao banheiro e pediu que eu a esperasse. Esperei. Quis se arrumar um pouco. Penteou o cabelo, olhou no espelho e viu as rugas e logo justificou-se, 
dizendo que meu pai no se importava com isso. E repetiu esse discurso vrias vezes. Olhou o armrio dele (suas calas, camisas, meias, sapatos...). Tudo ali. E 
as fotogrtafias.
  No tentei conter o pranto de minha me. Tambm chorei e convidei a saudade para nossa prosa. Lembramos de histrias engraadas! Meu pai era um galanteador; um 
homem calmo, de bons modos, simples. Nas nossas fragilidades, permitamos que a amizade convivesse conosco: me e filho, unidos pela dor, esvaziados pela ausncia, 
preenchidos pelo amor.
  Enquanto escrevo, ouo msica, fao isso sempre. A Sonata ao luar, de Beethoven, me faz cmpanhia. Traz um sentimento de ontem, quando eu dedilhava no piano alguma 
cano. Meu pai pedia que eu tocasse, e eu fazia isso, orgulhoso do seu pedido.
  Beethoven sofreu muito. Alm das deficincias fsicas, a crtica implacvel. Tinha de provar o tempo todo que o talento existia e mais, que no tinha partido. 
Era o medo da derrota.
  Gabrielle Chanel, mais conhecida como Coc Chanel - uma das maiores estilistas de todos os tempos -, enfrentou no poucas vezes o fracasso e teve e recomear com 
mais de 70 anos, em uma poca em que essa idade tinha outro peso. No perdeu o brilho. Lutou contra as lnguas ferinas que diziam que estava velha e obsoleta, que 
o seu tempo j havia se encerrado.
  No se pode conferir o outro o poder de enserrar o nosso tempo. Cada um tem o direito de conduzir a sua histria. Que os medos venham, mas que sejam enfrentados; 
quw as quedas no fraturem a esperana. H sempre outra possibilidade de vencer se no se usa a corda para enserrar a disputa. Afinal,  conduzindo William Ernest 
Hamley:
  "Da minha alma, eu sou o comandante
  Eu sou o senhor do meu destino."
  O comandante sabe ouvir os comandados - e sabe com eles aprender -, mas no entrega a ningum o seu ofcio de comandar. O comandante tem a humildade de aprender 
com outros que j comandaram outras almas, mas a sua ser comandada por ele mesmo.
   possvel e  preciso contemplar outras histrias, compreender outras vidas. Mas cada vida tem o seu suor e o seu sabor. No podemos ceder a outro os sofrimento 
que nos competem. Podemos encontrar parceiros que nos auxiliem. No podemos renegar a nossa alegria: podemos partilh-la.  preciso comandar nossa alma, amigo;  
preciso dizer aos que nos puxam para baixo que  para cima nossa vocao.
  Chanel esperava num orfanato a volta do pai. Ele nunca voltou. Esperava que, na partida, ele olhasse para trs e dissesse "adeus". Ele no olhou. Esperava que 
a me sobrevivesse  doena. Ela no sobreviveu. E depois de tudo isso continuou a esperar.  isso que precisamos aprender: a esperana no pode sair assim, como 
um visitante dispensvel.
  Os antigos esperavam a estao certa para plantar e para colher; ns mudamos isso com novas tcnicas agrcolas: decidimos as estaes e nos confundimos com elas. 
Os antigos tinham os romantismos das cartas entregues pelos carteiros, antigas canes... A inspirao de Ccero Nunes e Aldo Cabral em Mensagem.
  "Quando o carteiro chegou
  E meu nome gritou com uma carga na mo."
 Sofrer  inevitvel. Talvez seja melhor abrir a mensagem... Quem sabe se ser de alegria, ou se ser de tristeza. Quem sabe se as juras de abandono abandonaram 
o apressado. Quem sabe... E assim pensando...
  "Rasguei tua carga e queimei
  Para no sofrer mais."
Se for de tristeza, trar um aprendizado necessrio. Fortalecer as novas intenes. Depois da estao das lgrimas, vem a estao da reconstruo e o ciclo continua. 
Se for de alegria, trar um cuidado especial. O sol em algum momento vai embora. Sofrer pela sua ausncia enquanto ele faz companhia  um desperdcio. Iludir-se, 
pensando que ele resolveu ficar para sempre  ingenuidade.
  Curtamos o sol, amigo. Curtamos essa dona chamada Esperana. A msica de Beethoven j se despediu, h uma velha cano me fazendo companhia.
  Minha me entra e sai do quarto e me v escrevendo. No quer incomodar. Certamente, no incomoda.
  Me despeo de voc, enquanto a convido para ler primeiro um pouco de nossa histria. Depois, quem sabe, ela me conte novamente a sua histria de amor, que tambm 
teve carta e carteiro. Mas isso fica para uma outra ocasio.
  Peo a sua bno e o seu carinho.
  
  Gabriel.

  
  Dcima Carta
  
  Meu querido amigo Gabriel
Hoje foi um dia interessante. Tive a oportunidade de ler a sua carta logo pela manh, quando cheguei a Pesqueira, cidade crescida ao p da serra Ororub, interior 
de Pernambuco. Uma cidade bonita, cheia de casares antigos que me recordaram O sobrado de Cora Coralina, o mesmo que j foi tema de nossas conversas.
  A cidade de Pesqueira me fez bem. Para embarcar na sugesto do nome, poderia lhe dizer que Lea me proporcuinou uma pescaria nos mares e rios de minha memria. 
Ela me reportou aos tempos idos de minha infncia, quando eu andava pelos becos e vielas de minhaterra querida (Formiga) - a cidade mineira que me viu nascer e crescer 
- e que tambm  conhecida como "cidade das areias brancas".
  Meu amigo, considero um privilgio ser filho do interior. Nascer, crescer e viver num contexto de simplicidade  um destino que s nos faz bem. As pequenas cidades 
ainda preservam uma potica que se torna cada vez mais rara no mundo.
  O coreto da matriz, a praa principal, os lugares que ainda permitem um encontro das pessoas... Tudo isso est fortemente afetado por um encanto que  a linguagem 
simblica.
  H lugares que so como um poema. Tenho muitos deles escritos dentro de mim. Em Formiga, h um lugar que ainda hoje me provoca saudades felizes:  o Beco dos Protestantes. 
Foi l que eu pude sentir o melhor cheiro de caf torrado que j senti na vida. Aquele  um dos principais odores que me reportam  primeira fase de minha existncia. 
Aquele cheiro to peculiar me devolve aos braos de minha me - lugar onde hoje no caibam mais. O cheiro me diminui, retira o meu peso, coloca-me em condies de 
ser recolocado bnum espao que um dia reconheci como o preferido para minha segurana.
  Gabriel, minha cidade  uma fonte inesgotvel de remimniscncias. So nomes dos quais no conheo os rostos, so rostos dos quais no conheo os nomes. Tudo pertence 
a um mosaico que trago na alma. Peas que tenho a vida toda para reunir, montar, configurar.
  A beleza se antecipa, o inacabado j me encanta. A contemplao  um deleite do qual j no me privo. s vezes o encanto j est em fragmentos. Um fio de memria 
me recoloca na sena. Sorrio e choro com o que reencontro.
  As pessoas me ajudam nesse processo. Por isso  to bom conversar com aqueles que conhecem nossas origens. Eles funcionam como trilhos que nos fazem chegar aos 
lugares que somos.
  Meu amigo, a cidade pequena nos permite a visibilidade que nos prende em razes slidas. H quem enxergue nisso um prejuzo, mas no. A invisibilidade pode nos 
mergulhar numa solido pavorosa. Por isso, eu fao questo de cultivar os meus vnculos mais antigos. Eles so os principais alicerces de minha construo.
  Voltar ao interior  voltar a mim mesmo.  nele que est a riqueza que preciso lapidar.
  Estou convicto. A vida no interior condensa a riquezas admirveis. Uma delas  a relao que as pessoas estabelecem com o tempo. Ele tem outro ritmo. Parece correr 
mais devagar, a menos pressa nos olhares que encontramos. Esse jeito de ser deve estar diretamente ligado ao artesanato que a cidade produz.
  Pesqueira  a terra da renda renascena. Gabriel, em Pesqueira tive a oportunidade de visitar o mercado rosa, lugar onde os artesos exibem e vendem os seus ttrabalhos. 
Toda a renda renascena  produzida  mo, um trabalho minuscioso fascinante. "Algumas toalhas levam de seis a oito meses para ficarem prontas", contou-me a vendedora 
que, sem nenhum sinal de ansiedade, mostrou-me as peas.
    Os seus gestos eram irreverentes. Era como se estivesse me mostrando uma coleo de pedras preciosas.
  Mas o que ela me mostrou era realmente precioso. Havia uma diversidade interessante de tramas e bordados, muitos estilos e cores.
  Meu amigo, enquanto as pessoas me falavam do processo de feitura da renda, salientando que o trabalho  todo manual, recordei-me do texto de Oto Lara Resende a 
respeito da morte do porteiro. Confesso que fiquei bastante impactado com a histria. Fiquei pensando nas pessoas que trabalham para que minha vida possa acontecer, 
da forma como acontece. Pessoas que vejo, pessoas que no vejo... Todas elas comprometidas com uma parte do todo que constitui o meu cotidiano. A renda reforou 
ainda mais a minha reflexo. 
    Fiquei refletindo sobre a beleza que resguarda o anonimato das mos que a fizeram nascer.
  Aquelas linhas, to bem amarradas, saram de mos que desconhecemos. A toalha que levo para minha casa no  fruto de uma mquina, no  resultado de um processo 
de produo em srie. Aquela toalha nasceu das mos de mulheres que amam e so amadas. O que aos meus olhos est oculto, o que aos olhos de outros tem rosto de me, 
esposa, irm, amiga...
  Todas elas so mulheres. Embalam bersos, sonhos... embalam o mundo. Delas eu recebo uma parte, levo comigo um fragmento de seu labor. Levo um tempo de suas vidas... 
Outono? Primavera? No sei.
  O que sei  que o artesanato condensa uma multiplicidade silenciosa de vivncias. Nas rendas que trago comigo, h uma infinidade de mulheres invisveis. Assim 
como era o porteiro que fez a descortezia de falecer.
  A visibilidade  um mistrio que me instiga a pensar no cordo que nos ata, que nos rene num mesmo lugar: a condio humana.
  A mulher que no vejo dedicou meses de sua vida para que eu pudesse deitar uma toalha branca sobre a mesa de minha casa, e junto aos meus amigos pudesse celebrar 
um ritual de alegrias. Uma toalha bonita, repleta de histrias que desconheo.
  A invisibilidade permanecer, ela no se sentar  mesa conosco. Eu no saberei quais so as linahs do seu rosto.
  Meu amigo, a renda produzida na cidade de Pesqueira  uma espcie de literratura: as palavras no esto registradas ao modo convencional. Cada cohxa, cada toalha... 
cada pequeno retalho trabalhado  uma trama de pessoas sendo contada. E a linguagem da renda  o silncio; por isso, no posso ouvir os relatos da vida que est 
entranhada nos entrelaos das tramas. Resta-me a contemplao respeitosa dessa arte que certamente interfere no jeito de ser das pessoas que a produzem.
  Gabriel, como j lhe contei, sou filho de um pedreiro. Meu pai era um especialista em construir casas. Construa de maneira artesanal. Aprendi com ele que o construtor 
precisa de um homem paciente; assim como as mulheres, ele tambm desenvolve um trabalho que requer calma. A boa construo nasce depois de muitos clculos.O construtor 
 tambm um cuidador.
    Era muito comum ver meu pai visitando suas obras. Ele fazia nos dias de folga. Ele argumentava os seus motivos. "Em dias de folga, a cabea est mais descansada."
 Eu acompanhei muitas dessas visitas. Ele o fazia com cuidado. Lanava sobre aquelas paredes inacabadas o seu olhar com uma ateno especial inicializada. Sabia 
que o bom xito do projeto dependia de detalhes importantes.
  Eu achei interessante o seu jeito de cuidar das construes. Mais que isso, achava interessante o quanto ele se desdobrava em seus ofcios de construtor e de pai 
de famlia. O homem que andava atenciosos pelas construes era o memso homem que andava pelos corredores da minha casa. O seu ofcio de construtor estaa presente 
no seu jeito de viver.
  A sua capacidade de cuidar de alicerces, paredes e acabamentos, tambm era exercida no momento em que cuidava de ns.
  Mtu pai no era um homem de muitas palavras. Tambm no era especialista em afetos. Teve uma infncia dura, marcada pela pobreza e falta de instruo, mas era 
um homem amoroso. Descobri isso no final de sua vida quando, por ocasio da enfermidade que o vitimou, ele pareceu ter perdido as resistncias que a vida lhe colocou. 
O homem que at ento tinha dificuldade de nos colocar No colo, transformou-se num menino que, o tempo todo, nos puxava para perto de si.
  Dele eu guardo muitas lembranas. Recordo-me com muita saudade do seu jeito simples de prender a emoo. Ele no se cansava de repetir, sobretudo, quando estava 
impulsiionado por uma fora que lhe concedia uma boa dose de cachaa mineira, um fato que o marcou, no dia do meu nascimento.
  Ele dizia, com voz embargada, que quando a enfermeira me trouxe nos braos com o objetivo de me apresentar ao meu construtor, eu nele havia fixado os olhos. A 
confisso acontecia sempre no mesmo formato, como se aquela velha emoo ainda sobrevivesse sem mudanas. Emoo preservada num canto da memria que jamais havia 
recebidoa fora inevitvel dos esquecimentos.
  Segundo ele, quandoa enfermeira foi se encaminhando comigo pelo longo corredor do hospital, eu fui virando a cabea em sua direo, como se no quisesse perd-lo 
de vista.
  Aquele primeiro encontro foi sagrado para ele. Identificou naquela procura de olhar um reconhecimento. O seu corao de pai lhe dizia que eu sabia quem ele era. 
E, depois daquele dia, ns nunca mais nos retiramos um da vida do outro.
  Gabriel, eu nunca mais pude esquecer a forma com que o meu pai me contava esse acontecimento. Essa confisso faz parte de mim, s Deus sabe o quanto era bom receb-la 
de vez em quando. Ela representou em minha vida o mesmo que os acabamentos representavam para as paredes que ele construa. Ela me concedeu vio!
  Gosto quando voc conta as histrias de seu pai, elas me recordam as minhas. O meu pai se despediu do mundo segurando as minhas mos. Eu estava ao seu lado, na 
cama do hospital - o mesmo em que um dia ele me viu chegar. O lugar do primeiro encontro foi tambm o lugar da despedida. Horonia do destino? Acho que no! Prefiro 
compreender como oportunidade feliz. No  sempre que temos a ocasio de preparar a despedida.
  Foi com profunda dor que vi a respirao do meu pai acelerar. Um movimento brusco indicava que havia desespero em sua busca. O ar que to facilmente alimentou 
seus pulmes ao longo da vida, de repente se tornou escao, depois da pressa veio a calma.
  O ritmo foi diminuindo, diminuindo, at que tudo ficou em silncio. A construo havia chegado ao fim. A testa suada me dizia que a luta no havia sido fcil... 
Meu pai havia terminado; assim como tudo que  crido chega ao fim, da mesma forma o meu pai!
  O homem que me fez acreditar em tantos valores estava mergulhado no silncio da morte. Movido pela crena que ele tambm fez crescer em mim, eu o vi adentrar os 
umbrais da esperana que anuncio: a ressurreio.
  Meu amigo, pude viver muitos aprendizados ao lado do meu pai, mas h um fato que se tornou muito marcante para mim. Um aprendizado que aconteceu ao longo da minha 
vida, fruto de uma atitude que o acompanhou a vida inteira. Ele tinha o hbito de lavar o prato em que comia. Todos os dias, ele agia da mesma forma. Terminada a 
sua refeio, ele se colocava a lavar os pratos e talheres que por ele foram usados.
  Depois de tanto tempo passado, fico pensando na mstica que estava escondida naquele gesto. Lavar os pratos ea o jeito que ele tinha de consertar o mundo.
  Herbert Viana tem um verso bonito em Vamos Viver, que prope:
  "Vamos consertar o mundo,
  Vamos comear lavando os pratos".
  Meu pai aceitou a proposta, mesmo sem t-la ouvido. Com o seu gesto simples e despretencioso, ele encarnou em suas atitudes um comprometimento com a ordem do mundo. 
Talvez quisesse mostrar que, se cada um de seus oito filhos repetisse o gesto, minha me poderia descansar mais cedo depois das refeies.
  Lavar os pratos era o seu artesanato domstico. Devolver a limpeza quilo que est sujo  uma forma de redeno. Meu pai sabia disso! Sabia por intuio, sabia 
por sensibilidade. As construes lhe ensinaram essa sabedoria. O longo tempo consumido no ofcio das obras lhe conferiu essa experincia de cuidado. O pequeno tempo 
perdido na limpeza daqueles talheres e pratos faria diferena no tempo de descanso de minha me, sobretudo se contabilizado - consideramdo semanas, dias, meses e 
anos.
  O exemplo de seu gesto ainda repercute em mim.  A conscincia que tenho a respeito da importncias desses pequenos detalhes, que so capazes de mudar as coisas, 
nasceu dele. O gesto est inteiramente registrado em minha vida, da mesma forma como est a promessa de que a renda renascena  feita para durar a vida inteira.
  Gabriel, todas essas memrias que trago comigo so importantssimas para o meu crescimento humano. No  possvel crescer, estando distante das razes que temos. 
A proximidade com minhas razes me proporciona reacender os rostos que, ainda que esquecidos, esto bordados em minha alma.
  Assim como a renda renascena deixa registros daquela que a teceu, assim como meu pai deixou suas marcas nas paredes que construiu, da mesma forma trago a invisibilidade 
atuante de uma infinidade de pessoas que um dia regisraram, de maneira artesanal, suas marcas em minha vida.
  Meu amigo, tive a oportunidade de conhecer a frica do Sul. Foi uma viagem fascinante! A grandeza do pas est exposta nos pequenos detalhes. Um lugar onde as 
cores prevalecem. Nas paredes, na paisagem, nos tecidos e nas almas. L eu tambm encontrei o artesanato que  capaz de retratar o sentimento de uma nao.
  Mas vou lhe contar sobre um outro aspecto da cultua sulafricana que achei formidvel: a msica. A frica do Sul  um pas musical! Em tudo, h a prevalncia de 
um som orgnico, nascido dos lugares, emitido sem reservas, sem descanso. Brota da natureza e das bocas. Nasce ao som de tambores e de instrumentos rudimentares, 
retirados do contexto da utilidade domstica.
   a vida pragmtica sendo transformada em vida simblica. Criatividade de um povo que reconhece a vida como territrio da revelao divina. Ali=as, admiro muito 
as comunidades humanas que no caram o mundo na resoluo fcil que divide o mundo em duas partes: sagrado e profano.
  Gabriel, eu sempre tive predileo pela musicalidade negra. Acho instigante a construo meldica que costura numa mesma palta acordes felizes com acordes tristes. 
Experimentei isso de maneira concreta quando, numa praa da Cidade do Cabo, eu pude ver um grupo de homens cantando. Fiquei ali ouvindo e, aos poucos, me vi totalmente 
envolvido por aquele canto. Mesmo que brotasse de lbios que sorriam, a msica era triste. 
    Eu no compreendia absolutamente nada das palavras que eles cantavam. Era um dos muitos idiomas usados pelas tribos, mas havia a prevalncia de uma linguagem 
superior, universal. Quando dei por mim, eu estava chorando.
  No sabia dizer o motivo, no sabia o que eles cantavam, mas eu estava afetado por aquela aparente contradio. Os rostos que me sorriam, os homens que eram visveis 
aos meus olhos... contavam-me notcias tristes de uma invisibilidade a que eu jamais poderia ter acesso, seno atravs deles.
  Aquela mixrdia revelava-me a luta de antepassados. Homens e mulheres que construram a histria que perpassava o canto que meus ouvidos escutavam. De um lado, 
os colonizadores invasores, que resolveram estender os poderes de suas ptrias, obedecendo a um instinto rudimentar do poder - fora que legitima os absurdos das 
guerras, invases e outras irracionalidades humanas. De outro, os colonizados, os legtimos donos da terra, os curadores do espao. Os invisveis que, naquele canto, 
recebiam a oportunidade de serem recolocados no cho que amaram; que pela fora daqueles versos tristes, serem celebrados num ritual que recorda, redime, ressuscita 
e atualiza. Rito que se concretiza nos acordes de uma msica que conta os sofrimentos do degredo, mas que tambm revela as esperanas que a escravido no conseguiu 
sufocar.
  Gabriel, durante a viagem eu pude ouvir muitas histrias sobre diferentes tribos africanas. Uma delas me comoveu, uma histria musical. Segundo um relato, para 
cada criana que nasce, uma msica  composta. Uma oferenda que marca a entrada da criana no mundo.
  Msica que estar diretamente ligada  identidade pessoal. Ea cumpre o papel de ser a trilha que sonoriza os momentos importantes da vida daquele que a recebeu. 
H um detalhe interessante: dizem que, alm de ser cantada nas celebraes, felizes, a msica  tambm utilizada por ocasio de grandes deslizes cometidos pela pessoa 
proprietria da msica. Funciona como uma espcie de purificao.
  Ao perceber o desvio de caminho, a comunidade se rene e canta, para que a pessoa, ao ouvir a sua msica, tenha a possibilidade de voltar ao seu formato original, 
ao incio de tudo: momento em que a msica lhe foi ofertada.
  Meu amigo, esse costume me fez pensar no quanto  necessrio em ter um referencial que nos faa voltar no estado primeiro das coisas. Uma voz, uma palavra, um 
lugar, uma msica... Rnfim, qualquer coisa que pertena  nossa memria afetiva e que tenha o poder de nos fazer voltar a ns mesmos. Algo que posa nos fazer enxergar 
melhor o contexto de nossas escolhas.Algo que nos ajude na reconciliao com nossos limites, sobretudo num momento em que os erros prevalecem sobre os acertos e 
a vida se apresenta difcil demais diante de nossos olhos. A histria me fez refletir sobre a arte de recomear.
  Verdade o ulenda? No importa! A histria j virou verdade em mim. A partir de hoje, quero estar atento a tudo que me recorda quem sou.
  Meu amigo, esteja tambm!  bem provvel que, mais cedo ou mais tarde, a gente precise desse instrumental. H momentos da vida que s so suportveis se estivermos 
suportados por alicerces bem construdos.
  Esta vinda a Pesqueira me fez bem. Ao reencontrar as rendas eu tambm reencontrei as paredes que meu pai construiu por um mundo afora. Mais que isso, reencontrei 
a necessidade de no perder de vista as necessidades que me devolvem a mim mesmo.
  Obrigado por me fazer conhecer o texto de Oto Lara Resende, atravs de sua carta. Quero acelerar em minha vida o processo de tornar visvel o mundo que me pertence, 
reacendendo  memrias, contando histrias... Encontrando essa gente antiga que sabe tanto sobre mim.
  No quero correr o risco de morrer sem desvendar os meus mistrios. Como j lhe disse, este grande mistrio que me constitui est no tempo, sob a frgil condio 
de um mosaico. Cada pea  importante, por menor que seja.
  Obrigado por me permitir acessar peas to fundamentais pela compreenso do todo. As memrias de sua vida me fizeram embarcar nas minhas. Pesqueira foi o ponto 
de onde parti. Trouxe em meu barco muitas rendas e lembranas felizes.
  Hoje, nas entrelinhas desta carta que agora repousa em suas mos, esto os primeiros bordados que esta terra me proporcionou. Quando houver outros, fique certo 
de que os enviarem.
  Ainda no sei como chegaro. Pode ser que cheguem nos envlucros de um canto triste, ou pode ser que chegue nas configuraes de um verso esperanoso.  assim 
que me despeo: grvido de segredos que ainda no sei contar.

  Com meu carinho e bno,

  Padre Fbio de Melo

  Dcima Primeira Carta

  Querido amigo Padre Fbio,
  Receber sua carta  sempre um motivo de festa. Seus dizeres trazem uma roupagem potica de um cotidiano que nada tem de invisvel! Seus olhos de poeta conseguem 
enxergar. Enxergam as rendas de Pesqueira e as mulheres, com suas mos jeitosas Enxergam seu pai construtor com sua memria. Enxergam a musicalidade que celebra 
a vida e que pemite  vida reparar as desafinaes. Desafinamos todos ns, os viventes. 
  Seu pai lavando pratos celebra a simplicidade e o servio. A que causas servimos, meu irmo?
  O texto do porteiro tambm me marcou profundamente. Ser que no percebemos algumas pessoas que esto ao nosso lado, tomando conta das nossas entradas E sadas? 
Ser que andarilhos, dos tempos apressados, perdemos a suavidade do interior?
  Somos do interior, carregamos essa identidade. As charretes de Cachoeira Paulista, os condutores dos cavalos, conhecedores de cada beco da cidade. As conversas 
nas portas das casas, os comentrios inocentes ou pecaminosos, as crianas brincando na rua... A minha pequena Cachoeira tambm tem coreto, e na minha infncia tinha 
retreta. O cheiro de caf torrado do beco dos protestantes... Fiquei imaginando como seria esse lugar.
  Conheo Formiga, mas no passei por esse beco. Senti outro cheiro na sua cidade> o cheiro do po de queijo e da prosa mansa. O sotaque mineiro, que tambm lembra 
as minhas origens.
  Meu pai nasceu em Belo Horizonte. As mulheres de Minas e os convites desapressados. Voc tem razo, esses lugares so como um poema.
  Pesqueira eu no conheo. Conheo o Nordeste e o brio do nordestino. Impossvel deixar de citar a beleza das  palavras de Euclides da Cunha, na tentativa feliz 
de explicar o gigante nordestino. De um lado, a aparente fraqueza; de outro, a surpresa da fnix que se revela diante das adversidades do clima, do tempo, da vida. 
Em Os Sertes, ele poetiza:
  "O sertanejo , antes de tudo, um forte! No tem o raquitismo exaustivo dos mestios neurastnicos do litoral. A aparncia, entretanto, ao primeiro lance de vista, 
revela o: falta-lhe a plstica impecvel. contrrio O desempenho, a estrutura corretssima das organizaes eclticas.  desgracioso, desingonado, torto."
  Hrcolis Quasmodo reflete no aspecto, a fieldade tpica dos fracos: o andar sem firmeza, sem aprumo, quase gigante e insinuoso, aparenta a translao de membros 
desarticulados.  o homem permanentemente fatigado. Reflete a preguia invencvel, a atonia muscular perene em tudo.
  Na palavra remorada, no gesto contrafeito, um andar desaprumado na cadncia lancorosa das modinhas, na tendncia constante em imobilidade  quietude.
  Entretanto, toda essa aparncia de cansao ilude. Nada  mais surpreendente do que v-la desaparecer de um improviso. Naquela organizao como um balido operam-se 
em segundos transmutaes completas. Basta o aparecimento de qualquer incidente exigindo-lhe o desencadear das energias adormecidas.
  O homem transfigura-se, empertiga-se, estadiando novos relevos. Novas linhas na estatura e no gesto. E a cabea firma-se-lhe alta sobre os ombros possantes, aclarada 
pelo olhar desassombrado e forte. E corrigem-se-lhe, prestes, numa descarga nervosa e instantnea, todos os efeitos do relaxamento habitual dos rgos e da figura 
vulgar do tabaru canhestro reponta inesperadamente, o aspecto dominador de um tit cobriado e potente. Um desdobramento surpreendente de fora e agilidade extraordinrias!
  So tits em tudo o que fazem os nordestinos. A grandeza da alma de homens e mulheres que construram a So Paulo em que vivo. A musicalidade, a poesia...
  Jorge Amado descortinou horizontes, com seus Capites de Areia: meninos abandonados, sonhos abortados. Gilberto Freire reconstruiu a nossa historia, revelando 
a alma de nossa gente, que  uma mistura de abandono e vitria; luto e festa; fome e fartura.
 o que somos, amigo! Um dia, as mulheres de Pesqueira conversam sobre as crianas que nascem, enquanto, pacientemente, preparam as toalhas para nossa celebrao. 
Outros choram seus mortos, sem deixar de usar as mos para que os panos possam ir ganhando significado.
  A morte e a vida, lado a lado. Morte e vida severa Severina! A lida!
  Do Areste pernambucano, Joo Cabral de Melo Neto, num esforo sobrehumano se atreve, diante da beleza do nascimento de uma criana, a desatar o sutil lime ar entre 
a vida e a morte, declarando a vitria da vida.
  " difcil defender, s com palavras, a vida. Ainda mais quando ela . Ainda mais quando se v: a vida. Severina. E no h melhor resposta que o espetculo da 
vida.
  V-la desfiar seu fio, que tambm se chama vida.  Ver a fbrica que ela, teimosamente, se fabrica. V-la brotar a pouco, nova vida explodida, mesmo quando  assim 
pequena a exploso.
  Como a ocorrida. Como a de h pouco fransina. Mesmo quando  a exploso de uma vida Severina."
  Desse mesmo Pernambuco, em que voc pescava impresses poticas e viajava ao passado, eu li uma historia um pouco antes de sua carta chegar, que deixou um rastro 
de incompreenso nos meus sentimentos. A histria de uma ida, como as muitas que Joo Cabral revelou.  a histria de um jovem chamado Alcides.
  "De sua formosura, deixai-me que diga:  uma criana plida,  uma criana franzina. Mas tem a marca de homem. Marca de humana oficina."
  Filho de uma catadora de lixo, Da. Maria Lusa, Alcides foi aprovado em primeiro lugar entre os alunos da escola pblica, no concorrido vestibular na Universidade 
Federal de Pernambuco. Jovem simples, freqentador da igreja, Sonhava em ter o diploma na mo para homenagear a me e dar a ela uma vida mais tranqila. A me! A 
guerreira que, catando lixo, educou os quatro filhos: ele e as trs irms.
  No pensem que a vida dele h de ser sempre daninha. Enxergo daqui a planura, que  a vida do homem de ofcio. Bem mais sadia que os mangues, mesmo que haja precipcios.
  Sua histria foi contada como exemplo de superao em vrios programas televisivos. A me no escondia o sorriso no rosto e o orgulho pelo filho abenoado. A formatura 
estava chegando!
  "De sua formosura, deixai-me que diga:  to belo, como um sim numa sala negativa.  to belo como a soca que o canavial multiplica. Belo porque  uma porta, abrindo-se 
em mais sadas. Belo como a ltima onda, que o fim do mar sempre adia!  to belo como as ondas em sua adio infinita. Belo porque tem do novo a surpresa e a alegria."
  Mas uma tragdia se abateu sobre essa famlia. Alcides foi assassinado com dois tiros na cabea, enfrente  sua prpria casa, aos 22 anos de idade. O reitor da 
Universidade Federal de Pernambuco, Amaro Lins, desabafou:
  "Que seja um exemplo, para que todos ns possamos nos empenhar para um lugar neste pas e dar a oportunidade em milhes de Alcides que esto espalhados pelos recantos, 
para que eles no venham a ter um fim trgico como esse. Para que eles possam ter um futuro doce de histeria, caso esses marginais no tivessem ceifado sua vida."
  O crime aconteceu ontem, amigo! Ainda no se sabem as razes: parece que foi por engano. Parece que estavam  procura de outro jovem e encontraram Alcides pelo 
caminho.
  Um colega da comunidade da Igreja da Torre, que ele freqentava, disse: "Eu sempre conversava com ele e pensava: esse vai ser um cara de futuro! Vai entrar para 
a histria. E de repente ter a vida interrompida por marginais! Por pessoas que nem ao certo sabiam a pessoa grandiosa que ele era!"
  E voltando a Joo Cabral:
  "E quem foi que o emboscou? Irmos das almas! Quem contra ele soltou essa ave bala?
  Ali  difcil dizer. Irmo das almas, sempre h uma bala voando, desocupada."
  Padre Fbio, fiquei tentando entender a deformao humana, que  capaz de aes dessa natureza. Conheo o cotidiano das grandes cidades e ouvi muitas histrias 
parecidas, de despedida forada... De incompreenso, de revolta. O que dizer a essa me? Com dificuldade, eles j pagavam a festa da formatura. Ela falava do filho 
como sendo pequena demais para 
  Ter recebido um presente to grande.
  E o filho, em sua humildade, no tinha vergonha nenhuma da me. Catar lixo no  vergonhoso; ao contrrio,  digno,  nobre. Vergonhosa  a incompaixo, as razes 
da violncia so muitas. E demonstram a derrota do ser humano.  a apologia do dio em detrimento da beleza e da inteligncia.
  A convivncia  uma arte que requer talento. Quando o talento se vai,e a astcia fica, corremos o risco da invisibilidade. Passamos o trator na terra, com a desculpa 
de que arar  preciso. Enxarcamos de sangue a nossa mquina por no olharmos e repararmos no que h em nossa frente. Quanta tristeza, meu irmo!
  Dona Maria Lusa saiu de casa vestindo a bata branca que o filho usava no colgio. A roupa que ela tinha lavado e passado tantas vezes, com o orgulho de me, para 
que ele pudesse trabalhar. Agora, era apens um trao de saudade! Ela estava ali de branco, no tinha muito o que dizer. No se mostrou rancorosa, talvez nem tivesse 
ainda compreendido o amanhecer diferente.
  O enterro foi no cemitrio de Santo Amaro. A histria de Santo Amaro tem relao com a salvao de um jovem. Maurus, conhecido no Brasil como Santo Amaro, era 
discpulo de So bento. Certa feita, Plcido, - o filho do senador Tertlios -, caiu no lago quando foi buscar gua e estava sendo levado pela correnteza.
  Orando em sua cela, So Bento viu o fato e enviou Maurus para salv-lo. Sem perceber, Maurus andou sobre as guas e salvou Plcito. Maurus atribuiu o milagre a 
ao bento e So bento a Maurus.
  O fato  que a imagem de Santo Amaro ficou conhecida por esse milagre. Andando sobre as guas revoltas para salvar a vida de um jovem.
  Dona Maria Lusa poderia pensar: "Por que no salvaram a vida do meu filho?"
   O papa Bento XVI chorou em um campo de concentrao, querendo saber onde estava Deus, enquanto aquela desumanidade acometia a humanidade. No era uma orao de 
revolta, nem de falta de f: era uma orao de compaixo.
  A sena que fica em minha mente enquanto escrevo  a da me de Alcides, com a bata branca do filho, chorando de dor pela morte prematura de seu menino, e das irms 
aninhadas nas lgrimas da me. O que aprendemos com essas histrias, meu irmo?
   interessante que, - seja em cartas, seja pessoalmente -, sempre tecemos esse enredo. Voc me conta algumas histrias de dor e eu lhe conto outras. Evidentemente, 
falamos de outros assuntos (nossa tecitura tem sangue, mas tem estrelas). Alcides  uma estrela que iluminou uma casa simples num Recife, que ilumina com a sua histria, 
a histria de tantos que acreditam no serem preditiva  vitria, para quem nasceu nas manjedouras contemporneas.
  Certa vez, conheci uma catadora de papel que me abraou com carinho e disse que gostava de mim. Eu acolhi com ternura aquela mulher, com olhos cheios de entusiasmo. 
Era em um evento de catadores. Contou-me um pouco a sua histria e falou de seu filho, aluno de uma faculdade. Ceclia, era esse o seu nome.
  Falu que pagava a faculdade de direito do seu filho catando papel, e eu perguntei a ela qual era o seu sonho para o futuro do filho. E ela:
  - Meu sonho?
  - sim, o seu sonho! - Prossegui. - Que ele seja advogado, juiz, promotor, delegado, professor?... Ele faz faculdade de direito, no?
  E a catadora de papel me ensinou.
  - Meu sonho  que ele seja bom.
  Pronto! Ali estava uma declarao de sabedoria que no surgiu de uma cultura livresca, nem dos bancos escolares, apesar de eles nos ser to necessrios. Dona Ceclia 
queria que seu filho fosse bom. Isso era tudo! O restante era um acrscimo que nada tinha de essencial. Ser bom faz toda a diferena.
  Enquanto tantos pais atribuem a vitria ou a derrota a provas e concursos, a notas e aplausos. Dona Ceclia queria que seu filho fosse bom.
  Eu nunca mais encontrei essa mulher, nem conheci seu filho. Lendo a histria de Alcides, fiquei imaginando a histria do filho de dona Ceclia. Histrias humanas 
se cruzam nos terrenos em construo.
  Seu pai - pedreiro - com seu jeito de ser, foi depositando bondade em voc. Seu afeto era diferente. Cada um  de um jeito. Algunspais sabem colocar seus filhos 
na rede e entoar uma cano; outros tm medo de desafinar e outros ainda acham que a rede poder cair e machucar a criana. Os afetos so assim. No podemos culpar 
aqueles que no aprenderam a demonstrar ternura.
  Um dia, um amigo me disse da dificuldade que tinha em elogiar os filhos. Disse que no se lembrava de um elogio do seu pai. Lembrava que a me justificava a falta 
de afeto poela criao do marido, que tambm no recebera elogios do pai, o qual justificava que elogio deforma o carter. O bom era a crtica, pensavam esses homens 
sem terem qualquer entendimento ou inteno de desamor.
  Amigo, fico pensando tambm nos jovens que mataram Alcides. Que tipo de educao receberam? Que tipo de informaes foram depositadas sobre os seus afetos?
  No nascerm assim: definitivamente, ningum nasce assassino. Ningum nasce perverso, ningum nasce mau.  a metfora da folha em branco que significa que no sejamos 
uma tbua rasa. Mas o fato  que a nossa histria vai sendo escrita, parte por parte. A questo  saber quem nos ensina o alfabeto do respeito, da liberdade do outro, 
da capacidade de chorar diante da dor, da sensibilidade.
  O que pensa um assassino diante de um pedido de clemncia da vtima? O que sente um estuprador diante do pavor de sua presa? Somos animais racionais ou bestas 
humanas? O que sente um homem que arrasa a inocncia de uma criana?
  No d para justificar todas esas aes, falando de anomalias, patologias... a no ser que incluamos as anomalias do carter, as patologias das emoes.O natural, 
amigo,  que nos conduamos com o sofrimento alheio.
  Mas no  preciso tanto! H posturas que no so tipificadas em crimes, mas que demonstram as pginas escritas com a ausncia da cor da sensibilidade. Filhos que 
tm vergonhas de seus pais, que modificam a prpria histria para dar mais herosmo a uma vida comum. Ora, a beleza est na vida comum! A riqueza est na vitria 
de um texto nascido do interior!
  No falo aqui das cidades do interior em que tivemos a alegria de nascer. Falo do interior humano, das pescarias internas. Temos de nos conhecer para reconhecer 
que somos o resultado de nossas escolhas e das escolhas de muitas pessoas que nos amaram; e at daquelas que nos odiaram.
    Tudo comeou com o amor de nossos pais e depois continuou; como as rendas que to poeticamente enfeitaram a sua casa. Primeiro, a inteno da mulher (a escolha); 
depois, a ao comum de tecer (comum e linda!), as mos dando forma, dando vida... Os pais escolhem os seus filhos. No escolhas de detalhes (de cor dos olhos, perfeio 
dos msculos). Longe disso!
  Brincar de deuses  um perigo para os homens. Escolher um essencial, a vida... E a vida  uma escolha revivida diariamente. O sopro vital  poderoso e paradoxalmente 
frgil. Um tiro apenas, e a vida fsica se vai. Um tombo, e uma vida se acaba. Uma doena qualquer...
  Somos frgeis, no somos feitos de pedra. Mesmo as pedras vo se dissolvendo aos poucos. Mas demoram mais. Ficam paradas, so resistentes. Ns nos movemos. Somos 
complexos. Rejeitamos alguns cuidados por caprichos e descuidamos de nosso traado.
  Nossa escrita tem de ser sagrada. As pginas que recebem o teto da nossa existncia aguardam nosso entusiasmo. Letras muito frcas no podem ser lidas; letras fortes 
demais atrapalham. H uma forma certa de escrever, e isso  educao.
  Imaginar que educar  simplesmente formar cultores das intelectualidades  reduzir um nobre ofcio de conduzir humanidades. Educar  lanar redes para que a teia 
da vida v se abrindo sem economias.  apresentar a folha, o lpis, a borracha, e avisar que tem mais.  ajudar a compor a cano que h de acompanhar, desde o nascimento 
at o ltimo sopro. E sempre que o outro barulho incomodar, entoar desde o incio, para que as razes primeiras no sejam esquecidas.
  Educar  acolher. Mestres e aprendizes entrelaados nos teares da vida, convivendo na construo de crenas e possibilidades, fazendo nascer amanheceres, sem desconsiderar 
o que a natureza nos d gratuitamente.
  Padre Fbio, na minha outra carta falei da Sonata ao Luar de Beethoven.  interessante que sempre que ouo essa msica, fico um pouco triste. No sei se Beethoven 
estava triste quando a comps, mas me parece que os instrumentos choram quando apresentam as notas musicais e suas pausas.  um crescnte, uma homenagem ao luar.
  Ontem a lua estava imensa. Fiquei algum tempo divagando diante dela. Quantos mistrios! Quantas outras pessoas viam o mesmo luar que eu via naquele momento! Pessoas 
que nem falam a mesma lngua que eu, que moram em lugares com costumes diferentes dos meus. Pessoas que tm tradies e ritos prprios, que tm valores e que padecem 
suas ausncias.
  Somos diferentes, mas banhados pelo mesmo luar e talvez embalados por uma mesmasonata. Alguns enxergam um luar de recntditos romnticos; outros, de palcios suntuosos; 
outros, catando papel nas ruas das cidades. BA lua  a mesma, amigo, e o baro de onde viemos tambm! O assassino e a vtima nascem do mesmo barro e so banhados 
pelo mesmo luar! As sonatas talvez sejam diferentes. As razes so tantas e as deformaes tambm.
  Insisto em nossa derrota (nossa como humanidade), quando a violncia real ou simblica nos abate. Somos todos perdedores. Alguns apertam o gatilho, outros fabricam 
as armas. Outros incentivam a gente e outros, passivamente assistem  despedida prematura.
  Desavisados ou sem educao, abandonamos o interor dos nossos sentimentos. Voc j deve ter vivido a experincia de falar para pessoas que tm a necessidade de 
se mostrarem enfadonhas. Por que? Por que no se permitir viver a emoo que o outro me apresenta? Medo? Os fortes so aqueles que escondem os sentimentos.  isso?
  Euclides da Cunha finaliza o relato da dor vista e vivida em Canudos, lembrando a coragem e a persistncia e o gigantismo do ser humano. Canudos no se rendeu!
  Embalado pela tristeza da condio de espectador da luta, sensibilizado pelo gigantismo dos ltimos poucos bravos lutadores, relata a sena de uma mulher idosa 
carregando nos braos uma criana - rosto transfigurado -, gritando de dor.
  "Foram vencidos, mas no se renderam."
  As mes no se rendem jamais. Ser essa a lio? A f? A determinao? O amor a uma causa?
  Apresentemos o canto do interior, o canto pedao - lugar, espao privilegiado - e o canto arte, que embala e emociona. Onde esto os compositores? Aplausos  tribo 
da frica Central, que compreendeu que cada vida merece uma nova cano, e que cada cano tem o poder de nos lembrar do princpio e do fim. O princpio em que tudo 
comeou e o fim para o qual nos esculpiram. A msica  o sopro do artista que d vida  sua obra.  como Michelangelo, diante da esttua de Moiss, to cuidadosamente 
nascida de suas mos.
  Diz assombrado, com a perfeio do seu trabalho: "Parla! Parla!"  to perfeito que s falta falar!
  Ns somos essa perfeio. O que nos falta? O que nos falta para que possamos nos considerar vencedores? Mais amanheceres? Mais tempo para limpar as entranhas entupidas 
com desnecessidades?
  O suprfulo nos rouba muita coisa. E, quando nos  deparamos com o interior, como voc, em sua viagem... Tantos sentimentos lindos sentam conosco e nos fazem companhia.
   nessas horas que no devemos ter pressa. A procisso tem o seu tempo; as saudades das procisses da minha cidade... Eram de madrugada, s vezes em dias de frio, 
s vezes de chuva. A gua no nos impedia o ritual e o sino nos acordava meia hora antes. E dava tempo! E nos encontrvamos no templo, para sarmos juntos - caminhantes, 
prximos -, entoando cnticos de purificao. Canes antigas que outras tantas pessoas j haviam entoado nas mesmas ruas de paraleleppedos, nas mesmas caladas 
estreitas.
  Alguns mais velhos ou doentes colocavam enfeite na janela e acompanhavam, do seu jeito, a orao. E depois voltvamos para a celebrao do po, a celebrao da 
vida,e cada um ia para o seu tear. Os afazeres ganhavam outro significado, e quem era pequeno podia voltar e dormir um pouco at que o cheiro do caf e a lembrana 
do po com manteiga os acordasse.
  Em dias de escola, depois da reza, a celebrao da convivncia no espao do conhecimento. Simples: Cada um em sua carteira, cada um imaginando o que seria amanh.
  Como era a sua escola em Formiga? Fico-me perguntando. Diferente da minha em Cachoeira Paulista? Pode ser que as tintas das paredes fossem diferentes, ou que os 
assoalhos fossem feitos de outro material, mas os espaos eram igualmente sagrados, como so em todos os recanteos em que h algum querendo ensinar e algum querendo 
aprender.  preciso voltar ao interior, insisto. Talvez consigamos entender um pouco melhor o que aconteceu com as nossas margens.
  H tanta busca desnecessria - h tanta iluso nessa procura -, que parece-nos levar  vitria. Enganos de quem tem preguia de voltar!
  Querido padre Fbio, aqui me despeo em busca de respostas para o jovem morto e para os meus medos. Respostas para a me, catadora de lixo, e para os sons das 
mos rendeiras, que embalam um poema, ou uma toalha de refeio.
  Dor e esperana. So esses os amigos que me faro companhia nesta noite. Amanh  outro dia.

 Continuemos,

Gabriel.

  Dcima Segunda Carta

  Meu querido amigo
  Recebo nesta hora o grande volume de vida que sua carta condensa.  diante dele que resolvo recobrar um belo hbito interiorano: o silncio contemplativo.
  Olho para as palavras e percebo que funcionam como portas. Elas me levam a inmeros lugares.
  Sua carta me oferece nomes e histrias que so mais que portas. So casarios grandiosos, portadores de muitos cmodos. Escolho uma casa de esquina recm-construda, 
mas reduzida aos escombros de forma to prematura. O nome dela  Alcides!
  Abro devagtar. Os destroos so muitos. Entre eles  possvel descobrir restos de sonhos, de esperanas, de amores. Restos humanos que j no podem ser reconstrudos.
  O administrador est ausente, foi injustamente levado antes de tempo. O que existe  beira dos escombros  uma mulher - Maria Lusa -, uma entre tantas outras. 
Uma entre tantas outras Marias que tambm sofrem nos dolorimentos de um parto s avessas. A dor de ver partir o filho que elas amamentaram e o fizeram crescer.
  Meu amigo, como  duro estarmos diante dessas matrizes, no momento dessas perdas. A morte de um filho provoca uma dor lancinante no corao de uma me. Ver de 
perto... Vi ao meu lado. O motivo dessa dor ser to aguda  um s: a morte de um filho parece retirar a ordem da vida. No  natural que pais sepultem seus filhos. 
Tudo se torna ainda mais dramtico quando vemos a vida ser interrompida por causa da violncia.
  Voc tem razo: a violncia gerada por todos. Ainda continuo imerso no contexto da reflexo que fazamos a respeito do mistrio da invisibilidade humana. Assim 
como o tijolo est invisvel na construo. Mas  fundamental para que as estruturas permaneam. Da mesma forma esto as pessoas que constroem o nosso cotidiano, 
e as que destroem tambm.
  A histria de Alcides me faz lembrar Vidas Secas. No precioso romance de Graciliano Ramos, O alagoano nascido em Quebrangulo, que narrou com aguada sensibilidade 
o sofrimento de uma famlia que s queria encontrar o seu lugar no mundo. O romance  construdo a partir de personagens muito interessantes. Maria Lusa me fez 
lembrar Sinh Vitria (a me da famlia). Em ambas as histrias, h a prevalncia da mulher como elo simblico que ata a realidade ao sonho.
  Mas h uma diferena: Sinh Vitria conseguiu enganar a morte. De maneira valente e herica, conseguiu contornar as siladas que poderiam finalizar o percurso de 
sua famlia. Vedou as janelas para que o sono da sobrevivncia no fosse roubado.
  Maria Lusa no conseguiu.  lamentvel! A vida no lhe concedeu o mesmo destino que a caneta de Graciliano concedeu  mulher da fico. A mulher real perdeu a 
batalha.
  Mas ela no perde sozinha. De alguma forma, a morte de Alcides nos atinge. Estamos no mesmo mundo, sofremos das mesmas inseguranasm perdemos da mesma maneira.
  A vulnerabilidade da vida cresce a cada dia, a cultura de morte  uma realidade inegvel. A droga gera a violncia, a violncia gera a droga.  nesse crculo vicioso 
que os assassinos so fabricados,  luz do dia: nos semforos de nossas cidades emcpmtra,os crianas que deveriam estar na escola.
  O futuro no ser promissor. Esto a servio de adultos irresponsveis que compreenderam a paternidade como um mero exerccio de funo biolgica. Trouxeram-nas 
ao mundo, mas no as conduzem ao melhor do mundo; entregam-nas de maneira covarde e cruel ao relento dos desafetos.
  Meu amigo, eu fico pensando no que podemos fazer. Nossas aes concretas so importantssimas.  o que faz padre Julio Lancellotti, o gtande homem que a vida me 
permitiu conhecer de perto. Recolher das ruas menores abandonados  o imperativo potico que o Evangelho soprou em seus ouvidos. Padre Julio um homem em meio a 
tantos outros que esto empenhados na reforma da sociedade.
  Precisamos utilizar todos os recursos que temos. Aqui neste livro que construmos juntos, h uma oportunidade de ajudar nesta reforma. Nosso instrumento  a palavra. 
Ela pode acordar, recordar, convocar.
  Gabriel, voc tem razo! Nossa escrita precisa ser santa. A matria-prima de nossas falas  real, pulsa nos recnditos de nossa pas, sobrevive em lugares que 
nossos olhos no alcanam. Est nos cotidianos diversos, falando lnguas que no compreendemos, mas est expressa a partir dos sentimentos universais.
  Chorar no requer traduo; sorrir, tambm no. A dor que di no Japo  a mesma que di aqui. As questes humanas so universais.  sobre isso que escrevemos. 
Sobre as dores do mundo: dores que andam pelas ruas, dores que freqentamos. Elas esbarram em ns o tempo todo, nossas palavras so extradas de pessoas concretas: 
gente que ama, que reza, que anda, que adoece, que esquece, que vive e que morre.
  As Severinas esto por todos os lados: os Alcides, as Sinhs Vitrias... A ponta da pena - recurso antigo, que j no usamos mais -  o lugar por onde todas essas 
pessoas recebem  o direito de contar as suas histrias. Vidas que evangelizam, ensinam, transformam: porque inspiram.
  Meu amigo, escrever  oferecer direito de fala aos que no sabem ou no podem dizer. O ofcio do escritor tem carter redentor;  a escrita instrumento de purificao, 
 instrumento catrtico. Quando comprometida com a verdade, conduz o leitor a um estado maior de clareza interior. Essa ckareza  fundamental para a boa co.
  A bondade que queremos para o mundo passa o tempo todo pelo instrumental da palavra.  por isso que  a palavra tem centralidade nas grandes religies monotestas. 
H um exemplo de que gosto muito, no Antigo Testamento, mais precisamente no relato da criao que est no livro do Gnesis. Encontramos no processo de descrio 
d feitura do mundo.
  Gnesis, Captulo 1, versculos 1 a 31
  O relato fala de como a realidade foi ordenada. Segundo o escritor sagrado, toda a ao divina nasceu de uma palavra dita. O caos que antes prevalecia,  sua fora 
com o pronunciamento da palavra que ordenou a vida.
  Gabriel, a partir da criao, Deus comea a sua incurso na histria da humanidade. A este processo, chamamos de Revelao. Essa tentativa incessante da parte 
de Deus de comunicar -se com os homens. A sua comunicao no tem um outro objetivo, seno salvar, curar, redimir.
  Deus quer se revelar, mas para que iisso seja possvel  necessrio utilizar-se de signos humanos. Ele escolhe a palavra: a palavra  o centro dessa revelao. 
 neste contexto que entram os portadores da palavra divina: patriarcas e profetas so os magnos, representantes nessa primeira fase.
  Meu querido, essa histria  compreendida de diversas formas, mas o mais interessante  que todas as grandes religies do mundo giram em torno de um livro santo. 
O livro  o lugar da palavra, que as religies consideram como divina.  astravs dela que a humanidade busca os vestgios de Deus. Cada religio busca a seu modo.
  Ns - cristos / catlicos -, acreditamos na verdade da sagrada escritura   nela que encontramos o itinerrio da palavra de Deus que nos leva at a plenitude 
da Revelao, que  Jesus.  Compreendemos o Antigo Testamento como uma preparao importantssima para todo o contexto do anncio que Jesus realiza. O Novo Testamento 
no suplanta o Antigo, mas torna-se o referencial hermenutico para sua compreenso.
  Gabriel, o prembulo do Evangelho de Joo tem uma coneco estreita com o relato da criao, que est no Gnesis. No princpio era o verbo e o verbo estava com 
Deus; e o verbo era Deus. Ele estava no princpio com Deus: todas as coisas foram feitas por intermdio dele - e sem Ele, naa do que foi feito se fez.
  Joo, Captulo I, Versculos de 1 a 3
  Veja que interessante! O verbo  colocado como participante da ao divina. Mais que isso,  colocado numa identificao total. A teologia mora nas preposies! 
Analizem: Com Ele e por Ele!
  Preposies que nos ensinam a verdade da ao trinitria. Tudo em Deus  vida compartilhada entre trs pessoas. Mais adiante - no versculo 14 do mesmo texto - 
est a descrio da entrada de Deus na histria atravs do verbo.
  "E o verbo se fez carne e habitou entre ns."
  Meu amigo, a teologia da encarnao do verbo protege uma beleza inenarrvel. O verbo que esteve na organizao da vida inicial agora encontra lugar no ventre de 
uma mulher. Deus assume a carne humana: a mesma palavra que disse a ordem inicial, agora tem a sua tenda estendida entre os homens.
  Veja que ligao interessante.O Antigo testamento sugere que todfa a realidade criada nasceu da palavra dita por Deus; tudo est diretamene conectado  ordem que 
Deus disse. A palavra pronunciada  "sentena de vida": a fora da voz divina desfez a fora do caos. Agora, depois de vivido um processo de manifestao dessa palavra 
na histria do povo de Israel, Deus resolve assumir a condio humana: por meio do verbo, elle alcana de maneira definitiva os caminhos da histria. A vida de Jesus 
gira em torno da palavra que ele anuncia. Ao anunciar a palavra, ele anuncia a si mesmo: ele  a palavra encarnada.
  Parece complicado, mas no. Jesus  a manifestao da histria de Deus, ele  Deus! No centro de sua pregao est o conceito de "reino de Deus", Este conceito 
 central nos escritos neotestamentrios. Eles nos apontam para a concretizao de tudo o que a palavra de Deus sugere.  por meio dela que a criao reencontrar 
a harmonia inicial que foi perdida.  em Jesus - o verbo encarnado - que a condio humana  lavada de toda sua histria de erros e enganos.
  Gabriel, todo esse passeio teolgico  para salientar que nossa palavra precisa continuar esse mistrio da encarnao. Jesus no quis outra coisa, seno a restaurao 
de um reino onde os meninos no seriam assassinados, e tampouco que as mes tivessem que sepultar os seus filhos. O desejo de Jesus  a prevalncia da justia, do 
amor, da igualdade, da verdad  e da vida.
  O mundo est cheio de sinais de morte e desesperana. Nossa poesia precisa ser proftica.  mister que nosso ofcio de escreve reabilite o discurso dos patriarcas 
e profetas. Precisamos buscar a palavra que reordena a vida, a palavra que desfaz o caos. Precisamos verdadeiramente dizer para que outros ouam, para que outros 
se sintam motivados com o que dizemos.
  Graciliano Ramos - o mesmo que se tem no incio dessa carta - compara o seu ofcio de escritor com o ofcio das lavadeiras de roupa. Ele faz uma comparao interessante: 
"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras l de Alagoas fazem o seu ofcio. Elas comeam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa 
ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente. Voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxguam, do mais uma molhada... agora 
jogando a gua com a mo. Batem o pano na laje ou na pedra limpa. E do mais uma torcida e mais outra. Torcem at no pingar mais do pano uma s gota.
  Somente depois de feito tudo isso  que elas dependuram a roupa lavada na corda, ou no varal, para secar.
  Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra no foi feita para enfeitar - brilhar como ouro falso -, a palavra foi feita para dizer. Meu 
amigo, a esttica da palavra no basta para tornar um discurso bonito. Costurada na esttica da palavra  preciso estar a tica."
  O escritor tem razo.  desconcertante, mas nem sempre  possvel encontrar coerncia no discurso rebuscado.  preciso reconhecer que, muitas vezes,  no opaco 
do texto que est o brilho abscndito da verdade.
  Sempre acreditei no poder transformador da palavra. A palavra lavra a alma: abre sulcos, esclarece, reorienta...
  Experimento em mim essa fora transformadora: sempre fui afeito s reflexes.  impressionante como  possvel mudar o jeito de sentir a vida partir de uma reflexo.
  Gabriel, h reflexes que reconheo como edificaes monumentais, so grandiosas! Atraem os olhos, exercem fascnio, encantamento! Mais que isso: elas nos transformam, 
porque nos dizem - assim como os palcios renascentistas so atraentes aos olhos dos que passam - uim pensamento bem argumentado, refletido. Tambm tm a possibilidade 
de despertar o assombro. No  interessante pensar que a filosofia de Aristteles est para o mundo, assim como o palcio de Versalhes est para a histria da arquitetura?
  Gabriel, todo pensamento produzido ao longo da histria da humanidade  infinitamente superior s edificaes concretas, que as culturas j produziram. O pensamento 
procede as paredes, as abbodas, as cpulas e os jardins. As construes no nascem por acaso: foram projetadas a partir de uma filosofia, de uma teologia.
  Antes da obra, o pensamento. Uma catedral  expresso de uma forma de pensar. As construes gticas nos apontam para um jeito especfico de interpretar o mundo. 
As torres buscam o alto. Aquelas edificaes nos sugerem uma mentalidade totalmente voltada bpara a transcendncia.
  J as construes romanas seguem traos mais retos e horizontais (os romanos queriam dominar o mundo); por isso, eles construram de maneira esparramada. Era uma 
forma de dominar os territrios.
  Meu amigo, o certo  que a palavra bendita precisa alcanar os nossos ouvidos. Quem sabe assim, a gente se antecipe  chegada dos assassinos. S a palavra bendita 
pode reorientar as escolhas que fazenis, S ela pode parar a fabricao dessa cultura de morte que nos assola.
   NA histria de Graciliano Ramos, Sinh Vitria se apresenta como aquela que no deixa o sonho morrer. A secura do cho no atingiu a sua alma; a vida que secava 
ao redor deles no poderia alcanar as razes de suas almas. O relato do sonho serviu como anestsico para que Fabiano esquecesse um pouco a dureza da realidade.
  Sinh Vitria no negligenciava a sua responsabilidade especfica de mulher: carregava sobre os ombros o duro fardo manter vivo o significado de seus seios. A 
vitalidade dos seus filhos e marido passava pelo seu corpo, como se o parto nuncamais pudesse ter fim. Como se estivesse recondenada a conduzir aqueles corpos secos 
aum interior de um ventre simblico, para que l voltasse ao fico que a luta seratneja reclamava. O que a secura do serto consumia, os seus sonhos precisavam devolver.
  O destino de sua famlia estava diretamente ligado ao tanto que seus lbios conseguiam sorrir, discursar, alimentar, fomentar sonhos. Sua palavra, envolvida de 
poeira e sol, quebrava o silncio daquela marcha estenuante. Pelas veias de suas palavras corria um sangue redentor, capaz de aliviar o corpo e os sentidos.
  "Fabiano ouviu os sonhos da mulher, deslumbrado. Relaxou os msculos e o saco da comida escorregou-lhe no ombro. Aprumou-se, deu um puxo  carga... A conversa 
de Sinh Vitria servira muito. Haviam caminhado lguas, quase sem sentir."
  Meu amigo, a palavra era tudo que Sinh Vitria possua. A carncia de recursos no lhe fez esquecerse da fora simblica de sua palavra. Era atravs dela que 
ela reordenava as vidas secas deles, para a fonte que poderia renutri-las.
  Desfazer o caos  o principal papel da palavra que motiva sonhos, esperanas e mudanas.  estranho mas, diante da tragdia, costumamos perder as palavras. O primeir 
impacto de tudo que nos retira o prmuco costuma ser a falta de argumentos. O silncio, que de to fundo parece que nuncamais ter fim.
  Talvez seja por isso que Maria Lusa teria ficado to calada diante da tragdia do filho. Vi algumas notcias sobre o assassinato e notei que seu rosto estava 
mergulhado num silncio profundo.;  natural, o verbo lhe foi retirado. O mesmo que um dia, ela recebeu no ventre. O mesmo que ela teceu cuidadosamente, assim como 
as rendeiras de Pesqueira teciam as suas rendas.
  Meu querido amigo, a histria de Maria Lusa me coloca diante da necessidade de uma ao. No quero deixar morrer a motivao que o relato dessa tragdia me trouxe. 
Diante da palavra,  preciso reagir.
  H um miniconto de Lgia Fagundes Teles que acho genial. Nele podemos ver o quanto a interpretao que fazemos das palavras  determinante para nossa ao. Ela 
diz:
  "Fui me confessar ao mar. E o que ele disse? Nada."
  Diante da resposta que a poetiza nos entrega, s ha duas possibilidades: ou ficamos com o vazio do silncio, que o nada sugere, ou ficamos com o imperativo do 
verbo. Eu escolho o segundo! Diante do mar que nos assusta, eu prefiro nadar.
  Continuemos adeptos da palavra que bem-aventura, meu irmo querido. Se oprtarmos pelo silncio, as armasno deixaro de gritar.

  Com meu carinho e bno,

  Padre Fbio de Melo

  Dcima Terceira Carta

  Querido Padre Fbio,
  Vidas secas, to bem comentado em sua carta, serve de ponto de partida para numerosas reflexes sobre a vida, sobre a esperana. Vivemos em uma poca em que o 
tempo foi perdendo o significado. Lamentamos a ausncia de tempo e desperdiamos o tempo com ausncias de intenes. A secura est distante do oceano contemplado 
por Lgia e est mais perto de um pr do sol falacioso.
  Era esse o convite de Ricardo e Raquel em "Venha ver o Pr do Sol". Um conto que di, pelo desfecho sem esperana. A linguagem retrata as emoes doentes do homem 
que no admite perder sua mulher. Sua, no como pronome possessivo carinhoso, mas como desvirtuao do ser e do ter, como esfacelamento de vidas que se tornam indignas 
por no dividir com outras vidas um pr do sol.
  Ricardo, sabendo-se deixado, convida Raquel para um ltimo pr do sol antes do trmino da relao. Raquel, desavisada, sede aos seus caprichos e vai. Talvez por 
vaidade, talvez por manter acesa a chama que no mais lhe arde. Afinal, que mal h em contemplar um ltimo pr do sol ao lado de quem ontem tinha algum significado?
  Ricardo decide internamente que sem ele, ela no tinha o direito de contemplar nenhum pr do sol. E Lgia Fagundes Teles, como uma arteso potica dos dramas humanos, 
conta sobre os perigos tomos abertos por homens sem corao.
  A dor de uma separao no justifica um fim, a vida  maior que o momento.  o tempo o segredo, amigo. O tempo cantado no belssimo livro de Eclesiastes. "para 
cada coisa h um tempo." As palavras so porta. Sim, voc tem toda razo.
  H momentos, entretanto, em que precisamos dizer as palavras para ns mesmos. Em uma conversa ntima, em que nos convencemos de que h outras possibilidades na 
travessia.
  Sinh Vitria falou com Fabiano, como bem voc narrou, mas falou antes com ela mesma. Era a palavra dita nas suas entranhas que abria janelas para outras possibilidades. 
Sem isso a palavra perde sentido, perde poder.
  O sonho de Sinh Vitria era o de ter uma cama. Uma cama? Parece simples, no ? Uma cama tem um significado muito mais profundo que um colcho sobre um estrado. 
Uma cama  o sonho de permanncia. Permanecer  deixar de buscar, ou  buscar sabendo que se tem paa onde voltar.
  A valentia est na busca, mas  preciso ter para onde trazer o que se aquinhoa. A rede tem o seu valor, mas sua forma, acostumada  vida nmade, carece de uma 
paragem mais duradoura. Isso  coisa de cama, na metrofa de Graciliano.
  Amigo, tenho convivido muito com homens desiludidos com suas mulheres, com mulheres desconfiadas de seus homens. Tenho escutado histrias de traio e de vingana. 
E desabafos de personagens derrotadas pela quebra do pacto do amor.
  Dia desses, um jovem de menos de trinta anos jurava ter desistido de viver por ter descoberto a traio da namorada, quase esposa. Chorou um choro dodo, contorceu-se 
de uma dor comovente. Falou de frases numerosas vezes repetidas pela mulher que o apunhalou.
  Ouvi atentamente - que  o que mais vale nessa hora -, e ousei sugerir que ele compreendesse o curso do tempo. O  luto necessrio fortalece; o choro nos aproxima 
de quem somos, seres dotados de emoo. As janelas fechadas significa que a casa est sendo arrumada, que a sujeira est sendo limpa e que os enfeites esto encontrando 
seu espao para adornar e dar aconchego. H o tempo da reforma e o tempo da inaugurao.
  Em tempos de reforma  melhor no trazer muita gente: a poeira pode dar uma impresso desagradvel. As toalhas sobre as poltronas no so to convidativas. Quando 
tudo estiver organizado, os convidados sero bem-vindos.
  No se pode culpar algum por amar demais; No se pode jogar terra sobre as flores pequenas, mimosas, que se desabrocham  procura de pequenas vida.
   de Chico Buarque essa preciosidade, em valsa brasileira. Chico Buarque fala de um amante que vive a buscar a amada, um amante que corre contra o tempo.
  "Vivi a te buscar
  Porque pensando em ti corria contra o tempo
  E descartados dias em que no te vi
  Como de umfilme, a ao que no valeu."
  Esse romantismo  lindo, amigo: um amante que vive a buscar a amada; um amante que corre contra o tempo e que descarta os dias em que a imagem ficou fora da casa. 
Da casa, mesmo aquela de esquina, simples, mas enfeitada com um significado.
  Prossegue a cano em um trecho.
  "Subia na montanha
  No como anda um corpo,
  Mas um sentimento."
  A velocidade de um sentimento  outra; o desejo ainda antecipa a estao que ainda descanas. O inverno se despede antecipadamente ou fica, mas com a promessa de 
dar calor. So brasas em pleno inverno que nos acendem. Provamos que temos o poder de derrotar o que nos tenta congelar. O frio  um pretexto A mais para que o abrao 
desafie o tempo.
  Em outra cano - Todo o Sentimento -, o mesmo Chico, conhecedor da alma feminina com a delicadeza de um poeta maior, nos faz pensar no tempo da gente. No tempo 
com o poder de refazer o que desfez.
  "Preciso no dormir
  At se consumar
  O tempo da gente...
  Pretendo descobrir
  No ltimo momento
  Um tepo que refaz o que desfez."
   possvel consumar o tempo da gente?  possvel um tempo com o poder de refazer o que desfez? E por que o que desfez desfez? Por que a cristaleira foi ao cho? 
Quyem desfez o cuidado com que cada pequena jia foi sendo ajuntada com o tmepo?
  "Quem brincou desautorizadamente
  Depois de te perder
  Te encontro com certeza
  Talvez num tempo da delicadeza."
  Que tempo  esse, o tempo da delicadeza? Se soubssemos a resposta, talvez tivssemos preservado a cristaleira. Quantas palavras so ditas sem que o tempo da delicadeza 
tenha chegado? Quantos sentimentos so espezinhados por disputas sem glrias? Onde h amor, no h competio: h cooperao. Onde h amor, no h vencedores e derrotados: 
h seres iluminados que no poupam nem usurpam a luz.  uma troca. O tempo da delicadeza  o tempo em que surpreender  um verbo que transita diretamente de emoo 
 razo, e que desautoriza a gente a se desvencilhar da gente. Isso tudo com as luzes acesas dos dois lados.
   um espetculo do cotidiano em que as sombras so convidadas. Se h dvida, o melhor a fazer  esperar e, se necessrio, transitar em outros quintais.
  No h amor roubado. Amor decidido isoladamente. Lutas de amor sem amor ao inglrias. Pedaos de tecido arrancados de forma humilhante no aquecem; migalhas pedidas 
com suplicao no espantam a fome. E a  ncessrio convidar o tempo: nopara buscar o amor que consuma o tempo da gente, mas para compreender um amor consumido 
por nunca ter existido. Iluses moram em nossa casa e nos atormentam; alimentam-nos de desperdcio. E esperamos: assim mesmo, sem complemento algum.
  Vestimos a fantasia que nos cai bem e danamos solitrios  presena imaginria. E mais nada... Perda de tempo, perda de energia. 
  Dom Casmurro, consumido, encerra sua narrativa de um amor intenso, doentio ou ingnuo, refletindo sobre o cumprimento da misso que em tempos era e  inexorabilidade 
de seu destino de homem.
  "O meu fim evidente  atar as duas pontas da vida e restaurar na velhice a adolescncia; pois, Senhor, no consegui recompor o que foi, nem o que foi. Em tudo, 
se o roso  igual, a fisionomia  diferente. Se s me faltassem os outros... V. O homem consola-se, mais ou menos das pessoas que perde. Mas falta o eu mesmo e 
esta lacuna  tudo."
  Seria a resposta de Bentinho Casmurro aos versos de Chico Buarque? O desejo da descoberta do tempo que refaz o que desfez e a perda do tempo e da energia. Se pudssemos 
buscar um dilogo imaginrio entre o bruxo Cosme Velho e o padre dos Sertes, talvez consegussemos aquietar um pouco o desejo desajeitado de preencher a lacuna 
do tempo. Tanta raiva na solido de Bentinho... tanta dvida, tanta adolescncia na velhice. E tanto desejo! Os olhos de ressaca habitavam, depois de tanto tempo, 
os seus mais desobedientes sentimentos.
  O poder da oratria conceptista de Vieira lhe asseguraria que "tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba..."
  "Atreve-se o tempo a colunas de mrmore, quanto mais a coraes de ser. So as afeies, como as vidas, que no h mais certo sinal de haverem de durar ou que 
terem durado muito. SAo So como linhas que partem do centro para a circunferncia que, quanto mais continuadas, tanto menos unidas.
  Sermo do Mandato, 1643."
  Para Casmurro, no curou. Alimentou-lhe a indignao com o duvidoso, a raiva das possibilidades, a solido inevitvel. Deveria o tempo ter curado o amor, mas foi 
o amor que adoeceu o tempo.
  Ouvimos vozes que nos convidam a outra dana, mas damos a desculpa de que a porta da frente est prestes a se abrir. E o tempo da velhice ser apenas o tempo da 
espera, e a espera ser sem sabor. Porque nem a memria  capaz de inventar o que no aconteceu..
  Por que tanta teimosia? Por que usar o vestido de noiva antes de um noivo ter aparecido? Por que alugar o traje  ou emprestar de algum, se a noiva nem sequer 
dobrou a esquina? Ser que h alguma noiva?Ser que  possvel arranc-la (ou arranc-lo) de algum livro encantado? Fico e realidade ocupam espaos distintos. 
Mas o que fazer se o amor teimar em no chegar?
  Pergunta contraditria! O amor nasceu junto. O sol no pode sair em busca de calor se ele  a essncia do calor. O amor  nossa matria prima, ns somos o amor. 
Um amor que, miraculosamente,  uno e mltiplo:  singluar e plural. O amor pode, tem licena para desdizer a lgica.
  Voc falou o padre Julio Lancellotti. Eu conheo e admiro esse sacerdote. Quanto amor h no seu olhar e na sua ao! Certafeita, fui com ele visitar vtimas de 
uma enxurrada que levou os sonhos de muita gente. Entramos em barracos destrudos, e em barracos em risco de destruio. Seus olhos eram de compaixo. Muitos daqueles 
moradores o reconheciam: pediam a bno, choravam. Contavam histrias de dor.
  Em um dos barracos, um funcionrio apressado exigia que a mulher sasse imediatamente do seu espao pelos riscos de novo deslizamento. A mulher gritava desesperada, 
dizendo que toda uma vida estava ali: naquele cmodo, naquele pequeno espao, e que no sairia. Que defenderia o que era seu at o ltimo momento.
  O funcionrio ameaava e ela mais brava ficava. Foi quando padre Julio interveio, dizendo que ela decidiria se sairia ou no, e no tempo dela. Eis mais uma vez 
o tempo da delicadeza!
  Um amor diferente, um amor irmo. O padre abraou amulher e disse que compreendia a sua angstia. E que sabia que tudo aquilo que estava ali era seu por direito. 
Mas que tinha medo que alguma coisa acontecesse com ela, porque a vida dela era o que de mais precioso havia naquele cmodo.
  A mulher chorou, agradeceu e se convenceu. Assim, no tempo da delicadeza, ela se decidiu. "O resto ns ajeitamos depois", disse o sacerdote. O essencial estava 
preservado.
  Corremos o risco de que nossas coisas tenham mais importncia que nossa vida. O jovem abandonado do conto de Lgia resolveu enterrar outras possibilidades na vida 
da mulher amada. Estranho, no ? Enterrara o amor ainda em vida; planejara o ltimo pr do sol, se gratuitamente o sol se pe para todos, todos os dias.
  Estranho laar algum com o trunfo de uma pertena, como um caador; e depois, empalhar para no ter riscos. Um pssaro vivo pode voar; um pssaro empalhado ficar 
sempre, no mesmo lugar. Um pssaro vivo, entretanto, canta, brinca, pula e voa; e seu vo tem volta se o espao do aconchego lhe foi oferecido. Se o pssaro quiser 
ir, amigo, o melhor  abrir as mos e ter a dignidade de dizer adeus.
  A despedida ser dolorosa, mas o tempo se encarregar do necessrio. Prender o pssaro, empalhar o pssaro, ou jogar terra sobre a amada ser pedir ao tempo que 
ele resolva o que no lhe compete. As agruras do remorso so mais terrveis que a dor da saudade.
  Voltando a Vieira e  sua maestria,  dele esta profisso.
  "Quis-nos declarar Salomo - diz Agostinho - que o amor que  verdadeiro tem obrigao de ser eterno, porque, se em algum tempo ele deixou de ser, nunca foi amor."
  Notvel dizer. Em todas as outras coisas, o deixar de ser  sinal de que j foram. No amor, o deixar de ser  sinal de nunca ter sido. Deixou de ser, pois nunca 
foi! "Deixastes de amar; pois nunca amastes!"
  O amor que no  de todo tempo - e de todos os tempos - no  amor, nem foi. Porque, se chegou ao fim, nunca teve princpio. No possumos as pessoas, amigo; no 
temos o direito de empalhar seres humanos com a desculpa do amor. Segundo Cames:
  "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades;
  Muda-se o ser, muda-se a confiana
  Todo mundo  composto de mudanas
  Tomando sempre novas qualidades.
   como a eternidade que se, por impossvel, tiver afim, no teria sido eternidade."
  E no mesmo diapaso de Cames:
  "Mudam os amores, mas no acabam
  O amor  livre, arriscadamente livre."
  O tempo talvez nos ensine, se tivermos pacincia, a conviver com essa liberdade. O tempo  a escola dos sbios e a sabedoria uma preciosidade que recebemos de 
Deus. Os jovens, s vezes, so apressados, querendo resolver tudo de uma vez.  preciso que a ferida se cicatrize, para evitar aborrecimentos. Os mais velhos compreendem 
a leveza dos passos: que uma queda  dolorosa demais, que vo aos poucos.
  Os jovens temem por um futuro incerto; os mais velhos conquistaram o futuro e querem preserv-lo. Os jovens buscam repidez nas experincias, para que outras experincias 
cheguem. Os mais velhos, experimentados, gostam do sabor demorado do que j chegou e se foi tantas vezes.
  O tempo da delicadeza  o tempo dos jovens e dos velhos.  o tempo dos amantes cujos amados no esto enfeitando prateleiras, mas esto em construo. Tm movimento, 
exalam aroma, perfumam. Em outras palavras, j utilizadas por ns, os amantes enxergam os amados e os amados amam os amantes, que so tambm amados e enxergados.
  Nada de invisibilidade! Se s h espelhos na sala de visitas, talvez eu corra o risco de no reparar nas visitas. O mito de Narciso, tantas vezes recontado,  
um risco iminente. O lago  convidativo, o espelho tambm. O tempo do deslumbramento, da vaidade exacerbada, da mesquinharia de sentimentos, no o tempo do amor.
  Na efemeridade da vida - vida de um tempo fugaz - talvez descubramos o ofcio de encontrar o essencial, e o essencial nos desafia viver o dia intensamente. Como 
ensina Thomas Antnio Gonzaga em Marlia de Dirceu.
  "Que havemos de esperar, Marlia bela!
  Que vo passando os florescentes dias?
  As glrias que vm tarde j vm frias 
  e pode, enfim, mudar-se a nossa estrela.
  Ah, no, minha Marlia!"
  Aproveite-se o tmepo antes que faa o estrago de roubar ao corpo as foras e ao semblante a graa. Juntemo-nos ao rebanho do pastor Dirceu e ao seu amor, de instante 
eterno e intenso, por Marlia. Meu amigo, carpedien. Carpedien, padre Fbio.  um conceito utilizado desde Homero,  Ilada e na Odissia. E nascido como palavra 
na obra de Horcio.
  O sentido foi muito bem explicado no belo filme Sociedade dos Poetas Mortos: carpedien. Aproveite o dia, aproveite a ocasio, aproveite as circunstncias.
  Enquanto escrevo solitariamenteessas palavras, aproveito a minha solido. Quando encontro amigos queme encendeiam de futuro e que brincam de passado comigo,  
a eles que ofereo um momento sagrado. Quando falo, aproveito a fala e quando silencio, aproveito o que a fala de ontem me fala hoje em mim. Recebo e entrego o tempo 
todo, aproveitando a aventura de viver e conviver.
  So laos que nos fortalecem: amores que nos preenchem em tempos de delicadeza.
  Obrigado, amigo, por permitir revelar as minhas certezas provisrias em cartas desobrigadas. Fazemos isso com o intento amoroso de nos conhecendo melhor e, nos 
conhecendo, de cruzarmos juntos as veredas da sinceridade. E tudo livre - como livre  o amor - somos irmos, amigo.
  E isso j revelamos: somos amigos irmos, e isso j decidimos.  por isso que as nossas cartas nos convidam a aproveitar o dia, aproveitar a vida. Carpedien!
  Use o seu talentopara que o Cristo, que com tanta oesia voc apresenta, seja cada vez mais o sinal de um amor que  mais do que um livre convite.  uma obrigao 
voluntria! Quem quiser experimentar a liberdade, comece amando, e todo o tempo ser o tempo da delicadeza.

  Gabriel.
  Dcima Quarta Carta

  Meu querido amigo,
  Obrigado pela delicadeza de suas palavras. Nelas, h a prevalncia de um conhecimento maturado, revestido de sensibilidade rara. Suas palavras acenam como mudanas, 
chegam como viajantes que impunham promessas de vida nova, porque encontram a Terra Prometida.
  O motivo  simples: elas me emotivam. Carpedie, aceito o convite. Aceito o desafio de no permitir que a morte prevalesa sobre minhas esperanas. E na tentativa 
de no me perder de meu compromisso com a vida, assumo a postura sensata de querer um dia, de cada vez.
  Digo isso porque o embate do tempo est em mim. Soa a mistura de passado, presente e futuro.  neste ponto de convergncia que estou situado.
  Se me prendo ao que foi, corro o risco de reduzir minhas possibilidades aoexerccio de recordar, fico preso s alegrias e dores que j no existe mais. Reduzo 
minha experincia humana s reminiscncias. Se me prendo ao futuro,  provvel que minha vida se transforme numa espcie de planejamento. Estabeleo metas - previno, 
preparo.
  As duas posturas so redutoras: o esquecimento do presente  o mesmo que no viver.
  O desafio  articular os trs tempos: ter os olhos abertos para o presente que nos envolve. Munido de sabedoria - de tudo o que se foi - e amparado pelas esperanas 
do que ainda ser. Nisso consiste a fora do carpedien. O tempo  a matria prima principal. nele que nossas reais possibilidades de realizao so construdas.
  Nosso empenho precisa estar nissso. Fazer caber nas mos o que queremos da vida. Gabriel, h sempre uma frao de vida que precisa ser celebrada. Todos os dias 
tenho diante de mim uma fatura imensa de vida, mas preciso escolher a parte dessa fatura que verdadeiramente necessito. A escolha que fazemos  definitiva para nossa 
realizao.
  Voc recordou a sabedoria bblica que est em Eclesiastes. Debaixo do cu, existe um tempo real para cada coisa. (Eclesiastes, captulo 3, versculo 1).  verdade! 
Essa compreenso retira o peso opressor da pressa, mas no  fcil aplic-la na realidade. A pressa que temos nos denuncia: querems conciliar o inconcilivel; queremos 
antecipar o futuro; queremos reabilitar o passado. Por isso, a pressa nos adoece. Estamos vivendo da mesma forma que o coelho de Alice: o clebre personagem da obra 
de Lewis Karol.
   Meu amig, estamos em constantes embates com o tempo, precisamos fazer caber num curto espao de horas uma infinidade de atividades. No queremos deixar nada para 
depois. temos medo da inutilidade: queremos agir, queremos realizar. A ao nos alivia de nosass ausncias. ela nos faz esquecer, ainda que por breves momentos, 
a nossa indigncia irrenuncivel.
  Por isso, precisamos tanto de agendas (e cheias) Quanto maior o nmero de ocmpromissos, maior  a sensao de insegurana. Estranho, no    como se a data j 
preenchida nos assegurasse um vnculo com o mundo: vnculo que passa pela atividade, que nos torna teis, necessrios.  como se a agenda repleta de atividades nos 
aliviasse a sensao de perda que o tempo vai nos ertando. Ele passa e com ele, ns tambm vamos passando.
  A maneira como escolhemos passar  determinante no resultado final da vida. O tempo pode nos esmagar ( fcil qe isso acontea!), mas h um espao de respiro nesse 
domnio que ele realiza.
  Na viagem que fiz  frica conheci dona Augusta, mineira e atualmente vivendo em Goinia. Dona Augusta  uma senhora encantadora. Ela me contou que, depois da 
aposentadoria, resolveu dedicar-se aos servios voluntrios. Ela trabalhou muito ao longo da vida toda. teria todo direito de viver este tempo de aposentadoria no 
sossego de seu lar. Mas no! Quando lhe perguntei sobre o motivo de no ter feito essa opo, ela me confessou que ainda tem muitos sonhos que precisa realizar. 
Achei instigante a sua maneira de lidar com o tempo.
  Percebi que ela no espera o despontar do dia 1 de janeiro para que o seu ano seja novo. A urgncia de realizar os sonhos que ainda a nutrem no lhe permite aposentar-se. 
E por isso, ela no est presa s datas. O calendrio anterior  infinitamente superior ao que est pendurado na parede.
  gabriel, a histria de dona Augusta me faz lembrar a pergunta desconcertante que recebi de um menino, ao final do ano passado. Ele queria saber sobre o significado 
do Ano Novo. Confesso que tentei dizer; busquei as frases prontas, que so to comuns a essa poca do ano. E, prontamente, me coloquei a repeti-las. Percebi que 
ele escutava tudo o que eu dizia, mas sem muito interesse.
  Ele voltou a insistir. Queria saber se haveria algum sinal que pudesse indicar a mudana do ano velho para o ano novo. Eu fiquei sem saber o que dizer. O nico 
sinal que me ocorreu foi a famosa queima de fogos que acontece na praia de Copcabana. Nem tive coragem de dizer!
  Apesar da pouc idade, o menino buscava por um significado mais profundo a respeito do tempo. Sem muitos rodeios, ele argumentou que no conseguia perceber muito 
sentido nessa histria de Ano Novo. Ele tinha uma viso prtica da vida e, sobre ela, me falou. Buscou realidades simples do seu contexto e exemplificou, para que 
eu pudesse entender sua dvida.
  O menino estava coberto de razo. Sua viso prtica era coerente, lcida. No h nada de novo no Ano Novo. O que muda  o relgio, o calendrio. Mas a vida continua 
o seu remanso de sempre.
  Foi ento que busquei estrapolar o seu discurso prtico e lhe ofereci algumas pores do meu discurso simblico: eu tambm precisava sobreviver quela conversa. 
No queria sair dela, embebido daquela praticidade que poderia fazer ruir minha capacidade de acreditar que existe alguma novidade  minha espera com o romper da 
nova dcada.
  O menino me olhava interessado. Falei sobre o tempo e seus ciclos. Falei da psicologia das horas. Argumentei que a demarcao das datas pode ter repercusso nas 
almas das pessoas, na oportunidade de virar o calendrio. Pode ter efeito positivo sobre aquele que se sente pesado, angustiado e sem esperanas. Comparei o ano 
velho a uma gaveta que precisa ser limpada. "guardamos muitas coisas desnecessrias. Chega o momento em que precisamos fazer a triagem!  necessrio limpar, jogar 
fora, abrir espaos para coisas novas. O ano novo e gaveta limpa podem ter os mesmos sentidos", sugeri. "Toda vez que ns temos a sensao de um novo tempo,  natural 
que nossas almas sejam invadidas por esperanas. faz parte do processo humano sofrer de esperanas. A esperana  uma espcie de instinto de sobrevivncia O cansao 
dos tempos idos pode dispor o nosso corao  possibilidade de mudanas.  como se houvesse uma saturao.
  No queremos mais o peso do passado precisamos de outra oportunidade. O calendrio novo nos oferece essa sensao. Ao saber que o ano velho est sendo finalizado, 
 possvel que voc se encha de espectativas importantes.
  O menino me olhou com carinho e agradeceu. Voltou para seu mundo de brinquedos e deixou-me diante da necessidade de conciliar os dois discursos: o prtico e o 
simblico.
  Desaforo! O discurso prtico parece humilhar o discurso simblico. Ele resolve porque  dotado de clareza:  lgico, urto, asfixiante. Meu amigo, foi assim que 
me propus a receber o Ano Novo, tentando equilibrar os dois discursos dentro de mim. Vez em quando, eu me recordo da tica do menino.
  Eu no a desconsidero, ele tem razo! Se a gente no se empenhar na construo de um novo temp, nada acontecer. O Ano Novo ser mesmice: repetio de erros, acomodao 
de posturas, conduo medocre de oportunidades. Exploso de fogos que oferece brilho breve, assustadoramente fugaz.
  Mas no precisa ser assmim: h sempre um motivo novo, abscndito nas velhas estruturas da condio humana. A isso chamamos de evoluo, superao. O menino me 
ajudou com sua tica. Perdi o medo de ser prtico na minha reflexo sobre o tempo.
  De fato nada mudou"! Mas tambm, no posso deixar de admitir que h um evento suave, me conduzindo para o corao do futuro. E assim eu vou: abraando o presente, 
passando o passado, aprendendo com esas dinmica interesasnte - inventada com algum que no sei dizer, que faz o ano velho ser o novo de novo.
   nesse remanso que est o corao de dona Augusta. Para ela, no importa o que diz o calendrio: ooutono, inverno, primavera, vero, no interessa. A estao 
que prevalece  a estao dos sonhos. Sobre a dureza do tempo que nos envelhece, dona Augusta resolveu bordar os sonhos que esto vivos em sua memria. O seu corpo 
j no tem as mesmas destrezas da juventude, mas isso no a condiciona! Ela deve ter
aprendido como poeta que sonhos no envelhecem. A vitalidade de suas esperanas reativa os motores orgnicos de sua corporeidade.
  Para dona Augusta, a mes ad vida est sempre posta. Ela no adia a celebrao, e o mais interessante, em sua mesa h sempre um lugar a ser oferecido. Ela atualiza 
no tmepo o  sugestivo significado da palavra "misericrdia". O servio voluntrio de dona Augusta diminui o sofrimento do mundo. Euas mos pequenas e frgeis a misria 
da humanidade  lavada. Em partes - pequenas partes -, ela redime e redireciona o movimento do tempo. Em dona Augusta, o tempo pode at matar o corpo, mas jamais 
ser de matar os sonhos.
  Meu amigo gabriel, como  bom encontrar pessoas assim! Elas nos enriquecem, agregam valores, promovem mudanas... Sua carta chegou trazendo muita gente assim. 
Alis, sua carta me proporcionou uma pequena viagem literria. Foi interessante reencontrar num texto profundo os personagens de Machado, a tdua retrica e eloquente 
de Padre vieira. De um lado est o escritor que no temeu descrever as maselas humanas. A escrita vigorosa de Machado colocou a luz no subterrneo da condio humana. 
De outro est o homem que cresceu, sob a luz esperanosa da f crist. O que por Machado foi revelado como perspicaz  e hironia, por ele foi refletido a partir de 
rebuscadas teologias.
  A condio frgil e inacabada do ser humano encontra a redeno no evangelho que padre vieira anuncia. Sua palavra est a servio da sperao das consequncias 
do limite humano. Sofrer de limite  destino inevitvel de toda criatura. A reflexo crist busca oferecer sustento neste processo de sofrer.
  Gabriel, sua carta fala de medos, receios... mas hum elemento que perpassa todas as questes: a tristeza. os personagens evocados por voc sofreram na carne a 
fora impetuosa do limite: no foram amados, no foram fiis. E por isso perderam a vitalidade que nos mantm em condies de receber a luz do dia.
  A tristeza  um mistrio. Onde est sua raz:  possvel compreender a natureza da tristeza.
  Nem sempre encontramos resposta, amigo. O que sabemos  que ela costuma estar diretamente ligada  nossa incapacidade de viver, de maneira positiva, os limites 
que nos so imprprios.
  A antropologia de Blaze Pascal sugere o conceito de insuficincia. Esse conceito nos parece mujto mais indicado para alcanar a profundidade do significado desse 
limite humano. Sobre essa antropologia, h um ensaio fascinante de Louis Phelilpe Pondeur. Nele,  possvel mergulhar num contexto riqussimo da antropologia pascaliana.
Logo na abertura da obra, Pondeur nos presenteia com um texto belssimo de George Bernanos, o que h uma associao da tristeza humana a uma queda original. Ele 
diz:
  "Nenhum raciocnio no mundo conseguiria provocar a verdadeira tristeza: aquela da alma. Ou venc-la, uma vez que ela tenha entrado em ns. Deus sabe por qual brecha 
do ser."
  O que dizer? Ela no entrou, ela estva em ns. Cada vez mais eu creio que isso, a quem ns chamamos "tristeza", "angstia", "desespero", como que para nos persuadir 
de que se trata de certos movimentos da alma,  esta alma mesma que, desde a queda, a punio do homem  tal, que ele no seria capaz de perceber mais nada nele 
- nem fora dele -, a no ser sob a forma de angstia.
  No fosse pela vigilante piedade de Deus, parece-me que a primeira conscincia que tivesse de si mesmo, o homem se desmancharia em poeira.
Ou o conceito de insuficincia humana que Pacal desenvolve refere-se  dependncia positiva que o ser criado tem como criador.
  Gabriel, no quero aqui me delongar nessa questo. A reflexo de Pascal pode ter validade ou no. Quero apenas recordar que nossos limites nos colocam nos braos 
da tristeza ( inevitvel!). Ela nos afeta, faz parte da vida. Vez em quando, eu me pergunto: nascemso tristes, ou  a vida que nos entristece? H razo na premissa 
de Georges
Bernanos, a resposta no nos importa. No faz diferena. No h nenhuma teoria que seja capaz de impedir o entristecimento da alma.
  Mas h uma sada. Se no podmeos impedir sua chegada, ento resta-nos administrar o perodo de sua permanncia. Se faz parte de nossa condio original ou no, 
isso no modifica a questo. O fao  que a tristeza existe: bate  nosas porta, entra em nossa vida, configura-nos, expande espao... mas tambm fato que, vez em 
quando, pela fora do prprio tempo, ela faz suas malas e vaj embora.  o movimeno da vida!
  Gabriel, minha me  um livro que no me canso de ler. Dona ana me enriquece, assim como me enriquece a antropologia de Pascal. Semana passada, ela sofreu um acidente 
terrvel: sofreu uma fratura em espiral, que teve incio na bacia, descendo at o fmur.
  Estava pronta para uma fsta. Ao sair de seu apartamento, fi vtima do no funcionamento do sensor que acende a luz do hall. Ao escorar-se na parede, fez um movimento 
que no poderia ter feito> a osteoporose avanada foi a causa da fratura.
  Ao encontr-la no hospital pude ver o seu rosto tomado pela dor. Sua expresso era dew pavor: nunca tinha visto aquela sombra sobre o rosto de minha me. Ela estava 
imobilizada numa maca, esperando para fazer as radiografias. Enquanto eu segurava sua mo, pude ouvir o relato do acidente. Segundo ela, foi a pior dor sentida em 
toda sua vida, nem os  oito partos normais doeram tanto como aquela queda.
  O resgate foi muito sofrido - a maca do resgate no cabia no elevador. Precisaram desc-la pela escada. A cada movimento, uma fisgada de dor, como se as carnes 
fossem dilaceradas pelas facas afiadas, A perna sem controle era o local do seu calvrio.
  Minya me tornou-se o territrio do medo. A insegurana estava em todo seu corpo. Pude ver isso em seus olhos. Assim que ela me viu chegar, o sorriso entre dores 
aconteceu. Choramos juntos: ela me olhava e me agradecia por estar com ela.
  Deitada na maca, notei que minha me escondia em sua mo direita um pequeno pedao de papel. Perguntei a ela o que estava escrito ali, e ela me disse que eram 
os nomes dos rapazes que a resgataram. Com simplicidade e ternura, ela me disse, como se me contasse um segredo.
Quis pegar os nomes deles por dois motivos: "para rezar por eles e tambm para que voc pudesse agradecer-lhes no seu programa".
  Gabriel, naquele momento eu tive a  oportunidade de conhecer um pouco mais da minha me. Era como se eu pudesse abrir mais uma pgina que at ento estava lacrada 
de meu livro de cabeceira. O sofrimento agudo no a impediu de perceber as pessoas que a resgataram. ela no queria que eles cassem no esquecimento. A tristeza 
daquela hora no pde lhe cegar, ela preferiu perceb-los. Rezar por eles era o recurso possvel para que eles no sassem mais de sua vida.
  Minha me e sua insuficincia! Minha me e seu desejo de no perder a oportunidade de vier. Os contrrios, em estado de reconciliao - a vida encontrando redeno 
no pequeno papel embrulhado nas mos que sofrem de insegurana. 3Um papel frgil, temporrio, molhado em suor... os nomes que no revelam os rostos, mas que so 
portadores de uma misericrdia que lhe serviu de suporte no momento da dificuldade. Nomes que no podero ser esquecidos (traos frgeis de uma caligrafia) que j 
esto escritos na alma.
  Meu amigo, aquela sena no poder ser apagada de minha memria. O papel esmagado na mo me recorda uma opo que diferencia um ser humano no mundo. Em tempos de 
desespero, minha me abriu espao para um tempo de delicadezas. Fez a convero, venceu a insuficincia, abriu espao para a prevalncia da sensibilidade que constri 
a fraternidade.
  Dona Augusta e dona Ana so mulheres semelhantes. dona Augusta no se aposenta do trabalho. Ele  o campo de seu cultivo:  nele que ela encontra a vitalidade 
para realizar seus sonhos que ainda aomodam em sua alma. Minha me no trabalha, tem limites demais para isso. mas ela no se importa: o seu labor  outro -  vida. 
E pelo que vejo, ela no tem planos de se aposentar to cedo.
  Outro dia, recuperando-se de um infarto na UTI, fazia planos de passeios para segunda-feira. A voz amolecida pela anestesia no estava desanimada. Era sexta-feira: 
tinha passado por um cateterismo, mas os planos para segunda no estavam desfeitos. Ela no trabalha com a possibilidade de morrer. Para ela, s existe um plano: 
viver! A morte vai chegar ( certo que vai!), mas meu amigo, tenho outra certeza ainda maior: a morte vai encontr-la cheia de planos para segunda-feira.
   assim que me despeo, com a memria feliz que tenho do sofrimento de minha me.  com orgulho e satisfao que lhe entrego essa fatia de existncia, esse pedacinho 
de papel amassado em minhas mos.

  Com carinho e bno,

  Padre Fbio de Melo .


  Dcima Quinta Carta

  Querido amigo
  Sua me  realmente surpreendente. So de rir e de aprender as lies que ela nos ensina. Na UTI, ela faz planos para segunda-feira?  isso mesmo! Marca com as 
amigas e resolve que continuar viva. E se alguma dor vier, ter tempo de reparar em quem est por perto, mesmo a dor mais terrvel.
  O papel amassado com os nomes dos homens que a resgataram se explica no seu desejo de viver. Quem gosta de viver enxerga as pessoas; quem no gosta de viver no 
tolera a convivncia. Viver e conviver so dois verbos que se conjugam conjuntamente. No  possvel viver sem conviver, nem conviver sem viver. A sede de vida  
a sede de amizade.
  Amigo, estamos nessa vida para viver, conviver e buscar  terra Prometida. Voc~e comeou sua carta falando sobre isso. O que seria essa terra Prometida? Nos meus 
tempos de seminrio, escutava um padre que, nas omilias dirias para pessoas simples que madrugavam em busca da eucaristia, nos ensinava piedosamente. Falava muito 
da histria da salvao e do plano de Deus, e falava em Terra Prometida.
  Padre Lajes, hoje com mais de 100 anos,  profundo conhecedor do grego e do latim, detalhista na utilizao da linguagem; pesquisador vido da lngua portuguesa 
e de sua riqueza. , enfim, um homem culto e polido.
Toda essa profundidade se vislumbrava na simplicidade com que ele aplicava e explicava a histria da salvao e da Terra Prometida. "Deus criou o homem e a mulher 
para que fossem felizes; Deus tudo criou. O homem e a mulher resolveram iver longe do amor e ento, viraram as costas a Deus. O homem e a mulher so livres para 
amar e deixar de amar.
Deus  amor e, portanto, resolve resatar mulheres e homens que, distantes do Paraso, distanciam-se da prpria razo da existncia humana: a felicidade."
  Padre Lajes no entrava em detalhe das teorias possveis para explicar a criao, nem se utilizava de razes filosficas para justificar a hermenutica bblica, 
que no  onssona. Continuava na simplicidade, como bom sacerdote, seguidor de cristo (o homem das parbolas). "Deus chamou Abrao que se tornou abrao de um pai 
e de um grande povo. Depois dele Isac, a grande prova da f. Prosseguiu o patriarcado. Depois Jac, depois Jos, e a chegada do povo ao Egito. Deus chamou Moiss 
para que o povo continuasse em busca da terra prometida. E Moiss libertou o povo e com ele, caminhou para o deserto. E no deserto, o povo sofreu; e no deserto, 
o povo se recordou do tempo da escravido e, por incrvel que parea, teve saudade."
  Moiss no chegou a entrar na Terra Prometida. Foi Josu quem continuou a misso. Mas que terra era essa? A terra do leite e do mel? A terra da esperana? Talvez 
a terra da espera! Era a espera do redentor que unia mulheres e homens to diferentes. Era a espera da felicidade.
  E nasceu o redentor, e de forma simples nos ensinou a cruzar a ponte que nos devolve ao Paraso. O paraso no  um lugar e a ponte no foi feita de concreto. 
Muito sangue foi derramado para que a ponte fosse construda e para que, livremente, pudssemos decidir cruz-la. A ponte que nos leva ao paraso, de nossas intenes 
e de nossas aes, est pronta.  preciso atravess-la e a deciso  individual. E se renova
todos os dias.
  O passado,m como voc colocou, nos acompanha. A promessa de futuro tambm. Mas a deciso est no presente.  hoje - exatamente hoje - que eu tenho de decidir se 
vou o se fico: se me lano na paradisaca experincia da vida ou se aguardo a morte em uma UTI.
  Fazer planos para segunda-feira  decidir percorrer a ponte. Enxergar quem est ao lado , de igual maneira, percorrer a ponte: percurso necessariamente recorrente. 
 um caminhar que se repete em uma atitude que se renova. O paraso ou a Terra Prometida  o amor!  o amor em plenitude.
  Naquelas celebraes matinais, eu ia sendo moldado. Somos barro, amigo! Barro que se molda por escultores que surgem  nossa frente. Os escultores so instrumentos 
do amor maior e quando damos autorizao, obras primas so edificadas.
  Em alguns dias o calor nos fazia companhia; em outros, a madrugada fria nos desafiava. A disposio interior, entretanto, era a mesma. Pedaos de dores, angstias 
adolescentes, perguntas sem respostas.
Alguns jovens, naquele espao sagrado, confessavam as drogas que amarravam aos ps antes da ponte. Outros falavam no de substncias qumicas que viciam, mas do 
vcio da ausncia de tema.
  Uma vida sem tema no  uma vida que merea aplausos. O tema da vida est muito alm das agendas lotadas para dar alguma importncia ao tempo. O tema da vida est 
na razo da prpria vida e na sua administrao.
  Voc~e disse que, quanto ao entristecer da alma, se no podemos impedir sua chegada,  preciso administrar o perodo de sua permanncia. As mulheres e os homens 
do deserto sentiram saudade da escravido. Essa saudade da escravido  a felicidade adormecida. Escravizamo-nos em detalhes que no conseguimos compreender. A raiva 
vem com tamanha veemncia e velocidade, que nos pega desprevenidos. Magoamos desnecessariamente, remoemos informaes apressadas, mudamos o humor por detalhes.
   evidente que os detalhes tm importncia, mas sua importncia maior est em dar  vida uma potica nova. Um toque de delicadeza da mulher amada  um toque que 
reanima! O sorriso de uma criana um detalhe que enche de esperana. Um entardecer  um detalhe carinhoso no majestoso espetculo da vida. Esses detalhes merecem 
ateno. H outros, como um tropeo qualquer, um olhar estranho, uma palavra ameaadora, um livro com razura. Seria melhor que o livro no tivesse razura, mas  
possvel continuar a leitura. Deixar o que vem pela frente ocm a desculpa da insatisfao para novidades indesejadas  sabotar novas aventuras.
  No era assim que as crianas faziam quando sentiam perturbadas? "No quero mais brincar!" E pronto: um pouco de choro e colo! J[a ,iotp da croam a ser reservado 
em ns, mas no esa birra intil. Vamos pular a negao e ir direto para o colo: isso  necessrio ao choro. Mas deixar de brincar  bobagem. Deixar de prosseguir 
a leitura no colabora com nada.
  Lembro-me de que, quando era iniciante na carreira do magistrio, aos 15 anos de idade, havia ficado chateado com uma vice-diretora da escola em que eu lecionava. 
Eu queria fazer uma atividade com os alunos no ptio, e ela havia me proibido, dizendoq ue eu no receberia o salrio se ficasse enrolando, fora da sala de aula. 
Como me senti profundamente ofendido, resolvi que no assinaria o livro de ponto e que trabalharia
gratuitamente, para mostrar que a paixo contra o meu ofcio independia do salrio que eu receberia. Eu era professor eventual, ganhava muito pouco.
  Passadas algumas semanas, ela, mais experiente, rriu para mim e disse que nada mudaria na vida dela se eu no recebesse o dinheiro. No era ela quem me pagava.
  Eu sabia, mas queria dar uma lio - ou melhor, eu queria chamar a ateno. Eu e o meu grito carente que dizia: "No vou assinar!" Sinnimo de "no quero mais 
brincar". Era a criana mimada querendo ateno. Essa criana volta sempre quando nos sentimos perdedores 
  Um jovem, certa feita, lembrando de seu tepo de marginalidade, narrava o prazer que tinha em fazer com que todas as pessoas de seu bairro abaixassem a cabea quando 
passassem por ele, como um ritual de subordinao. Como fazem os ces diante do lder da matilha. E assim ele se sentia um vencedor, um homem poderoso... No decorrerda 
histria, ele mesmo foi narrando o que era ter poder e o que era vencer.Deitar e dormir, brincar com os filhos, pedir perdo sem vergonha nem disputas com a mulher... 
Trabalhar, voltar paracasa, brincar com o cachorro,... coisas simples de um cotidiano simples. A est a vitria!
  "Quero voltar  educao", eu dizia de meus primeirosensaios como professor. Aos poucos, fui ganhando espao e aplicando teorias que me atestavam ser o afeto a 
grande alternativa para que a relao de ensino e aprendizagem pudesse de fato ocorrer. J escrevi muito sobre esse tema e continuo clamando aos mestres que no 
desconsiderem a presena do amor na relao educativa.
As estratgias podem ser racionais, mas a transformao  afetiva,  emocional.
  Quando tomei posse na Academia Brasileira de Educao, e sucedi a notvel educadora Ester de Figueiredo Ferraz, vali-me de um trecho de um discurso feito por ela, 
quando assumiu um cargo de Secretria de Estado da Educao de So Paulo.
  "O de que me envaideo no ser, podem cr-lo, haver atingido o pse dessa carreira no desempenho de minhas atividades univeersitrias. Mas sim em t-la iniciado 
por onde a iniciei, numa pequena classe de um grupo escolar de Santo Amaro, onde meninos descalos de roupas remendadas e umedecidas pela garoa do planalto, tiritando 
de frio ou cheirando a suor, disputavam o privilgio de enfeitar com uma flor. Provavelmente a arrancara do jardim da pracinha  fronteira,  minha tosca mesa de 
trabalho.  preciso dizer mais alguma coisa?"
  Essa mulher foi pioneira em muitas reas. Foi a primeira a assumir a ctedra na Faculdade de Direito das Arcadas; a primeira mulher a atuar no Tribunal do Jri; 
a primeira a ser reitora em uma universidade; a primeira a ser Ministra de Estado. Mas a sua maior vitria, amigo, foi a de ser professora em uma pequena classe 
de um grupo escolar!
  A est a alma livre de quem gosta de viver, e eu tive o privilgio de tomar caf com ela em muitas tardes em nossa Academia de Letras, , no Largo do Arouche.
  Sempre delicada - quase que escondendo a mulher guerreira em uma doce contadora de histrias. Uma mulher livre e apaixonada. Em outras palavras, como dizia Olavo 
Bilaque (patrono da cadeira 34 da Academia Brasileira de Educao, que agora  minha): "S quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e entender estrelas."   o amor, 
amigo.  sempre o amor, a partida e a chegada!
  A terra prometida est muito mais perto do que ousamos imaginar. A ponte no dista muito tempo de onde estamos.  no lugar em que vivemos que experimentamos o 
sabor da vitria. Vitoriosos somos quando emprestamos  vida a nossa parcela de responsabilidade.
  Uma flor enfeitando uma mesa de trabalho faz o convite: "Carpedien!" Hoje, agora, neste momento, aproveitemos o dia, aproveitemos a ocasio! Cada coisa no seu 
tempo. A linda metfora bblica das aves do cue dos lrios do campo.
  Ouvi certa vez o depoimento de um homem que no se perdoava porque, quando perdeu o pai, no conseguiu dizer a ele tudo o que queria. Ele estava chegando em casa 
quando soube da internao do pai: estavam brigados. Ele amava muito o pai, resolveu ir at o hospital,. Desistiu. Quis saber se era de fato srio. Se fosse, ele 
ia se desculpar e dizer ao pai o quanto o amava. Se no fosse srio, aguardaria o pai sair e esperaria que ele desse o primeiro passo para a reconciliao.
  No houve tempo, amigo! Enquanto ele fazia coaes mentais para saber como concluir quem faria o qu, o pai se foi, e o tempo da delicadeza no pde ser experimentado.
  Um dos grandes caminhos para a vitria  o reconhecimento do que somos. Na quarta-feira de cinzas, quando recebemos o p, nos lembramos de onde viemos e para onde 
iremos. Muitos mistrios nos sondam, muitas perguntas sem respostas convivem conosco. Maso fato  que todos ns - ricos ou pobres, elegantes ou bregas, gordos ou 
magros, eruditos ou populares -, haveremos de partir.
   isso que nos faz reconhecer. Com Fernando Pessoa, que nada, absolutamente nada somos.
  "No sou nada, nunca serei nada
  No posso querer ser nada."
  Esse  o incio de Tabacaria, um de seus mais famosos poemas.  a constatao de que todo poder  mesquinho quando nos encontramos a ss com a miserabilidade humana. 
No somos nada. Somos um sopro que ganhou vida; somos a fragilidade que rui diante de uma batida mais forte, de uma pedra atirada no ponto certo.
  Hoje respiramos e amanh no. Durante o sono despedimo-nos, sem nos despedir. Uma queda de presso,, um susto, um tropeo ou uma fasca de dor... E mais nada!
  Podemos aquinhoar milhes ou bilhes de qualquer dinheiro, e mesmo assim, no teremos direito de postergar nossa despedida. No compramos a passagem, nem estabelecemos 
o dia ou o horrio, nem a forma. Nem isso.
  Uma queda de avio pega desprevenidos os viajantes em busca de descanso. Uma carreta na frente de um carro encurta a viagem, um desabamento. Alm das doenas tantas 
que misteriosamene vm e levam. E vo depois de vencidas temporariamente pela inteligncia humana.
  Tememos a doena que nos diminui. Ter de ser lavado por algum, perder os controles bsicos do defecar e do urinar; encomodar com as feridas abertas pela peste; 
com acidentes movimentos se vo. E a vida se torna de Nov desafiadora. O belo fica feio e o feio  capaz de ficar belo. Se  assim, se no somos nada nem nunca seremos, 
por que a arrogncia? Por que a mesquinharia em um ar de superioridade incomodativa? 
  Tenho pavor de gente que humilha gente.   Leiam Pessoa!
  "No sou nada, nunca serei nada."
  Leiam de novo!
  "No sou nada, nunca serei nada."
  E mais quantas vezes forem necessrias. Leiam Pessoa os crticos de planto, os fofoqueiros e futriqueiros, como queiram. Leiam Pessoa os sujos, os que se emporcalham 
na avidez de emporcalhar os outros. Leiam Pessoa os que maltratam aqueles que servem. Todos deveriam experimentar o frescor agradvel do servir. Leiam Pessoa os 
que teimam em conviver com a invisibilidade alheia. Leiamos Pessoa todos ns, que escorregamos quando se trata de disputar o poder com quem quer que seja;
  Mas o poema continua... Se ficssemos apenas na negativa do que somos, e do que seremos, negaramos a prpria razo da existncia.  parte isso, tenho em mim todos 
os sonhos do mundo. Que tese sobre a vida em uma nica frase!
  Meu amigo, depois de constatar que no somos nem nunca seremos nada, Pessoa nos alivia com a gua fresca dos sonhos.
  "Temos em ns todos os sonhos do mundo. E s etmos porque primeiro nos esvaziamos. Antes de saber que os sonhos do mundo moram em ns prque precisamos concluir 
que no somos nada.
  Eu s  me reconheo quando retiro os enfeites dos penduriclios. Eu s vejo a minha imagem sem maquiagem. Os enfeites, os penduriclios, as maquiagens nada so. 
Eu sou! Eu sou porque sonho E todos os sonhos do mundo cabem em mim."
   uma forma de dizer que somos todos irmos, vindos de um mesmo barro e em busca de uma mesma terra prometida.  o "cruzar a ponte" molhando os ps. Sim, a gua 
fresca dos sonhos nos alivia.
  O poema  longo. Apenas mais um trecho:
  

"Janelas no meu quarto
  No meu quarto e em milhes do mundo
  Que ningum sabe quem .E se soubessem quem , por que saberiam?"
  Talvez um crtico literrio lendo esses comentrios dir que eu tento cristianizar Fernando Pessoa, como os medievais tentaram fazer com os antigos. No  esse 
o meu intento, nem  esse o momento para tratarmos da complexidade do homem Fernando Pessoa com tantas facetas e tantas angstias. Do homem misterioso, sofrido (e 
quem no ?).
  Julgamentos de vidas e de dor talvez sejam precipitaes de quem esconde a prpria dor.  comum ouvir que Fulano ou Cicrano sofreu muito. Ora, e quem no sofreu? 
Alguns ganharam notoriedade com a sua dor; outros deixaram-na trancada. Mas ningum passou - ou passa - por essa estrada imune  dor.
  Quero convid-lo, Padre Fbio, para visitar as janelas do quarto do poeta. O quarto ele, como ele mesmo diz,  um dos milhes do mundo que ningum sabe quem . 
Mas mesmo assim, vale a pena isit-lo.
  Quanta gente conhece a sua me? Centenas de pessoas? No mximo milhares? E voc  capaz de chorar por ela e de sorrir, contando as suas histrias?
  Quantas pessoas conhecem a minha me? No muitas. Mas para mim a sua janela tem um significado especial, essencial: o seu olhar. O seu colo, as suas palavras... 
Tudo isso desperta emoes que me so vitais. As batidas do seu corao fazem toda a diferena quando deito em seu colo. Como seria o meu mundo sem essas batids?
  Quando o poeta fala de sua janela depois de ter falado sobre os sonhos, e depois de ter constatado que nada somos, veremos com vida a perceber que as pessoas comuns 
- todas elas - tm janelas. Mesmo aquelas que vivem nos pores. Vivem por ignorncia, no por ausncia de janelas.  s subir,  s abandonar o que nos leva para 
baixo, e essas janelas estaro abertas para a eterna novidade da vida.
  As ruas embaixo das janelas no hesitam pessoas. Nas pessoas, vivem sentimentos contraditrios, como contraditrias so as estaes. Alguns caminham com direo 
certa; outros, sem rumo definido. Alguns apertam o passo com medo da chuva repentina; outros encontram prazer em se molhar, outros aina nem pensam nessas coisas. 
Alguns sentam como se buscassem saber quem est por trs da janela. Esses so poucos, amigo. Muito poucos! At porque h muitas janelas.
  Somos bilhes de nada e de tudo; somos p e ao mesmo tempo capazes de ouvir estrelas. Pessoas e Pilatos,: os romnticos e o parnasiano romano. Nada de derrotismos! 
Ser p e fazer parte de um universo encantado - e o encantamento vem exatamente do romantismo ou diante da vida simplesmente da nossa janela.
  Amigo, essas minhas divagaes nascem de algumas certezas de muitas dvidas. As certezas eu j expus: ningum  melhor do que ningum. Ningum recebeu um bilhete 
de viagem que deu direito de pisar no outro para contemplar a paisagem. Nada de ser superior ou mais inteligente, muito menos de raa superior.
  No h cidado de primeira ou de segunda categoria. Por isso gosto da acertividade cortante de Pessoa. As dvidas me convidam a continuar a viver.
  O que faz com que, mesmo sabendo que s quem ama pode ter ouvido capaz de de ouvir estrelas, os meus irmos humanos tm um tanto de dificuldade em cunjugar o verbo 
amar. Quantos problemas teriam evitado quanto  vida que teria poupado da dor com essa conjugao?
  Junto do verbo amar, voltamos aos dois com os quais iniciamos esses dois rabiscos: o verbo viver e o verbo conviver. Se voc quiser, podemos elencar outros: o 
verbo acolher, o verbo compreender, o verbo participar, o verbo partilhar, o verbo prosseguir. Verbos que fazem bem s de pensarmos neles.
  Ouvi de uma jovem escritora, de 91 anos, Tatiana Belin, a seguinte provocao: "Pense em qualquer coisa, qualquer coisa sem palavra."  possvel?  possvel pensar 
sem usar a palavra?
  "Ento", disse ela, "comece respeitando sua majestade, a palavra."
  Tudo nasceu do verbo: o padre, das minhas manhs adolescentes, falava tambm da criao e falava do verbo. "E no princpio era apenas o verbo; e do verbo se fez 
carne e habitou entre ns." A notvel escritora Nrida Pion, em aprendiz de Homero, revela: "Nasci escritora, nasci leitora."
  Os traos e as idiocincrazias   inerentes a ambos os estados acompanham-na e sempre. J na infncia tinha apetite pelas palavras escritas ou faladas. Olhava os 
escritores de forma agradecida."AAqueles seres responsveis pelos livros de lombadas atraentes e capas coloridas forravam meu imaginrio com tnues sonhos. Livros 
que me prorrogavam a existncia e impediam que casse nas malhas do banal."
  Este  um ensinamento fundamental: no permitir que a nossa vida caia no banal. Ler Dolstoievki, Tolstoy, ou ouvir as histrias de Rosa, ou de dona Ana, ou de 
dona Nice, beber em Padre Vieira ou em mulheres e homens, finas praas nas esquinas oferecem o paladar apurado pelo tempo. Tudo isso nos tira do banal e nos empresta 
ornamentos                 para nossa travessia.
  Amigo, quando escrevo para voc, escrevo para mim tambm. O verbo vai ganhando autonomia, as palavras so desafiadoras. Fico pensando se, de fato, eu paro, nem 
que seja em algumas janelas, para contemplar as vidas que se escondem por detrs dos vus das cortinas. Quantas vezes negligencio o sentimento de pessoas que amo 
por falta de tempo. Mas... se no for para amar, para que serve o tempo? Para preencher agendas? Para preencher anotaes e compromissos? Para ter certeza de que 
nos procuram? Quem nos procuram? Seres visveis ou invisveis?
  Vamos na certeza de um caminhar acompanhando ou em busca apenas de um espao para mostrar que no somos p. No quero dizer que no se possa fazer sucesso ou buscar 
vencer os desafios. Falo de alguma coisa mais tnue, mais corriqueira, mais essencial.
  A matria prima de que fomos feito so duas, paradoxalmente duas: p e amor. o p nos explica a nossa existncia; o amor, a nossa essncia.
O p nos iguala, o que  necessrio; o amor nos identifica, o que  essencial. Fazemos parte da multido e somos nicos. Fernando Pessoa  apenas um. Olavo Bilaque 
tambm. Dona Ana, sua me, jamais ter uma cpia. Nem dona Nice, minha amada me. So igualmente frgeis, so nada. So igualmente fortes: carregam cada uma, a seu 
modo, todos os sonhos do mundo.
  O dia j est se despedindo e eu gostaria de sonhar com esta construo potica: todos os sonhos do mundo. A poesia no se explica, vive-se. Venha vier comigo, 
meu irmo! Nessa busca pela terra prometida, no seriam esses todos os sonhos do mundo? O paraso? Mas onde mesmo mora o paraso? Ah, ns  que moramos nele? E onde 
moramos ns? Atrs das janelas? E onde fica a tal ponte?
  Aguardo sua resposta, mas ouso uma tentativa: vive muito mais perto do que podemos imaginar.
Que o seu amanhecer surja com sabor de poesia.

  Com carinho,

  Gabriel.

  Dcima Sexta Carta

    Meu querido Gabriel,
  Obrigado pelas janelas do poeta. Elas me fizeram recordar de um velho hbito das mulheres da minha terra. Elas se debruavam nas janelas em fins de tarde. O objetivo 
era um s: conciliar um mundo particular com um mundo de todos.
  A casa era o lugar da segurana. Os ps firmados no territrio de sua posse lhes permitiam conceder viagem aos olhos. Entre a firmaza dos ps e a liberdade dos 
olhos, estava posta a janela.
  Meu querido, as mulheres so portadoras de virtudes que nos educam para este equilbrio, realidade e sonho. A janela  o local de reconciliae das duas realidades.
 VVoc falou de "terra pormetida".  um dos coneitos mais sugestivos do Antigo Testamento. O povo se rene em torno de uma nica promessa: a escravido era fim. 
 um espao preparado.  espera,
marcado por fertilidade e alegria. A realidade  a escravido, mas o sonho comporta uma terra fabulosa. o sofrimento do exlio s  suportvel porque h uma promessa 
anunciada: a terra os espera. um lugar onde a escravido no mais existir; um lugar frtil, com espao para todos. Mas para se chegar  concretizao dessa promessa, 
h u, caminho que precisa ser percorrido.  
  O papel da mulher  de fundamental importncia na vivncia desse processo. So elas as responsveis pela manuteno do esprito livre no corao de maridos e
filhos. As correntes que cerceavam o corpo no poderiam atingir as subjetividades.  cuidado especfico de mulher a manuteno da esperana.
  Gabriel,  interessante perceber que as caractersticas da terra prometida nos reportam ao contexto do feminino. A promessa nos fala de leite e mel, dois elementos 
que nos colocam nos braos das primeiras experincias que fizemos no cuidado humano. O leite nos lembra o primeiro alimento; o mel nos lembra a doura do amor materno.
  Gabriel, sei o quanto sua me foi importante na construo do seu carter. Grande parte de sua forma sensvel de olhar para os acontecimentos foi aprendida no 
colo de Dona Nice. Eu tambm posso dizer o mesmo: foi minha me a principal responsvel pelo meu jeito de ser gente. Nossas terras prometidas foram anunciadas por 
vozes femininas. 
  Arrisco dizer que ainda hoje essas mulheres continuam nos conduzindo pelamo. As mulheres nos ensinam o simblico, enquanto os homens so especialistas em nos 
ensinar as questes prticas,
elas nos preparam para lidar com o que da vida no se explica. Talvez seja por isso que a lembrana da me nos ocorra, sobretudo nos momentos da dificuldade. Ela 
nos recorda cuidado, segurana, proteo.
  Meu amigo, faz pouco tempo que eu tive a oportunidade   de conhecer a histria de uma pessoa encantadora: Flor Deles. A poesia do nome se estende pela prosa da 
vida: ela  mulher! Espao humano onde a esperana encontroou o seu espao
para crescer, lanar raz. Cresceu tanto que oferece cestos aos que dela se aproxima. Cumpre na carne a proeza de ser simblica.
  Territrio que proporciona o encontro da poesia com a atitude.
 Flor de Liz nasceu na favela, cresceu num ambiente marcado pelas restries - carncia material que no teve o poder de empobrecer-lhe a alma. Desafiou a regra 
simplista que acredita na predestinao que o espao fsico pode impor ao ser que o habita.
  A pobreza material no precisa atingir o esprito. Grandes homens e mulheres nasceram de contextos altamente restritivos. Machado de Assis  um exemplo. Tinha 
tudo para dar errado, mas no deu.
  Flor de Liz  um nome bonito. Remete ao contexto da poesia do mestre Djavan. Ao lamentar a morte de seu jardim e ao constatar que suas riquezas esto ressequidas, 
sepultadas pela fora finalizante da morte. Cano que tem como ponto de partida o discurso da falta, impossibilidade de um amor terminado.
  Esperanas findadas, imposio de um destino que disse "no" quele que desejava ser feliz.
  Mas Gabriel, h um detalhe interessante. Oas ouvidos desavisados, a cano parece ter nascido de motivos felizes.  que a beleza da melodia no nos permite perceber 
a tristeza da letra. Coisas de Djavan! Virtude de conseguir revestir de leveza o que  naturalmente pesado e sofrido.Mestria que o poeta tem de tocar as feridas 
com dedos leves. Ofcio de aliviar os pesos que so colocados sobre os ombros da humanidade.
  A poesia de Djavan est costurada nos motivos que envolvem a personagem desta histria que conto.
  Flor de Liz  apaixonada pelos jardins que esto aparentemente mortos. Aprendeu a se aproximar das viacruces da vida: subiu morros, desafiou traficantes, converteu 
dio em amor. Fez alquimia no corao dos violentos. Ofereceu ternura aos que antes no conheciam a fora restauradora da palavra que tem o dom de bem-aventurar 
- isto , colocar no caminho do bem.
  Pelo que pude perceber, Flor de Liz no  uma pesso que tem muitos recursos: ela s acredita no poder da palavra. Basta uma palavra para mudar,. Este  o subttulo 
do filme que relata o seu desejo de reflorecer o espao humano.
  Gabriel, essa mulher, nascida no morro, acredita que o mundo pode ser recomeado a cada palavra dita. Eu confesso que no a conhecia! Fui impactado pela sua histria 
quando casualmente, eu a encontrei em um canal de televiso. A entrevista girava em torno de sua tentativa de melhorar as estruturas da sociedade em que est situada.
  Ela no estava sozinha: estavam com ela o marido e uma infinidade de crianas que ela chama de "filhos". Mostrou como funciona sua casa: um ambiente mantido com 
a generosidade de pessoas que acreditam em sua iniciativa. O lar de Flor de Liz  um canteiro de crianas rejeitadas. Elas so muitas!
  Fiquei comovido com a histria de Rayane, uma menina que contou ter sido jogada fora pela me biolgica, assim como se joga um objeto indesejado. Durante o relato 
do abandono, os olhos da menina estava inundados de lgrimas. Motivos diversos... Mas o que prevalecia era a gratido.
  Flor de Liz a encontrou. Ofereceu maternidade, colo, aconchego, lugar teraputico onde o passado seria esquecido, coisa que s o amor pode fazer acontecer.
 Acho interessante e sugestivo fazer este paralelo: a Flor de Liz do morro com a Flor de Liz de Djavan. A poesia dos gestos diante da poesia das palavras. A mulher 
concreta, militante, atuante, diante da mulher forjada, nascida da sensibilidade do mestre alagoano. A Flor de Liz do morro faz com a vida dos seus filhos o mesmo 
que o mestre Djavan fez com a histria triste que  a matria prima de sua cano: ela a reveste de melodia feliz.
  O lar de Flor de Liz  um canteiro de histrias tristes; mas l, quem prevalece  a alegria. A forma. A palavra que ela escolheu para nortear a vida de seu lar: 
o amor. A palavra que diz, como bem ensinou o outro alagoano, Graciliano Ramos.
  Flor de Liz tem semelhanas com Sinh Vitria, a herona de Vidas Secas, que j foi palta de nossas conversas. Flor de Liz tambm se desdobre para que a vida no 
seque. Ela  portadora da palavra que alivia a aridez dos caminhos. Ela  representante da bondade: descobriu que o mal j tem adeptos demais, quis fazer a diferena. 
E fez! E faz!
  Meu amigo, Flor de Liz  uma proposta humana que no quero perder de vista. Ela traz no corao e na mente o cdigo que distingue um ser humano de todos os outros. 
Flor de Liz  uma cano bonita que quero escutar sempre, assim como escuto "a Flor de Liz de Djavan".
  O mundo carece dessas composies. So elas que nos resgatam de nossos pessimismos cotidianos. So elas que nos provocam para dizer a palavra que pode recobrar 
a harmonia perdida. So elas que nos indicam que ainda h um lugar a ser buscado, uma terra feliz a ser construda.
  Volto ao homem insuficiente da antropologia de Pascal e sua dependncia radical da transcendncia. Volto  questo da invisibilidade das pessoas, ao contexsto 
de dependncias positivas que ligam os seres humanos num helo universal. Cadeia onde os gestos humanos se transformam em atualizao, da interferncia divina no 
tempo. De um lado o conceito da transcendncia de Deus; do outro, o conceito que nos reporta  sua emanncia histrica.
Gabriel, a bondade humana  o instrumento que purifica as estruturas do mundo: ela nasce de uma graa superior concedida. O bem que podemos fazer  o desdobramento 
de um bem que nos foi dado: o amor. Como o que a gente ama  consequncia de um amor divino que nos foi oferecido. O amor me ama!  E no ato de me amar, me concede 
o dom de amar tambm. Quanto mais eu estiver nele, maior ser a possibilidade de apressar sua ao amorosa.  consequncia!
  A principal misso das religies  aproximar a condia humana dessa relao maravilhosa. A religio precisa nos preparar para o amor. Falo do amor, mas profundo, 
do amor gape: o que nos coloca em condies de viver de maneira gratuta - a doao ao outro. O amor que tenho a Deus precisa ser desdobrado no amor aos meus irmos. 
 imperativo tico, meu caro. A experincia ritual que a religio prope tem sempre um vnculo com a vida prtica. O Deus que cultuamos est sempre presente no rosto 
que encontro pelos caminhos da histria.
  Gabriel, j falamos tantas vezes sobre isso...  recorrente, eu sei, mas  impossvel no voltar a essas questes.  lamentvel ver o discurso religioso sendo 
usado como se fosse um armamento blico. Lideranas religiosas empenhando seus livros santos como se fossem armaspara derrotar os que professam outro credo. Igrejas 
se levantando umas contra as outras. O discurso religioso reduzido a um tom agressivo, partidrio, desejoso de reunir fiis, mas no para promover a paz, a concrdia. 
Discurso que tenciona aglutinar pessoas com um mero objetivo de demonstrar soberania e poder.
  Acompanhei com muita ateno e fiquei bastante comovido com a visita que o papa Bento XVI fez a Israel. V-lo rezando no Muro das Lamentaes, lugar sagrado para 
os judeus; v-lo dialogando com importantes lderes muulmanos foram importantes atitudes que marcaram positivamente a sua viagem. Fiquei feliz com sua iniciativa 
corajosa em falar do Deus da paz, na capital que  de fundamental importncia para as trs maiores religies do mundo. Nisso, somos todos iguais. Todos ns queremos 
um mundo melhor - mais amoroso, mais ordeiro, mais pacfico.  iniciativa do papa a necessidade para a cena d eum novo tempo.
  O encontro com as outras religies no nos retira a identidade crist; ao contrrio, firma-nos ainda mais para estabelecer comunho com os que crem diferente. 
Eu no preciso abrir mo de minhas convices de f. O encontro deve nos mostrar o que temos em comum.  a partir deste respeito que a fraternidade  possvel.
  Meu amigo, eu no sei qual  a religio de Flor de Liz. O que sei  que nela reconheo o vulto de Jesus. A sua iniciativa me faz recordar a opo de Jesus. Ao 
recolher os miserveis de seus suybmundos, ela se transforma num instrumental da ao de Deus. Por ela Deus passa, ultrapassa os humbrais do cotidiano e acontece. 
 a continuidade da encarnao do verbo,  Deus acontecendo no mundo por uma atuao humana. Flor de Liz  a concretizao da expresso litrgica que reza: "Ele 
est no meio de ns".
  Dona Zilda Arms  um outro exemplo de nossos dias. A Pastoral da Criana  um movimento conhecido mundialmente. Voc sabe disso. Por ocasio da morte da Doutora 
Zilda, eu fiquei surpreso com o respeito com que crdulos e incrdulos falaram de seu trabalho.  simples: a caridade est acima das definies religiosas. At mesmo 
os ateus se renderam  forma que essa mulher encontrou para viver e praticar sua f.
  Gabriel, tenho conhecido instituies fantsticas, todas elas comprometidas com causas nobres. Elas nascm motivadas por razes diversas, mas  muito comum encontrar 
instituies que nascem motivadas pela superao dae alguma perda, de algum sofrimento.
  Faz pouco tempo que tive a graa de conhecer de perto a Sociedade Viva Casusa. Iniciativa conhecida e j liderada por Lucinha Arajo, me do poeta que deu noem 
 casa que abriga crianas portadoras do vrus HIV. Andando pela estrutura, gentilmente acompanhado por Cristina - uma das lideranas que Lucinha trouxe para o trabalho 
-, pude experimentar um sentimento bom, que me fez concluir: o mundo tem jeito! No h pessimismo humano que sobreviva quele lugar.
  O aspecto  de casa, em nada podemos reconhecer o molde tradicional que prevalece em instituies de caridade. No h a prevalncia de tons pastel; as paredes 
so vivas, cheias de detalhes que pertencem  vida daqueles que ali moram: ursinhos, bandeiras do Flamengo, bonecas, psteres de artistas consagrados... Tudo nos 
sugere que as crianas so consideradas em suas particularidades.
  O espao pblico se esfora para tambm ser particular, jeito simples de permitir que a criana no se sinta perdida no mundo, j que h uma orfandade negada, 
comprovada, documentada. O desafio  fazer com que a orfandade dos documentos no alcance a vida prtica.
  Os agentes dessa proeza so muitos. So funcionrios, voluntrios, artistas, amigos que conhecem a luta diria que a instituio trava para que esse lar construdo 
no feche as portas.  gente que se empresta em generosa participao, manuteno de um sonho nobre. Sonho que nasceu da dor de perder um filho, no momento em que 
a vida foi dissonante na palta, tornando o canto triste e solitrio, quase insuportvel. Assim como Djavan, Lucinha Arajo tambm revestiu sua dor de melodia feliz.
  A Instituio Viva Casusa  uma reao criativa da mulher que tem rosto conhecido, ficou definitivamente imortalizada no filme que narrou a trajetria do seu filho: 
O COntroverso de Casusa.
  Meu amigo, Lucinha Arajo  portadora de um sorriso bonito, marcado por uma timidez enganosa (de tmida ela no tem nada, ela  destemida!). Descobriu na solidariedade 
instrumental que precisava para superar a perda do filho nico. viveu um parto s avessas. Ao sepultar o seu principal vnculo com o mundo, apressou-se em ressuscit-lo 
atravs de uma iniciativa que  muito mais que paredes de tijolos. O espao criado por ela recebeu a marca de um filho que ela viu partir. 
  Justa forma de manter-se presa ao motivo inicial. E nisso est a diferena. Atravs da sociedade, Lucinha traz Casusa de volta ao mundo.
  Gabriel, atravs daquelas crianas, Lucinha retira o filho da morte. Corrige o passado, reconcilia-se com sua dor, volta a ser feliz. Interfere no processo humano 
de pessoas que at ento. no faziam parte de seu mundo, de seu contexto, de seu horizonte de sentido. A sua luta no se limita ao cuidado primoroso que tem com 
as crianas que so vtimas dessa herana cruel.
   preciso ir alm!  preciso alcanar a causa que gera o problema, mediante campanhas que conscientizem que a disseminao do vrus  um problema social grande 
e grave,  o retorno do poeta. Ele no morreu, retorna sem seus exageros, sem seus abandonos, sem suas misrias. Retorna iluminado pela atitude materna que o redome.
  A Sociedade Viva Casusa sobrevive de doaes. Precisa de coisas simples: remdios, alimentos, roupas, servios. Precisa de tudo o que faz parte do cotidiano de 
uma criana. A iniciativa de Lucinha carece de contagiar outras pessoas.  a corrente que o bem pode estabelecer.
  Ela sabe disso. tem conscincia de que no poder cuidar sozinha da obra que sua dor fomentou. Por isso ela vive de braos estendidos para receber os que dela 
se aproximam para ajud-la.
  A obra de Lucinha no tem preconceito religioso; da mesma forma que a Pastoral da Criana no recusa cuidar de crianas de outras religies. A Sociedade Viva Casusa 
acolhe todos, no importa qual seja a religio da criana. O que importa  o quanto ela precisa de ajuda.
  Gabriel, eu me recordo de que, ao divulgar a minha visita  sociedade Viva Casusa, pessoas do Brasil inteiro manifestaram carinho e respeito  instituio. MAs 
no mesmo dia, algum fez questo de encaminhar um e-mail preconceituoso, falando absurdos do poeta. Minha resposta foi simples, e aqui eu a reproduzo:
  "A mim no interessa o que Casusa fez ou deixou de fazer de sua vida. A mim interessa,  o que sua me fez e faz a partir de sua morte."
  Meu amigo, estas so algumas das mulheres que carregam sobre os ombros os sonhos do mundo: Flor de Liz, Lucinha, Zilda Arms... So alguns nomes que nos recordam 
que, enquanto muitos esto adormecidos, mergulhados no sono letrgico do conformismo, elas esto empenhadas na construo de pontes. Vez em quando elas favorecem 
minha travessia.
  Gabriel, aceito o seu convite: vamos buscar juntos a Terra Prometida. Tenho certeza de que no iremos ss. Prossigamos no exerccio do amor; quem sabe assim, a 
gente aprenda a ouvir as estrelas.

  Com meu carinho e bno,

  Padre Fbio de Melo.

  Dcima Stima Carta

Querido Padre Fbio
  Sua bela carta nos convida a refletir um pouco mais sobre dois temas profundamente interligados: a bondade e a paz. O nascedouro das suas reflexes  o colo materno 
e a homenagem  mulher  a gestadora.
  Leite e mel - alimento e docilidade; necessidade e prazer. Nrida Pin, ao falar de Jesus, assim explicou: "Jesus amou s mulheres. Graas a Maria, familiarizou-se 
com aquela natureza arcaica, presente no mundo desde a sua fundao. Esforou-se em v-la atravs do filtro da justia                 e da bondade. Tratou-as com 
deferncia superior  prevista pelas leis mosaicas, speras e severas. E contrariando aquele Deus que, no Antigo Testamento, se recusava a aceitar as mulheres como 
interlocutoras, dirige-lhes a palavra, ouve seus lamentos. H muito a aprender com Jesus.  ele o amor encarnado;  ele a sntese da vitria. Perderam os que colocaram 
sobre ele uma coroa de espinhos; perderam os que imaginavam ser ele o lder da morte e da opresso.
  Meu reino no  deste mundo!
  Joo, Captulo XIX, versculo 33."
  Disse ele a Pilatos:
  "A tentao de mostrar-se vencedor  a falta de compreenso do prolongado dia da vitria."
  Voltemos  mulher. A mulher entende a vida - a mulher entende de vida. Sua natureza  a da bondade. PArtilha com sua cria, ainda em formao, o alimento, a bebida, 
o ar. O seu repouso  o repouso do filho que ainda no nasceu, mas que j chegou. Seus movimentos e pensamentos interferem no feto.
  Tudo ali  miraculosamente interligado. E depois da despedida - depois do corte do cordo umbilical -, a simbiose continua. O leite materno repousa, a ansiedade 
sacia a fome, acalma o choro e a criana dorme. E sonha.  o smbolo da paz.  isso que nos atesta a cano de DOlores Duran.
  "Hoje eu quero a paz de criana dormindo." E a bondade. Ou, em outras palavras, "o abandono de flores se abrindo". Com um doce objetivo: "para enfeitar a noite 
do meu bem". 
   isso que fez Zilda Arms ao enfeitar a noite de tantas crianas em sua Pastoral da Criana. Era esse o seu bem: o bem bondade; o bem caridade; o bem amor.
  Zilda foi o smbolo da mulher gestadora da paz - a paz que  construda nos jardins de cada casa que exerce a funo de enfeitar as paredes comuns. Morreu defendendo 
essa paz. No morreu: no morrem os que defendem a vida.  o milagre da continuidade no cotidiano. So ideias e ideais replicados em outras vidas.
  A paz interior sonhada por Lucinha Arajo. Seu filho Casusa foi sim um grande poeta. Sua vida foi comum  vida de tantos jovens que, em busca da liberdade, erraram 
e acertaram. Como todos ns: erramos e acertamos. Os religiosos e os no-religiosos erram e acertam.
  Casusa entoou canes que ficaram imortalizadas porque nasceram de suas experincias de dor e de amor. Em Codinome Beija-Flor, o poeta lamenta:
  "Pra que mentir, fingir que perdoou;
  Tentar ficar amigos sem rancor..."
E prossegue:
  "Pra que usar de tanta educao,
  Pra destilar terceiras intenes?
    Desperdiando meu mel,
  Devagarzinho flor em flor
  Entre os meus inimigos beija-flor."
  Era o seu jeito de gritar pela paz. "Eu protegi o teu nome"m independentemente das razes pelas quais ele comps essa cano e do direcionamento da sua inteno, 
a poesia  compreendida livremente por quem retira o vu do corriqueiro.
  Quando a emoo acaba, no h que se destruir, nem depressiar o que ontem era to essencial, que merecia o enfeite de toda uma noite. A poesia libertaada de Casusa 
clamava por uma ateno dos sentimentos de respeito ao outro. De nada adianta a educao se as intenes no forem as melhores.
   como conhecer com profundidade regras de etiqueta e humilhar o garom. QUe etiqueta  essa? O que  melhor saber? Com qual garfo comer, ou conhecer os sentimentos 
alheios ou respeit-los? Naturalmente o bom seria saber os dois: a tica e a esttica. O bonito s  bonito quando  bom.
  Voltando  poesia dos jovens. A juventude rebelde era a juventude contemplando o mar sem noo dos perigos. Era a onda que vinha e que batia com tamanha virulncia, 
mas que trazia um certo frescor e que escondia os seus perigos.
    Casusa entrou necessiando contrurbado, fez o corao de sua me ficar em pedaos, inverteu a lgica da vida. Foi antes, partiu e Lucinha prosseguiu, buscando 
uma ideologia para viver (a ideologia da bondade em crianas que no tiveram no leite a certeza do aconchego). Vi a Lucinha que no transformou sua dor em lamrias, 
que chorou e chora a ausncia, mas que faz presena em quem pouca presena teve nos desabrochares da vida.
  Voltemos s mulheres: bondade da Pastoral da Criana. Santas que pecam como todos, mas que bebem em uma fonte contnua de amor ao movimentar o amor. Trazem a paz 
ao cotidiano de famlias muitas vezes embrutecidas pela ausncia de compreenso da prpria paz.
  Os caminhantes em busca da Terra Prometida receberam os Dez Mandamentos. Moiss foi o escolhido para trazer as leis ao povo sedento no deserto. A pastoral tambm 
tem os seus Dez Mandamentos para um pov oque, caminhante, quer encontrar o espao sagrado do aconchego: a Terra Prometida, onde a necessidade e o prazer sero saciados. 
Leite e Mel.
  1. Tenha f e viva a palavra de Deus, amando o prximo como a si mesom;
  2. Ame-se, confie em si mesmo e na sua famlia e ajude a criar um ambiente de paz ao seu redor;
  3. Reserve momentos para criar e se divertir com sua famlia, pois a criana aprende brincando e a diverso aproxima as pessoas;
  4. Eduque seu filho atravs da conversa, do carinho e do apoio; tome cuidado: quem bate para ensinar est ensinando a bater;
  5. Participe com sua famlia a vida da comunidade, evitando sempre as ms companhias e diverses que incentivam a violncia;
  6. Procure resolver os problemas com calma e aprenda com as situaes difceis, uscando em tudo o seu lado positivo;
  7. Partilhe os seus sentimentos com sinceridade, dizendo o que voc pensa e ouvindo o que os outros tm para dizer;
  8. Respeite as pessoas que pensem diferente de voc, pois as diferenas so uma verdadeira riqueza para cada um e para o grupo;
  9. D bons exemplos, pois a melhor palavra  o nosso jeito de ser.
  10, Pea desculpas quando ofender algum e prdoe de corao quando se sentir o fendido, pois o perdo  o maior jesto de amor que podemos demonstrar.
  Em cada um desses mandamentos h um pouco da conjugao dos verbos de que j falamos: do viver e do conviver. So mandamentos simples - nada de exageros, nada 
de proibies absurdas, tudo de uma liberdade responsvel construda com vagar.
  Querido padre Fbio, a bondade  sem dvida a prova de que  possvel viver o cristianismo cotidianamente. O Cristo que fascina os jovens poetas das letras, das 
canes ou da vida. O Cristo que olha a mulher no poo de JEric e fala de uma gua viva. O Cristo que toca no corao da pecadora; o Cristo que surpreende com suas 
histrias que educavam a mente e a alma. O Cristo humilhado, espancado, crucificado; o Cristo ressuscitado!
  A ressurreio  a vitria da liberdade sobre a escravido.  a passagem -  a Pscoa -,  a transformao da morte em vida.  a vitria da paz.
  Cristo no enfrentou ps que o violentaram com dio. Aceitou o calvrio, passou pela dor e mostrou que a vida  muito mais bonita que a demonstrao mesquinha de 
um poder capaz de prender e de matar. Conseguiram matar o "pregador do amor"; pregaram na cruz o "peregrino da paz"; mas no tiveram poder para vencer a sua pregao, 
a sua peregrinao. Peregrinamos ainda hoje, embalados na sua histria - pouco sabemos dos que mataram Jesus. Muito sabemos de Jesus: seu nome, seu legadl, que desafiaram 
o tempo e a histria.
  Sua imagem revive em cada gesto de bondade. Ali, naquele madeiro, parecia um derrotado. Vitoriosos eram os que tiveram o poder de fazer seu sangue jorrar de uma 
coroa humilhante.
  Leigo engano! A vitria requer tempo. O tempo do vencedor efmero, se a razo da vitria for a razo da existncia do vencedor. Por que existimos? Para matar 
ou para dar vida? Para destruir ou para construir? Para voar ou para aprisionar os que voam? Qual  nossa essncia?
  No h vitria dissociada da essncia do vencedor. Repito: os que crucificaram Jesus no venceram a Jesus. Serviram de sinal para que a humanidade compreendesse 
que, depois da noite escura vem um amanhecer repleto de novidades.
  A Flor de Liz da sua carta, dois mil anos depois, vive os ensinamentos desse mesre do amor. Talvez no tenha estudado com mincia os seus intrpretes, mas a cada 
criana que ela acolhe dos escombros da destruio da humanidade, ela exerce o apostolado de Cristo.  assim! As aes dirias diria de bondade que a atitude humana 
se aproxima da ao divina.
  Toms de Aquino falava de um cu que se antecipava nas aes do amor. A tica cotidiana era um reflexo da bondade divina na bondade humana. A tica dos homens 
nasce no Deus da paz.  isso o que ns queremos.
  Amig, paz! A paz que transcende as formas de acreditar em Deus. No h como obrigar algum a seguir os ensinamentos que considero os mais coretos. A cada um, a 
graa se manifesta de uma maneira. Aprisionarmos uma criana para obrig-la a amar o pai e a me  no confiarmos que na liberdade o amor tem muito mais sentido. 
Apresentar um Deus que castiga, que pune e que odeia,  querer impor a essncia do amor pelo vis do pavor.
  Absurdo! Ou Deus  amor,  paz, ou Deus  um perigo iminente que, com olhos imensos, observas menores aes do dia de algum. No se nega a oniscincia ou a onipresena 
divina, nem a onipotncia. "Deus est aqui, to certo quanto o ar que eu respiro.", diz a cano. Mas Deus no est aqui para que eu me sinta coagido, amedrontado... 
Deus est aqui para que a bondade seja natural em minha vida. Deus est aqui para que a paz no seja um discurso longnquo, de ausncia de guerras, mas uma disposio 
amorosa de uma vida eterna. Deus est aqui para que eu compreenda o meu irmo - o seu tempo, as suas dificuldades - e para que eu perceba a possibilidade de vitria, 
cada vez que a vida vence a morte. A paz vence o dio!
  Essas mulheres da Pstoral da Criana so vencedoras. Milhares de crianas que poderiam ter a vida prematuramente interrompida foram salvas. Isso  uma grande vitria.
  Vencer uma eleio  um detalhe. O perdedor de hoje pode ser o vencedor de amanh; e o vencedor de hoje pode ser um perdedor, logo depois que as mscaras carem 
e mostrarem que o poltico e o candidato eram pessoas completamente diferentes. Bonecos vencem eleies, mas no administram cidades, muito menos pases. Discursos 
vencem debates, mas no garantem a paz.  de sinceridade que precisamos para que os vencedores sejam reais e no fictcios. O que  falso se desmancha; o brilhante 
e verdadeiro no se esconde do sol. Vencer uma competio no significa ser um vencedor, e perder uma competio no significa ser um perdedor.
  As vitrias ou derrotas acidentais so passageiras. Quantos, amigo, chegaram ao pdio por vencer numerosas competies? Serviram de smbolo para um esporte e tiveram 
a imagem arruinada por no conseguirem vencer na vida. E por que perderam? Talvez por se sentirem deuses, deuses do mal... Espancaram suas mulheres, seus filhos, 
violentaram sentimentos alheios... abusaram da inocncia alheia. O dinheiro  uma vitria?
  Depende! A avareza  uma doena que apequena a humanidade. As aes de um avarento servem de inspirao para um espetculo de humor; o dinheiro pode dar uma falsa 
impresso de grandeza. A grandeza  algo muito mais precioso, que no rasga, nem enferruja.
  E quantos so os que derrotados, em algum momento, meloraram. Comearam a viver de uma forma diferente... Jamais seremos derrotados se aprendermos com os nosso 
fracassos.
  Fracassemos, amigo, sem escrpulos. Fracassemos quantas vezes forem necessrias para darmos valor ao que fomos e ao que seremos. Que nossas cicatrizes construam 
a nossa identidade. Que nossas dores nos ensinem a compreender que o outro tambm fracassa, que o outro tambm sente dor. Sejamos compreensivos com os fracassos 
dos outros e com os nossos fracassos. Sejamos ento vencedores.
  Nada de exibicionismos, nada de ostentaes... apenas a capacidade singular d eouvir estrelas.
  Salve Olavo Bilaque!
  "Ouamos estrelas ento!"
  Quero convid-lo para essa caravana da paz. As nossas palavras se revestem de significado porque, modestamente, tentamos compreender o mundo. Valemo-nos de escritores, 
filsofos, poetas cancioneiros... Valemo-nos da f que abraamos, e mais: das pessoas que encontramos nas esquinas e que nos ensinam a viver.
  A vida  desafiadora, porque no nos traz receitas. Aprende-se o tempo todo. Na caravana da paz, somos convidados a revisitar as estaes da paz e da bondade, 
em que mulheres e homens se oferecem para fazer da vida um servio ao amor.
  A menina de Nazar foi capaz de perdoar os que traram o seu filho. Antes disso, mostrou-se atenta s necessidades dos convivas com a frase essencial a quem servia: 
"Fazei tudo o que meu filho vos disser." (Joo, Cap. 2, V. 5). A frase ecoa at hoje e, de nossa caravana,  possvel contemplar a mulher e a sua lio.
  Se no fosse o perdo, ela no aceitaria conviver com Pedro que negou trs vezes o seu filho nos momentos em que, a olhos humanos, ele mais precisou.
  Santas e santos, conhecidos e annimos, podem ser visitados: calmos, valentes, apaixonados. Tem a ver o Poema da Fonte, de So Joo da Cruz.
  "Cantar da alma que goza
  Por conhecer a Deus pela f
  Que sei bem eu a fonte
  que emana e corre, mesmo de noite
  Aquela eterna fonte est escondida
  Mas eu bem sei onde tem sua guarida.
  Sua origem no sei, pois no a tenho
  Mas sei que toda origem dela vem., mesmo de noite
  Sei que no pode haver coisa to bela
  e que os cus e a terra bebem dela
  mesmo de noite.
  Eu sei que nela o fundo no se pode achar
  E que ningum nela aval passar.
  Mesmo de noite.
  sua claridade nunca  obscurecida e
  sei que toda luz dela  nascida
  Mesmo de noite.
  Sei que to caltelosas so suas correntes,
  e cus e infernos regam agentes,
  Mesmo de noite.
  A corrente que desta vem  forte e poderosa 
  Eu o sei bem
  Mesmo de noite.
  A corrente que destas duas procede
  sei ue nenhuma delas procede
  Mesmo de noite.
  Aquela eterna fonte est escondida
  neste po vivo para darmos vida
  Mesmo de noite.
  De l est chamando as criaturas
  que nela se saciam s escuras
  Porque  de noite.
    Aquela viva fonte que desejo
  Neste po de vida j a vejo
  Mesmo de noite."
  So Joo da Cruz  doutor da igreja, apaixonado pela causa de Cristo. Seus poemas servem de inspirao para a compreenso da beleza da f.  recorrente a expresso 
"mesmo de noite", nesses versos.  um insistente ensinamento de que, mesmo de noite, o po vivo est disponvel para nos dar a vida. Mesmo de noite, a claridade 
nunca  obscurecida. Fala o sano de esperana. Vivemos  noite do comodismo e do individualismo.
  A noite das incertezas, a noite da depresso, que carcome as escolhas. A noite da violncia amarga contra ns e contra os outros. A noite das derrotas humanas, 
a noite da ausncia de bondade, e de paz. Mas h claridade! Assim!
  Demos vrios exemplos de pessoas comuns que se tornaram extraordinrias por fazerem da bondade um adocicamento para a refeio matinal. Enquanto alguns acordam 
azedos pela doga da noite anterior, ou pela ausncia de significados que tambm constituem em uma droga de vida, outros amanhecem vidos pelo alimento que do e 
recebem. So vidas teis. So temas que conduzem outros temas e que compem enredos.
  Desafinam? Muitas vezes sim. MAs prosseguem. No se acovardam perante os obstculos.
   esse cenrio que nossa caravana quer contemplar, at porque, muitas vezes, nos mostram um lado da humanidade. os invisveis tornam-se visveis em uma mdia que 
busca audincia na desgraa alheia. Um morador de rua torna-se visvel por ser queimado; a criana abandonada torna-se visvel por ter assaltado e roubado a vida 
de algum. O homem comum torna-se visvel por qualquer ao circense aos olhos vidos de novidades de telespectadores cuja poltrona se constitui na nica caravana.
  Engordam consumindo bobagens. Vivem aquinhoados em confortveis caixas, protegidas de outros contatos. Emoutras palavras, esto com as janelas fechadas amigo. 
Que desperdcio!
  O sol queima abundantemente l fora e, no quarto escuro, faz frio. Contentam-se com o que criaram para aquecer na ausncia de sol. Ora, no  mais inteligente 
permitir que o prprio sol venha a aquecer? No  mais natural? Mais humano?  do sol que precisamos,  do calor que emana do sol.  da metfora de Francisco de 
Assis, que viu na bondade uma companheira diuturna.
  "Mos dadas com o amor, o noivo da dona Pobreza soube contemplar as criaturas e chamar a todos de "irmos", de "irms"."
  O jovem italiano cansou-se das poltronas e buscou um tema para viver. E cantou a vida, ensinando que a paz e a conquista dos que do, dos que partilham, dos que 
perdoam, dos que espalham vida em tantas vidas sem vida.
   essa a nossa caravana, padre Fbio. Somos pequenos, amigo. Limitados, imperfeitos... Somos cheios de falhas! Camos com mais frequncia do que gostaramos. Mas 
estamos aqui, em busca desse sol maior, tendo a certeza de que a religio que professamos nasce no respeito ao nosso irmo e na necessidade de fazermos tremular 
a bandeira da paz.
  A paz que nasce nos nossos coraes e nas nossas decises. A paz que nos enternece para que, enternecidos, sabemos com bondade acolher ao nosso irmo. Sem paz 
interior, a bondade foge, assustada. No se faz uma planta crescer molhando-a com gua quente. Nada de agressividade.
  Obrigado, amigo, pelo tempo da escrita e pelo tempo da espera. Obrigado pela partilha das emoes que o encomodam e que o emplogam. sua poesia  um conforto bom 
para quem carece de paz.
  Todos ns carecemos de paz. Suas canes alcansam espaos escondidos que despertam sentimentos adormecidos. Seu sacerdcio  um exerccio potico do Deus que une 
e o inspira, e o usa como um instrumento de paz.
  "Fazei de ns, Senhor, um instrumento de tua Paz!"
  Meu carinho de irmo o convida a fazer parte dessa caravana e a nunca desistir dela. Mesmo de noite, acreditemos na bondade e na paz.

  Com carinho,

  gabriel.

  Dcima Oitava Carta

  Meu querido amigo,
  Obrigado pela semente de esperana que sua carta deixou cair em mim. Estou disposto a viver o tempo das esperas, cuidar de cada fase deste nascimento. Eu creio 
na gratuidade que h na semente; cuidando bem, ela floresce.
   a regra da vida. H um potencial na semente que o cuidado intensifica. A regra tambm vale para a luz: grandes incndios nascem de pequenas chamas. A luz de 
que o mundo precisa depende do pequeno pavio que cada ser humano pode portar. S assim poderemos reacender a luz de que a noite escura o ofuscou. Acendendo pequenas 
luzes.
  Por isso, eu aceito o seu convite.  com imensa responsabilidade que quero tocar a noite do mundo, desejoso de torn-la dia. Quero reviver a mesma mstica dos 
acendedores de lampees. NO passado, eles eram responsveis pela iluminao que nos livrava da escurido.
  Quando a noite ameaava mergulhar a cidade em seus mantos de sombra, l vinham eles com suas pequenas hastes iluminadas de fogo. O pequeno pavio alcanava o interior 
do lampeo e ele crescia - a cidade estava salva. E o acendedor quebrava os poderes da noite.
  Gabriel, os acendedores no existem mais, a vida moderna os dispensou. Ganhamos luzes prticas e eficazes, mas por outro lado estamos privados desses jestos to 
cheios de significado potico. A cidade  acessa assim que vejamos o processo da construo da luz - essa  uma das privaes que a modernidade nos traz.
  Tudo nos chega pronto. A estrutura que nos cerca deixou de ser artesanal, tudo  produzido em srie. A velocidade do consumo No nos permite mais os modelos artesanais 
de produo. De alguma forma, isso atinge a nossa viso de mundo. Consequentemente atinge tambm o nosso jeito de ser e agir.
  Tenho observado as pessoas cada vez mais descompromissadas com as questes universais. H urgncia ao particular. MAas a centralidade do desejo  a soluo mgica 
para os problemas. Esperam pelas solues da mesma forma como esperam pela luz que automaticamente ser acesa ao final do dia.
  Algum as produzir, chegaro em formatos diversos. Promessas de felicidade que no passam pelo comprometimento, pelo esforo e pela luta diria: resultado que 
no requer processo, como se fosse possvel chegar ao lugar da promessa sem passar pelo esforo da busca. Felicidades assim funcionam como fogo de artifcio: duram 
pouco; iluminam por um tempo, mas logo em seguida voltam  condio de sombra.
  A vida nos ensina: viver d trabalho. Ser feliz tambm!
  Gabriel, vejo com receio o crescimento dessa mentalidade que pretende engolir o valor pedaggico do sacrifcio. Diluda em vrios formatos instrumentais da nossa 
cultura, essa mentalidade insiste que o importante  ser feliz. Escuto constantemente a repetio dessa frase: " urgente ser feliz."
  Eu concordo com a urgncia da felicidade, mas no podemos pensar nessa urgncia fora da convergncia como o conjunto de regras e atitudes. Felicidade  muito mais 
que alegria temporria;  a satisfao que a vida nos permite em horinhas de descuido, como poeticamente sugeriu Guimares Rosa:
  "Felicidade  algo mais profundo. Pertence ao contexto da realizao humana. Est diretamente ligado da satisfao de sermos quem somos."
  O maior reconhecimento que podemos receber na vida no vem de fora: aprendo isso todo dia. O que verdadeiramente conta  o quanto estamos reconciliados com nossas 
escolhas. Essa harmonia interior que nos autoriza a sorrir.  a partir dela que estamos capazes de receber a vida com todas as suas dissonncias.
  Mas essa harmonia no nasce naturalmente. Ela  fruto de um preparo que comea no dia em que penetramos os humbrais do mundo. A felicidade do futuro est atada 
a um cordo invisvel que temos nas mos. No presente da vida, o cordo  amarrado a muitas situaes e pessoas, e assim vamos vivendo: amarrando cordes; criando 
uma teia de relaes e acontecimentos que sero determinantes para a harmonia final.  nessa construo do futuro que as construes so determinantes.
  Nem sempre as escolhas geram satisfao imediata; nem sempre ser possvel ser feliz da maneira como prope a realidade dos pragmticos. A vida pedir renncias, 
sacrifcios... Este  o contexto do preparo humano.
  Nem s alegrias, nem s sofrimentos. A maturidade nos ensina que a restrio  to benfica quanto a possibilidade. A verdade humana repousa sobre estes dois pilares, 
o desafio  grande.
  Manter vivo o compromisso de ser feliz requer observncia cotidiana. Para cada dia, a sua luta.
  O desafio  imenso.  preciso estar consciente de que a felicidade  mozaico.  preciso ser motado aos poucos, dia a dia, parte por parte. A vida se encarrega 
de nos entregar as peas. Encaix-las  tarefa de que no podemos abrir mo.
  Gabriel,  nessa hora que entra o papel das pessoas que exercem autoridade afetiva sobre ns. So os amigos, familiares, escritores, artistas pensadores, poetas. 
A organizao do mozaico  feita com a ajuda de muitas mos. As boas influncias so determinantes para que saibamos escolher com mais clareza. Tambmso importantes 
para que tenhamos pacincia no tempo das esperas, no momento em que a vida nos exigir um pouco mais.
  Vez em quando, eu recebo feliz a confisso de pessoas que consideraram importante o meu ministrio na organizao nesses mozaicos. No h nada que possa ser mais 
recompensador: saber que fizemos diferena de maneira positiva na vida de algum.
  Tenho uma histria assim. O nome dela  Cidinha Barbosa, uma senhora que tive a graa de conhecer aqui, em Taubat.
  Hoje ela esteve em minha casa, veio trazer um presente. Junto do presente estava um pequeno bilhete que me emocionou. Tomo a liberdade de transcrever suas palavras, 
sem que o jesto venha banalizar sua confisso.
  "O senhor  o presente mais caro e mais lindo que estou recebendo nessa fase de minha vida. Chegou no momento em que eu mais precisava de carinho. Suas palavras 
so o que mais me do fora para eu continuar minha caminhad nessa minha misso na Terra."
  Meu amigo, sei que no sou merecedor dessa confisso. O corao grande da Dona Cidinha me enxerga muito melhor do que eu sou. Mas preciso admitir que aquele bilhete 
me recordou que preciso fazer boas escolhas. Sou importante para algum - esse fato me afeta. Provoca em mim o desejo de acertar, renovar o pacto com as realidades 
que me edificam.
  A caligrafia frgil sobre o papel branco... me faz esquecer, ainda que temporariamente, os defeitos que possuo.  neste espao de esquecimento que Deus tem chance 
de continuar acontecendo dentro de mim. A autoridade afetiva da confisso ofusca a convico pessimista que por vezes emerge dentro de mim.
  Fazer o bem.  assim que vamos crescendo, meu amigo. Vez em quando, a vida deixa cair sobre ns essa garoa de generosidade. A palavra bondosa vem deitar suas razes 
no cho frgil de nossa condio. E ento, concluo que viver  bom. Por grandes questes, mas tambm por pequenas,  muito gratificante saber que a gente agregou 
valor  vida de algum.  motivo de alegria, sem fim, saber que minhas palavras replantaram o sonho no corao daquela que j vive os delicados territrios da velhice.
  Gabriel, voc falou de Moiss, o homem a quem Deus confiou a misso de libertar o povo de Israel da escravido do Egito. O primeiro passo dessa libertao era 
devolver ao povo a capacidade de sonhar. As primeiras amarras a serem soltas no eram materiais, elas estavam cravadas nas almas. Fazer um povo voltar a sonhar no 
 tarefa simples, requer mestria.
  Moiss era um sonhador. Foi com seu discurso inflamado de esperanas que ele conseguiu fazer com que o povo imaginasse a Terra Prometida. Depois do sonho, ele 
precisou fomentar coragem.
  A caminhada seria longa. Entre o sonho e a concretizao da promessa havia um deslocamento que Deus no faria pelo povo. A palavra de Moiss foi fundamental para 
que os mozaicos fossem montados. Famlias inteiras se colocaram a caminho, rumo  terra da promessa. A felicidade tinha lugar demarcado para acontecer, mas o processo 
de ir busc-la j conssistia em parte de sua concretizao.
  Meu amigo, nem sempre as pessoas conseguem vislumbrar o caminho. O motivo  simples: as amarras da alma ainda prevalecem. Continuam presas, impossibilitadas de 
sonho. Por isso se perdem, ficam distantes de sua realizaes.
  Homens e mulheres, acostumados s mais diversas formas de escravido; gente que se contenta em receber as migalhas que caem da mesa da vida. Pessoas certas, mas 
nos lugares errados. Gente que est esquecida de que a Terra Prometida existe, e que precisa ser buscada. Gente que desaprendeu de sonhar.
  Gabriel, gosto muito de um compositor gacho chamado Jairo Lambari Fernandes. Um poeta de primeira grandeza que canta com profundidade os sentimentos humanos. 
Dentre as muitas preciosas canes h uma, Beirando o Rio, que diz:
  "Meus olhos teimam em beber distncias,
  A busca antiga de varar caminhos
  Onde as porteiras no limitam sonhos,
  Nem so cativos os que so sozinhos.
  Meus olhos teimam em beber estrelas
  No breu celeste onde a lua navega."
  Que simbologia nobre resolveu morar nestes versos, meu caro! JAiro Fernandes sabe bem o quanto as porteiras no podem limitar os sonhos. Ele atinge o mundo, mesmo 
sem sair de sua simplicidade de homem do interior. Ele s  o poeta que  porque nunca esqueceu suas origens. Seus versos so nativos, esto organicamente ligados 
ao cho que o viu nascer.
    Gabriel, este poeta me evangeliza. Deus entra em minha casa utilizando-se dos caminhos de seus versos. Cnta com sotaque gacho uma infinidade de verdades que 
minha alma precisa saber. A sensibilidade do artista me porporciona rezar a partir de outros formatos. No so convencionais, eu sei, mas quem foi que disse que 
Deus no gosta de nos surpreender com sua chegada?
  Meu amigo, eu fico feliz em saber que na caminhada de dona Cidinha, eu estou presente. Em algum momento da vida, ela prestou ateno ao que eu dizia. A palavra 
lhe serviu como instrumental para sua aventura humana. De alguma forma, eu a ajudei em suas travessias.
A palavra funciona como mo estendida. No  fcil ir s; a segurana de outra presena nos torna mais confiantes, mais destemidos. O bilhete de dona Cidinha cumpre 
o papel de informar a minha participao em sua vida. Eu compreendo seu desejo em me contar isso.
 Eu tambm ficaria feliz em poder dizer a Lambari o quanto ele j abordou sentimentos nobres em meu corao. Essa partilha pode fortalecer ainda mais no corao 
do outro a certeza da misso. Poetas e evangelizadores indicam caminhos semelhantes.
  A palavra bendita  bno que pode aliviar O PESO QUE LEVAMOS SOBRE OS OMBROS. A arte  redeno: eleva o esprito humano, facilita compreenses, nos proporciona 
superao, dispe os coraes para partilha. Artistas e religiosos perseguem o mesmo objetivo: juntos, nso vamos descobrindo os rastros do sagrado no tempo, na 
histria. Vamos desvelando seus vestgios, encontrando a face da beleza que nos faz perder o medo. Medo? Isso mesmo! Enquanto muitas pessoas que sentem medo de Deus, 
e por isso esto privadas do crescimento que seu amor pode lhes proporcionar. Eu tambm j tive medo de Deus, inmeras vezes.
  As situaes foram diversas. Tive medo quando ouvi minha catequista dizer que Ele tinha olhos imensos, que no nos perdia de vista. A frase servia como alerta: 
ele estava de olho nos meus deslizes cometidos... isso me fez perder a espontaneidade de errar.
  O erro - processo natural da condio humana - tornou-se motivo de culpas e autopunies. Levei tempo para reconsiderar O ensinamento. A responsvel pela reconstruo 
foi minha me.
  Mesmo no tendo frequentado uma faculdade de teologia, ela me fez compreender, de maneira diferente, o tamanho dos olhos de Deus. Eles so grandes porque amam, 
para que voc se sinta protejido por eles. DIsse-me com simplicidade, sem rodeios. A frase de minha me repercutiu dentro de mim. Era uma frase bela, mais que isso 
verdadeira. Foi a partir dela que eu tive a graa de compreender que vigilncia tambm  amor.
  Ela me deu oportunidade de iniciar um processo de reconciliao interior, cujo fruto eu ainda no colhi na totalidade, pois pertence ao processo da vida toda. 
Aprendizado que prope uma antropologia positiva e otimista, capaz de ver esperanas no corao humano, mesmo sabendo que ele  territrio de contradies.
    Mais tarde, depois de ter tido a graa de conhecer a escrita vigorosa da mineira Adlia Prado, tive contato com o verso surpreendente que est no seu poema "Filhinha". 
O verso  religioso, parece fazer parte da reconstruo da imagem divina. A autora diz:
  "Deus no  severo demais
  Suas rugas, sua boca trincada,
  So marcas de expresso de tanto sorrir pra mim."
  Fiquei comovido com a singeleza da confisso, revela uma ousadia na confisso do sagrado, uma mstica irreverente, capaz de rasgar o vu do templo, mas sem promover 
a banalizao do espao. O verso  boa nova, pois  anncio de uma descoberta pessoal que tem o poder de mudar a interperetao que a poetiza faz de si mesma.
  Ela tambm deve ter crescido sobre a gede de um discurso religioso fortemente marcado pelas ameaas de vigilncia e punies.  bem provvel que Adlia tenha 
precisado vencer as consequncias desastrosas do discurso que ensina o amor a Deus a partir do medo.
   estranho, mas a instrumentalizao do medo sempre fez parte do contexto das religies.  um recurso simples, gera um efeito rpido (obedincia), mas no  recurso 
eficaz. O medo paraliza, impede a reflexo. religio que no faz refletir pode ser nociva. A obedincia cega no costuma fomentar valores consistentes. Limita-se 
a ser a reproduo de um contentamento que deixar de ser considerado no momento em que cessar a vigilncia.
  Meu amigo, eu estou certo de uma coisa: a interpretao que fazemos de Deus reflete diretamente na interpretao que fazemos de ns mesmos. Se creio em um Deus 
carrasco e opressor,  bem provvel que eu venha reproduzir essa possstura no mundo. Se a paz de Deus, que me foi apresentada, insiste em reproduzir caricaturas 
desumanas,  provvel que eu tambm assuma um comportamento desumano e cruel.
  Adlia Prado  uma artista que cr em Deus. sua literatura nasce do cotidiano que ela reconhece como sagrado.
  Eu sei que  sagrado, ningum me disse, eu reconheci. Ao ter contato com sua escrita, escutei em meu interior a mesma frase que Moiss pde ouvir de Deus quando 
ouviu a sara arder: "Tira as sandlias dos teus ps! Este solo que pisas... ele  santo." (xodo, ca. III, v. 5)
  Gabriel, eu creio em Deus a partir de bilhetes e recados amorosos.  atravs dessas interferncias humanas que vejo seus traos na histria de minha vida. Ele 
passa por mim o tempo todo
! Visita os meus dias atravs de pessoas. So elas que me auxiliam com meus mozaicos. De vez em quando, no sei o que fao com as peas. Elas me indicam possveis 
solues: coisas que, sozinho, eu no podia ver. Os meus olhos se abrem; vejo de forma diferente o que antes me oprimia.
   nessa hora que experimento o poder teraputico da fratrnidade.  a autoridade afetiva e determinante para que possamos ouvir o que o outro sugere.
  Costumo dizer que s podemos dar ouvidos s pessoas que nos amam, mas tenho pensado que a palavra dos que no nos amam tambm pode servir para o nosso crescimento. 
Tudo depende do que fazemos com a palavra recebida.
  Tenho muito receio quando ouo as vozes que esto tendo a autoridade nos dias de hoje. Em muitos seguimentos a sociedade de poetas, pensadores e religiosos esto 
esquecidos. A poesia foi suprimida pela fora da vida prtica, a dimenso simblica cedeu espao aos discursos estreitos e pragmticos.
  Querido amigo,  preciso resgatar a fora da ptica.  urgente, nas palavras e nos gestos. Devolver ao mundo os fragmentos da beleza perdida, restituir o humano 
de suas perdas to fundamentais. Hmuitos mares naufragando sonhos e esperanas. Precisamos reassumir a funo de Moiss.
  O especfico de todo homem que tem amor  humanidade deve ser o compromisso com a vida. O resto  consequncia! A vida  o valor absoluto que deve mover os nossos 
motivos. Mesmo quando tudo parece errado, a vida no desiste. O desafio  no desistir. H sempre um pavio esperando pela luz; h sempre um bilhete carinhoso esperando 
o portador. H sempre uma boa nova a ser anunciada. H sempre um livro de Adlia esperando para ser lido. H sempre uma msica de Jairo Fernandes repleta de rimas 
preciosas. A arte redentora est por toda parte; ainda que escondida, mas est.
  Encontrei essa redeno num trecho de Adlia  de seu livro Filandras.
  A origem das palavras est no pensamento de Clia, uma das personagens de seus contos. Voltando de uma viagem de nibus, ela comeou a observar a pobreza do mundo. 
O sentimento que lhe ocorre est revestido deptica. Vale a pena transcrev-lo:
    "Estava muito surpresa com a perfeita mecnica do mundo e muitssimo agradecida por estar vivendo. Foi quando teve o pensamento de que tudo que nasce deve mesmo 
nascer sem impeclio, mesmo que os nascituros formem palavras, hortas e cordas de miserveis. E os governos no saibam mais o que fazer com os sem teto, os sem terra, 
os sem dentes... E as igrejas, todas reunidas em conclios, adotem suas teologias sobre caridade, discernidas e no tenhamos mais tempo de atender  porta a multido 
de pedintes."

  Ainda assim a vida  maior. O direito de nascer e morar num caixote  beira da estrada. Por que um dia, e por ser o nico dia de sua vida, um deserdado daqueles 
saia de seu buraco  noite, e se maravilhe.
  Chama seu compadre, de infortnio:
  - Vem c, homem! Repara se j viu cu mais estrelado e mais bonito que este!
  Para isto, vale nascer."
   assim que me despeo. Na certeza de que a misria do mundo no  nada diante dos olhos que ainda so sensveis aos encantos e mistrios da beleza. Na certeza 
da comunho, despeo-me.
  
  Com minha bno,

Padre Fbio de Melo.


  Agradecimentos
  Carla carvalho Mller
  Denise Sobrinho
  Frederick Cashar
  Mauro Palermo
  Ronald Carvalho
  Rubens Naves.

  Porque a generosidade  um jeitoelegante de swer amigo.


  Em todo caso, cuide logo de se defender. J no digo da dor, porm da infelicidade.
  Isso de sofrer dor pode ser parecido; porm, est longe de ser infelicidade.
  Isso da gente reconhecer com franqueza e confiana a realidade e os direitos da realidade... O manuseamento cotidiano da realidade que obriga a gente a se conformar 
com ela. E tratar de consert-la, como melhor pode, d pra gente essa felicidade interior que no tem dor que acabe.
  Essa felicidade, talvez um pouco descarada, de to impetuosa, que voc j deve ter percebido nas minhas cartas e que eu venho.
  Agora, por exemplo, me arrebentou na cabea feito uma luz, que isso vem de uma aceitao ntima permanente da realidade. E, pois, que essa realidade  deveras 
a coisa mais importante com que a geente tem de contar para viver, vamos trabalh-la! Nos aproveitando de tudo o que ela d. Ela mesma, pra que a gente vena quando 
ela  ruim.
  Aceitar a realidade primeiro, depois consert-la.

  Mrio de Andrade em carta a Carlos Drumond de Andrade.